CONCENTRAÇÃO NACIONAL - TERREIRO DO PAÇO
Bombeiros rejeitam “pseudorreforma”
06/12/2018 16:03:42
e exigem respeito
Mais de três mil bombeiros e 800 viaturas, de todos os 18
distritos do continente e também das ilhas, em representação de 90 porcento de
associações humanitárias estiveram no Terreiro do Paço, no passado dia 24 de
novembro, para dizer não, ao que apelidam de “pseudorreforma” da proteção
civil, naquela que foi primeira grande concentração de protesto na história dos
bombeiros de Portugal.
Sofia
Ribeiro (texto)
Marques Valentim (fotos)
“Estamos aqui por vocês soldados da paz de todo o País, que
arriscam todos os dias a vossa própria vida, na defesa da vida do outro homem
vosso irmão e vão sempre sem regatear esforços, muitas vezes sem saberem se
regressam. São assim os bombeiros, credores de todo o respeito, admiração e
amizade dos portugueses. Então porque é que o Governo (…) nos está a humilhar a
desrespeitar com a reforma da proteção civil que nos apresenta?”, palavras de
Jaime Marta Soares
a uma plateia de mais de três mil mulheres e homens de todos os pontos do País
que, na manhã de 24 de novembro, pintaram de vermelho a emblemática praça do
Terreiro do Paço, em Lisboa, ali mesmo junto ao ministério da Administração
Interna, afinal o alvo de um protesto motivado por alterações legislativas no
setor da proteção civil nas quais os bombeiros não se revêm, até por não
atendem às já antigas reivindicações de operacionais e dirigentes associativos.
Foi do palanque instalado numa viatura de bombeiros que o
presidente da confederação, pediu ao “governo que reflita sobre as reformas que
apresentou aos bombeiros portugueses”.
“Nós podíamos estar aqui a reclamar por mais e melhores
viaturas, que não temos, por mais e melhores equipamentos de proteção
individual, que não temos, ou por muitas outras situações, mas não. Não viemos
aqui pedir nada a ninguém. Mesmo zangados, ofendidos com o Governo, viemos aqui
reafirmar, que nunca e em circunstância alguma deixaremos de estar nas frentes
de batalha a defender a vida e os haveres de todos os portugueses, porque é por
eles que estamos aqui”, sublinhou, clarificando que as reformas preconizadas
pela confederação e em devido tempo apresentadas à tutela visam melhorar o
equipamento, a preparação e a organização estratégica e operacional dos
bombeiros que são os principais agentes de proteção civil, cumprindo uma missão
de risco, na maioria dos casos, de forma voluntaria, mas sempre “competente e
profissional”.

A Liga considera a nova lei orgânica da ANPC
"completamente desajustada da realidade do país", que "interfere
na autonomia" das associações humanitárias dos bombeiros, frisou o
presidente da LBP.
Entre várias outras questões, a LBP crítica a criação de
cinco comandos regionais e 23 sub-regionais de emergência e proteção civil em
vez dos atuais 18 comandos distritais de operações e socorro.
Na base deste protesto estão os diplomas, aprovados na
generalidade, em conselho de ministros, no 25 de outubro com especial enfoque
na lei orgânica da futura Autoridade Nacional de Emergências e Proteção Civil (ANEPC)
que substituirá a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC). Segundo Jaime Marta Soares, as alterações
assentam na secundarização da missão dos bombeiros que, afinal, garantem
"95 por cento do socorro e 92 porcento do dispositivo no combate aos incêndios
florestais" e que, assinala-se, o Governo e os seus vários protagonistas,
reconhecem ser “o principal pilar” ou “coluna vertebral” do sistema de proteção
civil.
"Que fizeram os bombeiros para merecer este
desrespeito?”, questionou Jaime Marta
Soares que, no Terreiro do Paço voltou a exigir o comando
único, uma direção acional de bombeiros independente e com orçamento próprio,
batendo-se, uma vez mais, pelos incentivos ao voluntariado, designadamente do
cartão social do bombeiro.
Registe-se que na proposta entregue à tutela, nesta matéria
a LBP defende um modelo que envolva o Estado, vários ministérios – Saúde
Administração Interna, Trabalho e Segurança Social e Finanças – mas, também, as
autarquias e os privados. Dos benefícios requeridos destacam-se a bonificação
do tempo de serviço para efeito de pensões, a isenção de IRS nas compensações atribuídas
pelas associações humanitárias aos bombeiros voluntários, a redução da idade de
reforma, a redução dos rendimentos brutos para cálculo de IRS, isenção em 50
porcento na taxa de IMI e do IUC, e ainda prioridade no acesso a habitação
social, bolsas de estudo para o ensino superior, entre muitos outros benefícios
que o Estado reduziu a pouco mais que entradas gratuitas em
espaços culturais.
