Bloco de Notas



Uma campanha com resultados e atitude

A empresa italiana Calzedonia está a promover, pelo terceiro ano consecutivo, em parceria com a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), a campanha "Natal a Meias", cujo sucesso ficou bem evidenciado nas edições anteriores.
Em plena pandemia, e com dificuldades económicas sentidas pela generalidade das empresas, seria compreensível que desta vez a Calzedonia entende-se suspender a iniciativa. Isso já aconteceu no passado outras vezes e com outras entidades, mas não foi este o caso. A empresa entendeu, não só manter a campanha, como dar-lhe novo fôlego, com bom gosto, vivacidade e alegria protagonizada pela presença da madrinha Ana Sofia e da animação das meias.
A TVI, igualmente, volta a associar-se à campanha a favor dos bombeiros, à semelhança do que tem feito no mesmo sentido em parceria com outras entidades e empresas, nomeadamente, os Mosqueteiros. O sucesso destas campanhas passa sempre pelos objetivos, pelos meios empregues e pela participação dos cidadãos seus principais visados. E têm sempre subjacente uma demonstração clara de responsabilidade social por parte das empresas.
A designação de responsabilidade social tem servido para muita coisa em Portugal. Desde logo, para identificar e formatar campanhas com percurso e finalidades bem traçadas. Mas também, infelizmente, para manipular a opinião pública em torno de mensagens pouco claras, objetivos nebulosos, excelentes ações de marketing, mas com resultados com muita parra e pouca uva. Com algumas campanhas, os beneficiários, habitualmente do terceiro setor, servem de bandeira abusiva de outros interesses que resistem e passam incólumes, mas a que, em verdade, nunca poderemos chamar responsabilidade social nem solidariedade.
A campanha da Calzedonia está obviamente nos antípodas disso tudo, com objetivos claros e facilmente mensuráveis e escrutináveis, e uma eficácia que a própria experiência tem provado. Trata-se de uma clara demonstração de atitude que abona em favor das intenções, credibilidade e fiabilidade da iniciativa e da própria empresa.
Caberia ao Estado, todos o sabemos, garantir aos bombeiros os equipamentos de proteção individual, as viaturas de socorro e outros equipamentos que estes têm obtido apenas com a iniciativa das empresas e a participação dos cidadãos. Não vai mal ao mundo que a sociedade civil e as empresas também chamem a si boa parte dessa iniciativa. Contudo, também por essa razão, o Estado não pode demitir-se das funções que está obrigado a desempenhar e para as quais tributa os cidadãos e as outras entidades.
Trata-se de uma questão que se tem protelado no tempo, sob o protesto permanente da LBP, e que os sucessivos Governos não têm sabido nem querido solucionar, não obstante todos se lembrarem dos bombeiros quando deles precisam, particularmente em períodos de aperto como é o caso da presente pandemia. O Estado falha clamorosamente, por exemplo, na atribuição aos bombeiros dos equipamentos de proteção individual para a pandemia, substituído em muitas situações, pelos próprios cidadãos, pelas autarquias ou por entidades privadas. Ao invés, é o primeiro a pedir a intervenção reforçada dos bombeiros.
Pena é que o Estado não siga o exemplo de empresas como a Calzedonia.