Bloco de Notas



A vida não continua

É comum dizer-se que, após qualquer situação fora do comum que implique aspetos negativos ou que altere eventuais rotinas, a vida continua.
Ora, a reflexão que gostaria de fazer hoje convosco orienta-se precisamente em sentido contrário e contraria essa lógica, assente no pressuposto de que, depois da tempestade vem a bonança e tudo aquilo a que estávamos habituados.
A situação pandémica que temos estado a viver, as profundas alterações nos nossos hábitos e rotinas, na nossa forma de estar em sociedade e nas próprias atividades, económicas também, dita que, em primeiro lugar, se torna cada vez mais difícil, quase impossível, restaurar ou retomar rotinas e hábitos antigos e, em segundo lugar, e que tenhamos que nos reorganizar individualmente, socialmente e institucionalmente para seguir em frente.
A pandemia, de fato, tem correspondido a três, a saber, uma sanitária, uma social e outra económica. E cada uma delas em particular e da interação entre elas têm surgido situações que não se compaginam com os hábitos e rotinas que tínhamos anteriormente.
A vida como aprendemos, conhecemos e fomos vivendo não continua. Na realidade, assume novas facetas e posturas que, contrariando o passado, se apresentam de forma imperativa.
Todos os hábitos e rotinas anteriores foram alterados, modificados ou, pura e simplesmente, suspensos.
Isso prende-se com a vida de cada um de nós e, também, com as nossas instituições, associações e corpos de bombeiros.
As condições e os termos em que antes as nossas instituições funcionavam sofreram mudanças que tendem a cristalizar-se em função das três pandemias e das suas consequências.
O transporte de doentes não urgentes, o socorro pré-hospitalar e o combates aos mais variados tipos de incêndios foram obviamente visados nisso. E, se em todas essas situações se verificava estar-se no limite ou para além do seu custo real, acumulando as associações e corpos de bombeiros essas situações deficitárias, constata-se agora que a resiliência destes e destas tem limites e está precisamente a atingir uma fase de esgotamento que corre o risco de ser irreversível.
Teimosamente, pode dizer-se, a Liga dos Bombeiros Portugueses há anos que tem reclamado dessa precisamente e, com maior frequência e acutilância desde que a situação pandémica teve início há um ano.
Às fragilidades que já estavam identificadas nas condições em que era feito o transporte de doentes e o pré-hospitalar, e que recorrentemente levaram a Liga a exigir medidas do Ministério da Saúde, têm vindo a agravar-se de mês para mês. Já não basta apenas o acréscimo de custos provocados pela assunção de equipamentos extra anticovid. De facto, a situação já se encontra para lá disso, perante outros aumentos de custos associados, aos combustíveis, à manutenção, ao programa de renovação de viaturas, aos vencimentos dos bombeiros que prestam esses serviços, aos custos administrativos e técnicos dos mesmos. A uma situação que já era crónica sucedeu outra ainda mais gravosa e profunda.
É uma soma longa de custos que vão exaurindo as associações e corpos de bombeiros. Em que as receitas obtidas há muito não cobrem e em que a defesa do facto das nossas instituições assumirem contornos humanitários e voluntários constitui apenas justificação de mal pagador do Estado.
Rever os protocolos para o transporte de doentes e para o pré-hospitalar, como a Liga tem defendido, não passa apenas por acrescentar cêntimos às tabelas em vigor. Esses modelos, foram aplicados ao longo de anos e, na maior parte dos casos, sem cobrir os custos reais dos respetivos serviços. Hoje, por maioria de razão assente nessa questão, mas também nas mudanças que, por si, a pandemia trouxe, somos conduzidos implicitamente a uma profunda reflexão e a um caminho que leve a valores e regras que, de uma vez por todas, se compaginem com a realidade.
A precaridade das situações, o seu eventual caráter transitório, não podem servir de desculpa ao Estado para, como se tem estado a assistir, continuar a autofinanciar-se através dos bombeiros, porque é disso que se trata. E, assim, a vida não pode continuar.