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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

sexta-feira,

04/12/2020

21:09

Lapso, desleixo ou intencional

04/11/2020 11:11:04

A vários níveis já fizemos chegar a nossa perplexidade e indignação sobre os números que nos foram apresentados pelo INEM sobre os doentes infetados ou suspeitos de COVID-19 transportados pelos bombeiros em todo o país.

Ao longo de semanas questionámos, quer o INEM, quer a própria ANEPC sobre o registo desses transportes e fomos sendo sempre confrontados com evasivas, até que surgiu o número de 1173 fornecido pelo INEM.

A perplexidade surgiu quando confrontados com esse número e aqueles que as Associações e Corpos de Bombeiros têm vindo a fazer chegar à LBP a nosso pedido. Dir-se-á que não diz a bota com a perdigota. Entre o número facultado pelo INEM e a realidade distam muitos milhares de serviços contabilizados pelos bombeiros.

A verdade dos transportes efetuados é fundamental. Para já, está em causa o apuramento real dos serviços efetuados. E nessa medida, também, o apuramento real dos custos que as associações e corpos de bombeiros têm vindo a suportar com o COVID-19 e que tardam ou dos quais nunca virão a ser ressarcidos com verdade e justiça.

Nesse domínio, salvo algumas autarquias que têm disponibilizado apoios aos bombeiros, o panorama geral é desolador, lamentável e frustrante para quem todos os dias e horas esteve e continua a estar disponível para todo o tipo de apoio e socorro às populações e, depois, vê essa disponibilidade e empenho votado ao abandono e esquecimento.

O fosso entre os números do INEM e aqueles que vamos conhecendo relativo aos serviços COVID-19 prestados pelos bombeiros dão que pensar. Poderemos entender que se trata de lapso, desleixo ou, pior ainda, intenção. Lapso por falta de coordenação das entidades, muitas, que no momento solicitavam a toda a hora a intervenção dos bombeiros (ANEPC, INEM, Saúde 24 e autoridades locais de saúde, entre outros). Desleixo destas e outras por não cuidarem da importância de apurar com rigor e justiça a taxa de esforço de cada entidade no combate à pandemia. Intenção, expediente em que desejaríamos não acreditar, mas que só enunciamos na vã tentativa de perceber e explicar a discrepância de números.

No fim de tudo isto, e até que se apure as razões dessa mesma discrepância de números, fica-nos uma dúvida incomodativa e arreliadora que, em nosso entender, põe em causa a lisura do relacionamento interinstitucional em todo o processo de combate à pandemia. Questionamo-nos até sobre para que serve, ou a quem serve, essa confusão e fumo de números.

Os bombeiros não integraram de início a chamada “task force” de intervenção no COVID-19. Depois, alguns, mas nem todos, timidamente foram sendo integrados formalmente nesse esquema. No final, fica-nos a certeza de contas finais, mesmo não fazendo parte da “task force”, os bombeiros fizeram muitíssimos mais transportes de suspeitos ou infetados com o vírus.

Se calhar, para tapar o sol com a peneira, alguém já teve a veleidade de tentar fazer a destrinça entre os doentes suspeitos transportados e os doentes confirmadamente infetados transportados. Só pode ser, quando muito, jogo de palavras ou de números. Como se nestes casos os bombeiros se equipassem de modo diferente caso fossem doentes suspeitos ou confirmados. Ou se, terminado o serviço e sem qualquer confirmação sobre a situação do doente transportado não tivessem também que ter os devidos e precisos cuidados, quer na retirada dos equipamentos, quer na desinfeção das viaturas utilizadas.

Aliás, em matéria de desinfeção os bombeiros também foram descriminados obtendo apenas, mais tarde, a permissão para se deslocarem aos centros de desinfeção com as ambulâncias PEM e só muito tempo depois com algumas ambulâncias Reserva. Tudo o resto fica e vai continuar a estar às custas das associações.

Acresce a tudo isto que, em muitos casos, os bombeiros nunca conseguiram obter a confirmação oficial sobre a infeção dos doentes transportados. Muitas vezes só conseguiram chegar a essa informação, seja por vias informais dos próprios hospitais ou, pior ainda, por informações cruzadas de vizinhos ou conhecidos dos doentes. Chegou a haver até o caso da informação do doente que acabou por falecer num determinado hospital com COVID-19 só ter chegado aos bombeiros que o transportaram por descargo de consciência do administrador do condomínio onde o extinto morava.

O claro fosso existente entre os números de uns e os dos bombeiros, cujo apuro final ainda não está terminado, desde já permite reiterarmos a preocupação sobre a forma de abordagem aos doentes COVID-19 ou suspeitos foi feita ao longo deste tempo. E, as repercussões que isso teve para as associações e corpos de bombeiros.

Há de fato muitos casos de suspeitos, depois confirmados, cuja estatística vagueou ao acaso das circunstâncias e que muitas vezes os bombeiros não souberam como terminou. E que, muitas vezes até tiveram consequências evitáveis no seio dos próprios corpos de bombeiros.

Em tudo isto, com a disponibilidade e o empenho que são a sua matriz, os bombeiros têm estado a alocar à luta contra o COVID-19 e no apoio e socorro àqueles doentes, mas também a todos os outros vítimas de doenças súbitas, acidentes ou outras situações graves, enormes recursos próprios de que esperam ser ressarcidos.

É bom lembrar que a pandemia significou para as associações de bombeiros uma abrupta e profunda quebra de receitas, pela interrupção verificada no transporte de doentes não urgentes, e um exponencial aumento de despesas com a aquisição de equipamentos de proteção individual e outros.

É sobre tudo isto que esperamos respostas. Primeiro, resposta relativamente ao subsídio extraordinário às associações decidido pela Assembleia da República e também à necessidade urgente, já anunciada, de garantir até final do ano a revisão do protocolo com o Ministério da Saúde/ INEM para o pré-hospitalar e, ainda, garantir com o Ministério da Saúde a revisão do protocolo para o transporte de doentes não urgentes.

Se a situação que era vivida nesses dois domínios já era difícil, com alertas sucessivos da LBP para o facto, agora tornou-se insustentável, a exigir pronta e expressiva revisão.

Não pactuaremos, nem com lapsos, nem com desleixos, muito menos com atos intencionais.

Mas para que a LBP esteja segura, e estribada nas suas exigências, torna-se imperioso que as Associações Humanitárias de Bombeiros, elas próprias, por uma questão de organização dos ficheiros da LBP e estatísticas, remetam os seus números à confederação. Porque só assim a LBP pode cumprir a sua missão reivindicativa com base nas informações que lhe forem disponibilizadas.

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