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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

22/10/2018

12:36

O Sonho comanda a Vida

05/01/2018 15:35:23

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Falar de sonhos quando estamos prestes a terminar um ano trágico para o país, resultante das mortes ocorridas, dos feridos registados e dos milhões de euros de prejuízos em consequência dos incêndios florestais pode parecer absurdo, fora de propósito ou incongruente, mas a meu ver não o é.

É perante situações como as vividas este ano, e outras de igual gravidade ou até maior (lembro as cheias que assolaram a região de Lisboa há precisamente meio século), que os Bombeiros Portugueses têm testemunhado e sido sempre verdadeiros sinais de contradição nalguns extractos da nossa sociedade. Não porque entendam que são melhores que os restantes concidadãos. Não porque entendam ter condições para se manterem superiores ou indiferentes às situações. Nada disso. Apenas porque são diferentes, porque têm convicções e sentimentos fortes que garantem a sua resiliência à adversidade e lhes garantem as forças e a determinação para soçobrar a dor, o risco e o próprio amor à vida.

Não quero com isto dizer que estamos perante super mulheres e super homens, longe disso. A riqueza da sua postura é que, sendo mulheres e homens iguais aos outros, mesmo assim, sabem reunir forças e gana para tentarem ultrapassar as suas próprias limitações na defesa dos outros. Iguais, é certo, mas diferentes na forma e modo de estar na vida.

Falamos de heróis, apontados e saudados pela sociedade, mas que preferem sempre manter-se no anonimato, defendendo também sempre que o sucesso dos seus atos decorre mais do coletivo do que de atos isolados e pugnando para que esse atos possam ser evitados se a sociedade souber viver na lógica de que os combates e os acidentes preferencialmente devem ser evitados.

A expressão do poeta António Gedeão, “O Sonho comanda a vida” de tão apontada repetidamente até poderá ter-se tornado banal. Para nós, associações, corpos de bombeiros, bombeiros, continua sempre a ter sentido e, em momentos especiais de cada instituição, de cada dirigente, cada comando ou cada bombeiro até pode assumir sentido e sabor especial.

Os sonhos nascem com todos nós, crescem dentro de nós, fazem parte da nossa existência sempre que idealizamos algo a atingir, seja de caráter pessoal ou coletivo.

Os sonhos também fazem parte da vida dos bombeiros. A expressão do poeta aplica-se bem a todas aquela e aqueles que fundaram ou em diferentes épocas deram continuidade ao desenvolvimento, ao crescimento e à consolidação das suas associações e corpos de bombeiros. Precisaram de sonhar muito para chegar onde chegaram, muitos sonhos, bem vividos, bem sofridos também, e que têm em comum o sentimento e a determinação de lutar pelos outros e para os outros.

Não são sonhos vazios ou ociosos. São sonhos com muito dentro de si, com muita vontade de obter novos equipamentos, novas viaturas, novas instalações numa luta permanente pela concretização do mais adequado, mais útil e mais eficaz à sua missão de apoiar e socorrer.

Nos últimos tempos, temos ouvido alguns responsáveis, intelectualmente desonestos e hipócritas, em sucessivas tentativas de passa culpas, escamoteando factos, iludindo as circunstâncias e as razões que levaram a que se abatesse sobre o nosso país tais tragédias nos incêndios florestais.

Os bombeiros nunca se cansaram de alertar para a sua inevitabilidade e desdobraram-se em explicações simples e diretas sobre isso. Quem os devia ter ouvido fez orelhas moucas. Os mesmos que, agora, querem juntar tudo no mesmo saco e porventura até querer transformar os bombeiros em bodes expiatórios e alvos fáceis.

Estaremos à altura de responder a todos eles em devida altura na justiça. Mas, porque tudo aquilo que nos anima é superior, nem esses nem outros nos impedirão de continuar a sonhar.

Este ano os bombeiros sofreram e choraram, como as outras pessoas. E quantas vezes, sem esquecer a sua missão de socorrer sem a interromper secaram as lágrimas nos ombros uns dos outros. É com eles que estamos sempre e neste momento natalício em particular, para lhes desejar, a eles e às suas famílias tudo de bom, e também desafiá-los para que, como diz o poeta, o sonho continue a comandar as suas vidas.

 

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