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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quinta-feira,

22/11/2018

11:30

Um marco histórico digno de registo e respeito

03/08/2018 10:09:52

Passar do sonho à realidade foi a missão que um punhado de homens e mulheres chamou a si próprio para responder às necessidades concretas das suas comunidades na salvaguarda do bem-estar e da segurança dos seus membros.

Em muitos países foi o Estado a cumprir essa tarefa. Em Portugal tratou-se de um movimento das próprias comunidades. E esse exemplo inédito, pela sua amplitude e explosão e pelas suas próprias características, perdura século e meio após a criação em Portugal da primeira associação humanitária de bombeiros voluntários a que se seguiram muitas outras até à atualidade.

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Aqueles que decidiram, na segunda metade do século XIX, passar do sonho à acção, porventura, ainda não estariam conscientes das proporções que a sua decisão viria a ganhar. Em todo o caso, tratou-se, sem dúvida, de uma decisão temerária de fazer nascer de raiz uma entidade associativa, humanitária e voluntária, domínio só possíveis conjugar fruto da enorme perseverança, determinação e abnegação de quem o decidiu.

Foi obra arrancar com o mínimo dos mínimos em termos materiais, recolher fundos para isso, congregar vontades dos que desejaram abraçar esse sonho em termos operacionais foi obra.

As macas rodadas e as bombas braçais que, sem mais, muitas associações utilizaram anos a fio, e que hoje orgulhosamente expõem nas suas instalações, poderão fazer sorrir quem desconheça o que isso significou à época e o testemunho que hoje dá de outros tempos.

Século e meio depois, quando os Bombeiros Voluntários de Lisboa, comemoram a sua fundação importa que nos inclinemos sobre a memória dos que os fundaram e todos aqueles que nos meses e anos que se seguiram foram também dando corpo a esse desafio.

Os tempos difíceis que então também se viviam não foram estorvo nem obstáculo a que tomassem nas suas mãos essa tarefa.

É sabido que a sociedade portuguesa nunca tinha sentido, e porventura nunca virá a sentir, um movimento tão forte da sua afirmação e determinação. E só por isso, não me canso de dizer, deveria ser motivo de estudo do nosso meio académico associado às ciências humanas e à história. Tratou-se das próprias comunidades se organizarem em torno da vontade de garantir o socorro aos seus concidadãos. Já então, assistiu-se a processo crescente das comunidades chamarem a si a resolução dos problemas para os quais, já à data, o Estado não tinha solução.

Os fundadores da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Lisboa foram temerários, tomando uma atitude desassombrada para a época, e ainda hoje motivo de admiração, sem experiências semelhantes ou próximas conhecidas, ao decidirem dar corpo a um fenómeno caracterizado, por um lado, pelo associativismo e, por outro, pelo voluntariado.

Os registos que temos desses tempos fazem-nos crer na criação das associações, e da de Lisboa em particular, na presença de muito entusiasmo e de muita determinação. Essa mesma vontade ficou expressa, por exemplo, em torno de meios de intervenção e equipamentos, alguns grande novidade para a época, mas que hoje nos poderão fazer sorrir, pela sua simplicidade, pela sua dimensão e modo de funcionamento.

Estamos assim, perante um legado operacional histórico que nos orgulha e que nos faz destacar uma imensidão de mulheres e homens que souberam decidir e dar continuidade à missão que escolheram de socorrer a sua comunidade um século e meio atrás.

Estamos, assim, também, perante um conjunto de figuras tutelares da história dos bombeiros portugueses, dirigentes, que tiveram o alcance, o arrojo e o atrevimento de construir de raiz aquilo que até ali ninguém antes tinha feito.

A Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Lisboa tem um histórico precioso, em que muitas outras instituições por todo o País se foram inspirando para construírem as suas próprias estruturas, com uma matriz originária que enche de orgulho a Liga dos Bombeiros Portugueses, Portugal e todos os Portugueses.

Ao recordar aqui o 150.º aniversário desta Associação, importa recordar a História dos Bombeiros Portugueses, das suas vertentes Associativa e Voluntária, que têm perdurado desde então como matriz identitária da cultura e do querer estar em sociedade de tantos homens e mulheres bons e generosos que integram os corpos de bombeiros e os órgãos sociais das nossas associações.

É certo que, como temos defendido, essas estruturas necessitam manter um processo de modernização e de adaptação aos novos desafios que a própria sociedade lhes lança. E é nesse sentido que temos vindo a trabalhar.

Festejamos tempos heroicos e páginas de ouro da história dos Bombeiros Portugueses. Saibamos estar à altura deles prosseguindo com determinação e apego na defesa do associativismo e do voluntariado e, a par disso, do seu desenvolvimento e adequação aos tempos modernos. Honraremos, assim, os fundadores das nossas associações e as populações que ainda hoje testemunham a sua admiração e confiança nos seus bombeiros.

Registamos aqui um marco histórico que importa registar, conhecer e respeitar.

 

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