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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

sexta-feira,

20/07/2018

17:27

COMADO NO FEMININO

“Temos que provar todos os dias

08/03/2018 12:52:19

que mereceremos estar onde estamos”


Em Portugal são apenas quatro as mulheres à frente de estruturas de comando de corpos de bombeiros, entre elas Lurdes Fonseca e Maria João Guerreiro, duas operacionais de garra, com muita tarimba operacional, mas que tomam este como um dos grandes desafios das suas vidas.

Em Salvaterra de Magos e Vila Nova de Milfontes são elas que ditam regras, nada que diferencie ou tipifique atuações, antes uma particularidade ou uma curiosidade porque, em pleno século XXI, é ainda reduzido o número de mulheres nos quartéis e muito menor ainda o das que ocupam postos de liderança.


Sofia Ribeiro (texto)

Marques Valentim (fotos)


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No território nacional, servido 435 corpos de bombeiros voluntários, apenas em Anadia, Crestuma, Salvaterra de Magos e Vila Nova de Milfontes os comandos são assumidos por mulheres. Da mesma forma, dos quase 30300 operacionais ao serviço do socorro no nosso Pais, elas são pouco mais que 6300, ainda que, assinale-se, o efetivo feminino tenha vindo a crescer. A rotatividade nas estruturas de comandos, por circunstâncias várias, é uma realidade que mexe também com as mulheres que -  já foram mais, mas também já foram menos - neste momento são apenas 31, um contingente pequeno comparado com o masculino que integra mais 1118 comandantes, 2.º comandantes e adjuntos de comando.

Os números não surpreendem Maria João Guerreiro e Lurdes Fonseca que conhecem bem este universo que é afinal o seu, até porque desde muito jovens cumprem a missão de proteger e socorrer as populações. Embora acreditem que, no futuro, seja possível esbater as discrepâncias, preferem salientar que nunca sentiram qualquer tipo de descriminação, nem enquanto elementos do corpo ativo, nem mesmo como comandante, embora Maria João Guerreiro, desabafe:

“A verdade é que neste meio temos que provar todos os dias que mereceremos estar onde estamos”, sustentando que o escrutínio é maior, tanto internamente como fora do quartel, “sobretudo em meios mais pequenos, onde todos se conhecem”.

Lurdes Fonseca tem uma visão diferente, fez-se bombeira nos Municipais de Coruche, subiu na carreira a pulso, alcançou o posto oficial-bombeiro, e garante que no seu quartel nunca sentiu qualquer descriminação, nem mesmo positiva, foi como adjunta do Comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS) de Santarém, que ganhou imunidade aos olhares desconfiados e ao ceticismo masculino.

Há oito anos quando deixou os Municipais de Coruche, onde era voluntária, para integrar a estrutura da Autoridade Nacional da Proteção Civil (ANPC), enfrentou uma prova de fogo, conforme releva:

“Era tudo novidade eu fui o primeiro adjunto distrital, mulher e… Sim, de início, senti diferenciação por parte de alguns comandantes”, reconhece, afirmando, no entanto, que essa foi uma situação que ultrapassou impondo-se, mostrando porque estava ali, justiçando a sua nomeação no terreno, nos vários teatros de operações. Além do mais, faz questão de referir, que contou sempre com o apoio e a experiência do comandante Chambel, fundamentais para que cumprisse esta missão com reconhecido êxito. 

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Assim sendo, acredita que está preparada para enfrentar este novo desafio no quartel de Salvaterra de Magos. Conta que quando recebeu o convite da direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Salvaterra de Magos ponderou, consultou a família, pediu conselhos ao comandante dos Bombeiros de Coruche e seu irmão, Luís Fonseca, e acabou por aceitar mais esta missão ao serviço de uma causa que abraçou aos 17 anos, quando “obrigou” o então comandante dos municipais de Coruche, António Moreira, a “abrir a recruta às mulheres”.

A comandante  – a primeira mulher no distrito de Santarém - tomou posse há pouco mais de um mês e já encetou uma verdadeira revolução no quartel. As obras de requalificação das instalações, para que seja possível dar melhores condições aos operacionais, são a face mais visível de uma intervenção de fundo, que se impõe depois de tempos difíceis e que deixaram marcas nas mulheres e homens que integram o efetivo.

Projetos e ideias não faltam à recém-empossada, que se afirma determinada a abrir a instituição ao exterior e em fomentar a cooperação com as empresas da região, conseguindo dessa forma os recursos que permitam o investimento em viaturas e equipamentos, mas, também, na valorização, formação e preparação, dos cerca de 30 operacionais que servem este concelho do Ribatejo.

Lurdes Fonseca é uma “força da natureza”, que o diga António Malheiro, o presidente da direção da Associação Humanitária de Bombeiros de Salvaterra de Magos, que, no último mês, não tem parado, para conseguir dar resposta às solicitações da nova responsável operacional. Depois de “anos de estagnação”, o dirigente acompanha, obviamente, com particular entusiasmo, o ímpeto reformista da comandante.

“Sinto que tenho uma guilhotina em cima da minha cabeça… Sei que isto, pode correr mal”, revela Lurdes Fonseca, considerando ainda assim que “esta, também, pode ser uma experiência pessoal e profissional muito boa”, é a isso que se agarra, com noção plena que as “dificuldades são inevitáveis”.

“Os galões nunca foram um objetivo, mas tenho uma carreira, tenho competências e sentido responsabilidade e esta pode ser mesmo  uma oportunidade para mostrar trabalho, para criar um corpo de bombeiros à minha imagem: funcional e operacional”, sustenta, acreditando que as experiências operacional, profissional e académicas, podem ser “uma mais-valia” para garantir a estabilidade e serenar ânimos, questões, aliás, fundamentais para garantir o desenvolvimento desta instituição com mais de 80 anos de história.