Para o presidente da confederação, o atual primeiro-ministro
é o autor de uma reforma encetada há 15 anos, quando era ministro da tutela,
que apesar de todos os erros pretende terminar.
A concentração teve lugar um dia depois da LBP ter reunido
com o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, para uma vez mais
apresentar as propostas, os contributos para reforma da Proteção Civil. Desse
encontro não saiu, até à data, "qualquer acordo, nem entendimento"
embora o ministro e o secretário de Estado façam questão de, publicamente, de refutar
todas as acusações de desrespeito ou desprestígio dos bombeiros voluntários, e,
de alguma forma, não dar por encerrado o processo negocial.
“Pelos incentivos ao voluntariado”; “Juntos por Portugal e
pelos portugueses”; "Por um comando autónomo”; ou “Força
insubstituível", eram algumas das palavras de ordem inscritas em dezenas
de cartazes que ajudavam a justificar a manifestação, que acabou como começou,
sem qualquer incidente, não obstante o elevado número de viaturas que vindas de
Norte e de Sul que invadiu a capital, tomando toda a área fronteira ao Tejo
entre a Praça do Comércio e a estação ferroviária de Santa Apolónia.
Terminada esta jornada de luta, já com outras agendadas, os
bombeiros deixam claro que não vão baixar os braços e “se for preciso voltam de
novo a Lisboa ou a outro ponto do País”, para continuar a dar voz à indignação.
Segundo o comandante Jaime Marta
Soares “os soldados da paz e da vida não temem fazer a
guerra” na salvaguarda dos seus direitos.
Registe-se que esta concentração foi aprazada em sede de
conselho nacional da Liga dos Bombeiros Portugueses, que se realizou no dia 8
de novembro, incluída numa moção, aprovada por unanimidade e aclamação (ver num
outro local), que prevê ainda outras ações de protesto, nomeadamente uma
reunião geral de operacionais e dirigentes, agendada para o próximo dia 8, a partir das 10 horas no
Centro Nacional de Exposições, em Santarém.
No rescaldo desta impressionante concentração, promovida
pela Liga dos Bombeiros Portugueses, demonstrativa
de uma união sem precedentes, mas também da indignação generalizada, resultou
do trabalho conjunto das federações que se empenharam a 100 porcento na expressividade
deste protesto, mas, também, do empenho dos dirigentes federativos e associativos
de Bragança a Faro, também dos Açores e da Madeira, do dinamismo dos comandos e
da entrega dos milhares de bombeiros, de mulheres e de homens anónimos que tudo
dão a Portugal e aos portugueses, sem nada pedirem em troca, que não um pouco
mais de respeito, que segundo Jaime Marta Soares faltou aos governantes quando aprovaram
a nova legislação.
SINTRA
Bombeiros fora do DECIR
Bombeiros do concelho de Sintra anunciaram que não irão
fazer parte do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais (DECIR) do
próximo ano em discordância com as alterações legislativas previstas,
nomeadamente na nova lei orgânica da Autoridade Nacional de Proteção Civil
(ANPC).
Com esta decisão, para já, os meios do distrito de Lisboa
que habitualmente integram o DECIR sofrem uma redução de 20 por cento num total
de 15 equipas.
Em conferência de imprensa os bombeiros de Sintra defenderam
que, à semelhança da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), passe a existir um
comando único e que deixem de estar dependentes da ANPC.
Por outro lado, as alterações administrativas que se
preconizam, conforme referiu na conferência de imprensa o comandante dos
Bombeiros de Algueirão Mem-Martins, Joaquim Leonardo, “vai mexer com a atual
organização que os bombeiros têm, que é uma organização que já está
implementada e funciona, estamos rotinados e, portanto, não faz sentido que o
Governo mude tudo face ao que aconteceu em 2017 e não ouça sequer o principal
agente da proteção civil que é responsável por 90 por cento das ações em
proteção civil e socorro do País.”
Registe-se que na sequência da “declaração de Bragança”
também dirigentes e elementos de comando de vários distritos, em protesto, ou
se recusam a participar nas cerimónias presididas por elementos do Governo ou
abandonam as sessões antes da intervenção destes governantes, como foi o caso
em Mira de Aire ou em Soure.
dúvida momentos ímpares que vivemos e que nos encheram de orgulho,
não só pelo reconhecimento pleno da justeza das posições dos bombeiros
portugueses, mas também pela exemplar conduta, dignidade e coesão que os
bombeiros demonstraram ao país.”