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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quarta-feira,

26/07/2017

13:27

Para ajudar é preciso saber como

03/04/2017 15:24:14


No combate aos incêndios florestais, e na defesa da própria floresta, é comum dizer-se que todos nunca seremos demais. É um dito que traduz a importância que os bombeiros dão, a sociedade dá, ou efetivamente devia dar, a um património nacional de valor inestimável.

pspsps.jpgPatrimónio que se identifica com um apreciável impacto económico, pela importância que assume em muitos concelhos e no país em geral, e impacto ambiental, que se traduz, não apenas na oportunidade da fruição das belezas da floresta, mas também no valor incontornável que ela assume para o bem-estar e a qualidade de vida dos portugueses.

Pela importância, e pelo valor que a floresta encerra, seria lógico esperar que há muito tivessem sido sanados e ultrapassados os escolhos que ao longo dos anos têm obstado efetivamente à sua conservação, até ao seu crescimento e manutenção segundo padrões de modernidade técnica e científica.

O Governo acaba de tomar decisões com as quais pretende contribuir para volte face, para as mudanças significativas que se desejam e que se exigem na defesa da floresta.

Acompanharemos o evoluir dessas decisões no terreno certos de que, não só há muito a fazer, como também o que se fizer deverá ser suficientemente assertivo e cirúrgico para que produza resultados o mais depressa possível.

Enquanto bombeiros desejamos que as mudanças contribuam, em primeiro lugar, para medidas efetivas com impacto na defesa e na prevenção, e sem segundo lugar, para medidas que produzam efeitos, mesmo que indiretamente, no próprio combate.

Este ano, como sempre os bombeiros vão estar atentos à situação, não deixarão de cumprir a sua missão. Mas não deixarão também de se expressar a favor de medidas que viabilizem quantitativa e qualitativamente a sua missão.

Alguns estarão à espera que, tomada a decisão política de resolver a situação da floresta, este ano o panorama já será diferente. Não acreditamos nisso, do mesmo modo que, em anos anteriores, e perante o anúncio de outras medidas, também não alinhámos no automatismo e no carácter milagreiro das mesmas.

Somos homens e mulheres do terreno, crentes nas vantagens de prevenir e defender a floresta, mas também na impossibilidade de ver produzir efeitos imediatos sobre situações que erroneamente se perpetuaram no tempo. Mas queremos acreditar que no futuro, porventura um futuro de gerações, tudo possa mudar e que o papel dos bombeiros possa vir a estar facilitado. Mas até lá, cá continuaremos a estar, como sempre estivemos, sujeitos ao esforço e ao risco que é conhecido e cujos resultados nefastos também se perpetuam na memória coletiva dos portugueses.

Mas, para já, na ausência de resultados imediatos e sustentados das medidas anunciadas agora, não se pense que o período de fogos florestais que se aproxima será já melhor, como digo, para além do esforço e da abnegação com que os bombeiros mais uma vez vão enfrentá-lo com a competência, a formação e a capacidade humana e técnica que se lhes reconhece.

A intervenção dos municípios e das juntas de freguesia e, em especial, de muitos autarcas, é sempre também, a cada ano, um fator fundamental no apoio à missão dos bombeiros. E que se traduz, na logística de apoio ao combate e à prevenção, no apoio às populações, na eventual necessidade de evacuação de pessoas e bens, no apoio social a possíveis desalojados e vítimas dos incêndios. Trata-se de um papel importante, digo mesmo capital, no apoio à intervenção.

Entende-se agora que os autarcas e as suas estruturas poderão desempenhar ainda outras tarefas para além dessas.

No apoio, como sempre enfatizámos, e eu próprio o defendi no teatro de operações como comandante, todos podem ser úteis e necessários. Mas, para isso, como sempre também se disse, importa saber como, quando e onde. Tudo ao molho e fé em Deus nunca será a melhor saída e, muito menos, em circunstâncias que envolvem um leque muito alargado e perigoso de riscos. Estou certo que ninguém quer que seja assim e, por maioria de razão, muito menos os bombeiros e os próprios autarcas.

Pior que ajudar é acabar por dar mais trabalho, dizia-me uma vez um velho e experiente bombeiro resistente aos apoios espontâneos de muita gente que acorre muitas vezes aos incêndios na tentativa generosa mas perigosa de ajudar os bombeiros com muito voluntarismo mas sem enquadramento nem conhecimento.

Acreditamos na bondade de chamar os autarcas a maior empenhamento no apoio aos incêndios florestais. Acreditamos, por que foi sempre assim no passado, na vontade dos próprios reforçarem esse empenho. Acreditamos, ainda, na necessidade de congregar forças e vontade de todos os agentes da proteção civil no objetivo comum de defesa da floresta. Mas acreditamos também que para ajudar é preciso saber como.

Apesar de tudo, mais vale tarde que nunca. Fazendo fé nas declarações do ministro da Agricultura, e com as quais concordamos, temos que fazer agora o que não fizemos há 80 anos pela floresta.

A esse propósito, não posso também deixar de dizer ao senhor ministro que também é um dos responsáveis por isso. Quando em tempos também era ministro da Agricultura tive a oportunidade de lhe apontar pessoalmente as situações que hoje diz querer resolver. São exatamente as mesmas que não foram resolvidas até hoje e que tive o ensejo de lhe referir à época e que repetitivamente tenho vindo a apontar há mais de 30 anos.

Não posso deixar de lamentar profundamente pelos 80 anos perdidos e por mais alguns que faltam para a solução.

Apesar de tudo, mais vale tarde que nunca.

 

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