Aos 41 anos, casada e com dois filhos ainda pequenos, Lurdes Fonseca é apoiada nesta “aventura” pelo marido, pais e pelos oito irmãos, que ao longo dos anos têm sido um suporte fundamental para a irreverente bombeira.

Registe-se que a comandante dos Voluntários de Salvaterra de Magos começou os estudos de informática na Escola Profissional de Santarém, é licenciada em Informática de Gestão e em Engenharia da Proteção Civil, e conta ainda no currículo académico com uma pós-graduação em Segurança Contra-Incêndios. Durante anos conciliou os estudos com um estágio no quartel, depois com a recruta e mais tarde com serviço voluntário que prestava no corpo de bombeiros. Lecionou em várias unidades de ensino, colaborou com o serviço municipal de proteção civil de Coruche na promoção da cultura de segurança  nas escolas do concelho, trabalhou em projetos e medidas de autoproteção.

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“Não posso estar parada”, faz questão de esclarecer.

Igualmente expansiva, também bombeira de corpo e alma, Maria João Guerreiro, exibe com enorme orgulho, nas divisas de comandante nos Voluntários de Vila Nova de Milfontes, que ostenta há já quase quatro anos.Questionada sobre a existência de um comando no feminino ou de elementos diferenciadores entre homens e mulheres nestas funções, a nossa interlocutora revela apenas “manias” de arrumação, de ordem, de limpeza, rigor, brio e atavio, o que, assinala sorrindo, “não são um exclusivo das mulheres”.

Garante que tinha como únicas metas traçadas na carreira de bombeiro “alcançar o posto de chefe e ter o curso de Tripulante de Ambulância de Socorro” e foi exatamente quando se encontrava na Escola Nacional de Bombeiros dedicada a essa formação, que o inesperado convite da direção chegou.

Conta que pensou muito, que analisou os prós e os contras com a filha e que só depois aceitou a proposta dos dirigentes do mais jovens corpo de bombeiros do País, que durante vários anos, foi seção destacada dos Voluntários de Odemira e só 2007 ganhou autonomia.

Volta ao passado e diz-nos que ingressou nos Bombeiros de Odemira em 2003, levada por um amigo, mas que desde pequena sentia “aquela vontade de socorrer as pessoas”.

Da carreira de bombeiro recorda, sobretudo. as pessoas as que socorreu, mas também quem lhe permitiu estar hoje do topo da estrutura, nomeadamente, o comandante Nazário, mas também com o adjunto António Oliveira. 

“Com o comandante Nazário aprendi quase tudo da carreira de bombeiro. Foi e é um amigo, uma grande e boa influência, que ainda tem muito para dar e para ensinar e está sempre disponível para ajudar”, destaca recordando ainda com gratidão o adjunto Luís Oliveira, também dos Voluntários de Odemira e as suas “as exigências” que acabaram por nortear a comandante em matérias como a postura ou o fardamento dos operacionais, fundamentais para a boa imagem da instituição.

VNFONT31.JPGNeste processo nem tudo foi fácil, a comandante não esconde que “nem todos” aceitaram bem a nomeação, salientando, contudo, que nunca sentiu qualquer entrave do corpo ativo. Fugindo às questiúnculas do passado que importa, agora, relativizar, a nossa interlocutora reconhece, ainda assim, às mulher com funções com alguma exposição pública, “pelo menos nestes meios”, impõe toda a discrição.

“Todos nos conhecem, por isso temos que pensar muito bem no que fazemos e no que dizemos. Deixei de fazer algumas coisas, não que fossem erradas, mas porque percebi que era importante preservar a minha imagem”, explica Maria João Guerreiro.

A comandante fala de uma missão exigente que lhe ocupa “26 ou 28 horas por dia” e, apesar da ironia, não deixa de lamentar a falta de tempo para os amigos e para a família, só compensada pela paixão à causa e às coisas dos bombeiros.

“Tenho o tempo todo ocupado, mas isto dá-me vida, preciso desta adrenalina”, enfatiza. 

Embora não entre em discussões de género ou análises sexistas, acaba por reconhecer “muitas preocupações com os moços” e até confessa que quando tem operacionais fora, nomeadamente no combate a incêndios, “liga muitas vezes” para se certificar “se estão bem, se comeram, se beberam”.

“Reconheço que sou um pouco chata, chego e ligar 10 vezes quando vão para Lisboa, ou para formações fora, mas as preocupações duplicam nos incêndios”, conta quem se assume como “mãe galinha”.

VNFONT50.JPGA única comandante no distrito de Beja, considera que foi bem recebida no meio, e garante nunca ter sentido qualquer tipo descriminação por ser mulher, antes pelo contrário, sentiu-se sempre integrada e apoiada recordando que logo após ter tomado posse, “ainda com tão pouca experiência”, foi confrontada com dois graves incêndios no concelho de Odemira, provas de fogo que superou em equipa e que acabaram por confirmar uma vocação.

“Acho que nasci para ser bombeira”, conclui avançando que o compromisso assumido, com a direção, as populações da Vila Nova de Milfontes e com os 37 operacionais, será para levar até ao fim.

Ao 38 anos Maria João Guerreiro assume-se como uma mulher realizada, de bem com a vida, com o grata e rara satisfação de poder fazer o que realmente gosta.

Lurdes Fonseca e Maria João Guerreiro são pois o exemplo da superação que permite arrasar os estereótipos e as teorias que durante décadas, séculos até, serviram para afastar as mulheres dos quartéis.

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