Ponto de Situação



Quando as regras não nos protegem

Ao longo dos decorridos nove meses desde o início da pandemia muitas medidas foram tomadas e definidas regras no intuito de sensibilizar, evitar ou mitigar as consequências da situação. Umas, tem vindo a provar-se, eram inevitáveis. Outras, porém, eram sobejamente evitáveis.
Falamos de uma destas medidas. Falámos nela por diversas vezes, como absurda, como perigosa, como suscetível de criar mais problemas do que soluções. Falamos da recusa das autoridades de saúde em informar os bombeiros sobre o registo de casos de COVID-19 que não necessitando de tratamento hospitalar têm permanecido nas suas residências com base numa pretensa e abusiva interpretação do regulamento geral de proteção de dados.
Os bombeiros merecem a confiança para umas coisas, mas, pelos vistos, não são merecedores da confiança para outras, mesmo que estando em causa a saúde pública e a sua própria integridade, como é o caso desta pandemia.
Nesta pandemia tem havido muitas intervenções dos bombeiros realizadas sob o signo lamentável e evitável da surpresa já que muitas vezes, por falta de informação só no próprio local se aperceberam tratar-se de doentes infetados ou suspeitos de COVID19. Houve inclusive casos de doentes transportados pelos bombeiros para os hospitais, que acabaram por morrer com COVID 19, e de cuja infeção e falecimento os bombeiros só tiveram conhecimento depois e por acaso.
Quem está na primeira linha, como é o caso permanente dos bombeiros, merece respeito e ser tratado como tal. O risco é inevitável pelas características da própria missão, mas pode ser controlado ou mitigado na medida das necessidades ou das possibilidades. Agora, desvalorizá-lo ou escondendo-o é que não.
Que resposta dá o Estado aos muitos bombeiros infetados no decorrer da sua missão e que em muitos casos podia ter sido evitado?
Todos sabemos que neste caso está em jogo a confidencialidade das informações. Será que os bombeiros não são dignos de também serem repositórios da mesma como já o fazem relativamente aos dados de outras situações e sinistros? Em que é que este caso é diferente dos restantes?
Temos insistentemente questionado as autoridades sobre essa matéria e, invariavelmente, somos correspondidos com simples mutismo ou desculpas de mau pagador. Não se compreende nem se aceita essa situação mesmo que assente no dito regulamento de proteção de dados. De fato, os bombeiros não precisam de nomes, mas apenas de moradas onde possam permanecer doentes infetados, de modo a que possam estar de sobreaviso caso venham a ser chamados a esses locais. Tão simples em nosso entender e, pelos vistos, tão complicado para outros.
O desconhecimento é prejuízo para todos como é fácil antever. Mas nem todos têm esse entendimento num período tão difícil da vida deste país em que, mais do que esconder e sonegar informação, importa partilhar, avaliar e atuar em conjunto, cada um na sua esfera e competência, para que os efeitos da intervenção sejam mais alargados e eficazes. Não se trata de nenhuma competição nem, muito menos, de nenhuma feira de vaidades. Trata-se da saúde dos portugueses. Trata-se da saúde dos nossos bombeiros, pelo respeito que merecem, mas também pelas condições que têm que lhes ser proporcionadas para salvaguardar a sua integridade e a eficiência e eficácia da sua missão.
Quando as regras não protegem os cidadãos e, no caso particular, nem protegem os seus bombeiros, algo vai mal.