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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

10/12/2018

22:26

NAZARÉ

Bombeiro ferido anseia pelo regresso ao ativo

09/11/2018 12:47:32

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Já se passaram dois meses, podem passar-se muitos mais meses e anos, mas Abílio Rogério Estêvão Neves não esquecerá, certamente, o dia 25 de agosto de 2018, quando um acidente como uma motobomba, num incêndio em Seia, lhe causou queimaduras em todo o corpo, em particular nos membros inferiores

A explosão da motobomba, continua ainda por explicar, principalmente a um operacional experiente com mais de 20 anos de carreira e, curiosamente, também um mecânico experimentado, responsável pela manutenção da frota dos bombeiros, certo é que apesar do susto Abílio encontra-se, agora, em franca recuperação e num destes dias no quartel dos Voluntários da Nazaré, não escondeu ao jornal Bombeiros de Portugal “a vontade de voltar ao ativo”, ainda que o comandante João Paulo Estrelinha e o presidente da direção da associação humanitária, Joaquim Morais, depois da aflição daquele final de agosto, só esperam o pleno restabelecimento do bombeiro, ainda que reconheçam que o operacional e motorista de pesados, profissional há 23 anos, muita falta faz, numa casa onde todos são sempre poucos para fazer face às solicitações da população e também dos milhares de forasteiro que de verão e inverno fazem questão de visitar esta estância balnear que ganhou enorme notoriedade de um “canhão” com o surf.

Naturalmente afável, mas de pouca palavras, o bombeiro de 3.ª – Juca, para os amigos – conta que estava no Parque Natural da Serra da Estrela no combate ao incêndio, numa tarefa de rotina quando se deu rebentamento. Assegura que esteve sempre consciente, mas daquele momento de aflição guarda poucas memórias. Abílio Neves foi prontamente socorrido pelos bombeiros e pelo INEM e depois evacuado de helicóptero para o Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra (CHUC) a partir do campo de futebol de Loriga. 

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Já o comandante Estrelinha recorda, detalhadamente, cada um dos instantes que se seguiram ao toque do telemóvel, ao momento em que lhe disseram que um dos seus corria perigo de vida. Garante que “voou” até Coimbra, onde, aliás, acabou por “chegar primeiro que o acidentado”.  

“Estou nos bombeiros há 36 anos e apesar de toda a experiência e de todas as formações nada nos prepara para isto. O ano passado aconteceu o que aconteceu no nosso distrito… Estava longe de pensar que isso nos podia tocar a nós, até porque este foi mesmo o primeiro acidente neste corpo de bombeiros”, diz-nos o comandante em jeito de desabafo, confidenciando: 

“Andei stressado, preocupado, muitos dias… Só pensava em todos os outros comandantes que já passaram por situações destas e algumas bem mais graves … Dou-lhes muito valor, até porque eu senti muita dificuldade em gerir tudo isto. Lembrei-me tanto do Rosinha que há tão poucos dias tinha estado aqui connosco…”.

Apesar dos tratamentos estarem a correr bem e Juca apresentar sinais de enorme recuperação, não obstante as naturais lesões cutâneas que demoraram a sarar, o comandante e o presidente da direção ainda recuperam de 17 dias difíceis, das preocupações com Abílio mas também com a família que “teve sempre todo o apoio”, como fazem questão de sublinhar, até porque essa era mais que um dever, “uma obrigação da associação”, que continua a cumprir todas as obrigações contratuais com o funcionário, até porque as necessidades básicas e diárias desta família, com três filhos menores, não compadecem com os tempos das seguradoras, com os momentos das indemnizações. 

“Quem paga ou deixa de pagar o quê? Isso não importa agora. Fundamental é que nada falta a esta família”, defende Joaquim Morais.

“Foi um grande susto”, confessa Juca, mas maior a preocupação com a mulher e os filhos que ficaram a saber do acidente pela televisão, uma situação lamentável que o comandante tentou como pode minimizar, até porque quando foi autorizado a visitar o seu bombeiro percebeu que, “felizmente” a situação não tão grave como, inicialmente, foi vaticinado.  

“Falamos logo com os médicos e com o Juca e ficamos um pouco mais tranquilos e, de imediato, contactamos a esposa”, refere João Paulo Estrelinha, salientando que não havia danos nas vias aéreas e as queimaduras mais graves eram nos membros inferiores, prova, como insiste em denunciar que “o EPI que é caro não protege os bombeiros”. 

Presidente e comandante fazem questão de garantir que neste, ainda doloroso, processo nunca lhes faltou apoio, desde logo dos médicos dos hospitais da Universidade de Coimbra, mas também da Câmara Municipal da Nazaré, da Liga dos Bombeiros Portugueses, da Autoridade Nacional de Proteção Civil – “dos CODIS ao CONAC” – do governo e até do presidente da República,

nazare3.jpg“Até à data não temos qualquer razão de queixa, até hoje nunca nos sentimos abandonados ou esquecidos”, frisam.

Abílio Neves nasceu em 1972 em Angola, mas ainda muito novo rumou com a família para a Nazaré, ingressou no corpo de bombeiros da terra de adoção, como aspirante 1994 e, por lá, ficou até hoje, primeiro apenas a cumprir serviço voluntário, mas pouco tempo depois foi convidado a integrar o quadro de funcionários. 

Com um sorriso no rosto revela aos jornalistas o “gosto de ser bombeiro, de socorrer as pessoas”, que em nada ficou beliscado com o acidente, por isso logo que os médicos o permitam, até porque ainda tem de se deslocar regularmente a Coimbra para efetuar tratamentos, estará de regresso ao quartel, ao seio desta que é certamente também a sua família.

As marcas no corpo, os dias sempre difíceis de internamento e de recuperação não deixaram mais que sequelas físicas, porque a determinação em servir e a entrega à causa mantém-se intactas, como naquele primeiro dia de abril de 1994, quando entrou no quartel para se fazer bombeiro.

“Desistir? Nunca pensei em desistir dos bombeiros”.


Sofia Ribeiro


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