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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quinta-feira,

17/08/2017

16:30

Como conviver com uma realidade

03/07/2015 10:58:10


Passaram-se meses que não escrevia para o Jornal Bombeiros de Portugal. Esta situação, deveu-se principalmente a uma certa inércia da minha parte e também porque sinto um certo vazio e uma certa injustiça em relação à reali­dade dos Bombeiros por parte e por quem de direito tem a responsabilidade sobre os nossos Bombeiros.

Senão vejamos; as notícias do Jornal Bom­beiros de Portugal têm menos importância para os governantes e mesmo para alguns Bombei­ros, do que os jornais desportivos, A Bola, Re­cord, O Jogo ou mesmo o diário Correio da Ma­nhã.

“Os Bombeiros salvaram vidas”, lê-se no Jor­nal Bombeiros de Portugal. E daí? Resposta cla­ra; não fizeram mais do que a sua obrigação.

“Os médicos salvaram uma vida”, lê-se na primeira página do Correio da Manhã e é notícia de abertura na CMTV. São uns heróis. Então não é para isso que eles estudam e existem? Não senhor. Eles são uma raça superior, uma raça ariana. Então e os Bombeiros? Esses são uma raça inferior, são os Judeus do sistema de saúde.

“Os Bombeiros fizeram um parto dentro duma ambulância”, lê-se no Jornal Bombeiros de Portugal. E daí? A mesma resposta; não fi­zeram mais do que a sua obrigação.

“Parto de gémeos a bordo de aeronave da Força Aérea Portuguesa nos Açores”, lê-se na primeira página e é notícia de abertura na CMTV. São uns heróis, mesmo com o esqueci­mento que na aeronave seguia uma equipa mé­dica civil e foram os mesmos que efetuaram o parto. Então e os Bombeiros? Os fatos de voo da Força Aérea são mais completos e mais visí­veis para a população do que as fardas azuis dos Bombeiros.

Nos jornais desportivos, lê-se diariamente artigos sobre grandes heróis nacionais que ga­nham milhões anualmente, os jogadores e trei­nadores de futebol. Será que esses também salvam vidas humanas? Certamente que sim, as suas.

Estes são apenas dois casos mais atuais. Po­deria enumerar outros tantos e muitos mais mas fico-me apenas por estes exemplos que penso traduzirem o sentido de injustiça e falta de sensibilidade para com aqueles que no dia­-a-dia salvam vidas, correndo riscos pessoais e surpresa das surpresas, a custo 0.

Será que os componentes da textura do cor­po humano dos Bombeiros é diferente de ou­tras classes sociais? Ou será simplesmente que a responsabilidade dos Bombeiros perante a sociedade é diferente de outras classes sociais? O que me leva a pensar, ou os Bombeiros são uma classe de pessoas diferente da maioria das classes de pessoas ou, desculpem são uma anormalidade funcional dentro da normalidade de outras classes.

São estas e outras situações que me trazem sentimentos de revolta e de injustiça.

Embora tenha o maior respeito pelos profis­sionais de saúde, sejam eles civis ou militares, tenho muito mais respeito pelos Bombeiros porque infelizmente esses só são heróis na co­municação social, a título póstumo.

Luís Picanço

(Comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários de Angra do Heroísmo)

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