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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

17/12/2018

18:56

VOLUNTÁRIOS TORREJANOS

05/04/2018 11:43:44

A primeira "Secção de Cadetes"


Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista

Um dia, chamaram-lhes "futura massa de bombeiros". São os cadetes e existem desde 1935. A sua primeira formação verificou-se em Torres Novas, nos Bombeiros Voluntários Torrejanos (BVT). O facto, referido ao longo dos tempos com natural orgulho, é registado por Ana Maria L. D. Paiva, autora do livro “Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Torrejanos, 1931-1985. 54 anos ao serviço da comunidade”.

Torres Novas, 16 e 17 de Outubro de 1935. O distinto médico local, Sousa Dias, procedia à inspecção dos rapazes, com idades entre os 14 e os 18 anos, que vieram a constituir o primeiro corpo de cadetes dos BVT, definido por aquele clínico como sendo "um corpo de instrução, recrutamento e auxiliar".

nmh.jpgA 1 de Dezembro do mesmo ano dava-se a primeira aparição pública do referido corpo, numa festa promovida para o efeito. E em 16 de Fevereiro de 1936, era-lhe oferecida uma bandeira, símbolo máximo da generosidade, valentia e do respeito pelo bem de outrem, qualidades, entre outras, exigidas pela "Lei do Cadete".

Embora o livro de Ana Maria L. D. Paiva não pormenorize por via da palavra, as fotos que reproduzimos dão a conhecer o fardamento utilizado, mormente, fato de zuarte, camisa branca, gravata preta, cinto de cabedal, barrete de bivaque e distintivos.

Não obstante o seu curto tempo de existência, em 1938, os cadetes torrejanos conquistaram o honroso terceiro lugar no concurso de ginástica rítmica e aplicada, realizado em Portalegre, por ocasião do VI Congresso dos Bombeiros Portugueses, reunião magna onde foram também oficialmente aprovados na esfera da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP).

Depois de Torres Novas, o exemplo foi seguido, paulatinamente, por outros corpos de bombeiros, embora com ligeiras adaptações a cada uma das realidades, destacando-se, em alguns casos, o ingresso de elementos com 10 anos de idade. Assim aconteceu nas corporações de Almada, Bucelas, Loures e Portalegre, também elas por isso consideradas pioneiras.

Educação física, práticas campistas, socorrismo e ordem unida faziam parte da actividade instrutória ministrada aos cadetes. Somente mais tarde, na idade de transição à categoria de aspirante, seria a vez de aprenderem técnicas preliminares do serviço de incêndios.

Sublinhe-se que a criação dos primeiros corpos de cadetes, nos anos 30 e 40 do século passado, teve origem na necessidade de recrutar elementos tendentes a assegurar a continuidade dos corpos de bombeiros, em razão de assumidas dificuldades a esse nível.


"Escolas de Valores"


Teve então a LBP um papel importante no fomento à criação de "Secções de Cadetes", com missão especial. De resto, o assunto surgiu, pela primeira vez, antes de 1935, no âmbito de um congresso da confederação, sendo aprovado por unanimidade. Pugnava-se pela afirmação de uma expressão proclamada vezes sem conta: "As Corporações de Bombeiros são Escolas de Valores".

Socialmente, tal criação incidiu em  múltiplas vantagens. Disso são sintomáticas as palavras do prestigiado comandante Arthur Morgado, dos Bombeiros Voluntários de Bucelas, secretário-geral da Liga dos Bombeiros Portugueses, redigidas em 1943. Aqui fica, pois, o seu testemunho, explicação histórico-sociológica acerca de uma realidade que, apesar de sujeita a mutações, frutificou até aos nossos dias:

nhm.jpg"Os garotos, que as populações se habituaram a admirar com simpatia e carinho, afastados da vadiagem das ruas, das batalhas das pedras com vidraças e candieiros de iluminação pública estilhaçados, dos combates do soco e de bulhas contundentes, de uma vida errante de pés descalços e de uma escola de palavrões indecorosos, encontram nas salas dos Quarteis de Bombeiros, entretenimentos e distracções atractivas, muito úteis para a sua formação moral e disciplina social.

Entre a disciplina da rua e a ordem de uma organização a que se prendem com entusiasmo, sem deixar de considerar indispensàvelmente o apoio, o agrado e o descanso das famílias confiantes, não é de admitir hesitações nesta modalidade de organização infantil, a menos que os predicados de inteligência se convertessem.

Assistindo aos serviços nos Quarteis e familiarizando-se com a sua marcha disciplinar, aprendendo a nomenclatura do material e acolhendo-se às atenções bondosas e paternais dos Comandos que êles muito respeitam, adquirem automaticamente excelentes condições de constituírem, de futuro, os melhores e os mais devotados elementos de garantia para a existência das Corporações de Voluntários."

A partir de 1946, os cadetes generalizaram-se na hierarquia orgânica dos bombeiros portugueses, por via legal. Contribuiu para o efeito a entrada em vigor do primeiro Regulamento Geral dos Corpos de Bombeiros (Decreto-Lei n.º 35 857, de 11 de Setembro de 1946), velha aspiração do sector ao nível da uniformidade normativa, o qual passou a considerar a integração dos jovens no quadro auxiliar.

O mencionado regulamento foi revogado por uma nova versão em 1951 (Decreto-Lei n.º 38 439, de 29 de Setembro de 1951), instituindo esta última a admissão de jovens cadetes com idades compreendidas entre os 14 e os 17 anos.



Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico


 


Lei do Cadete


1.º - O Cadete é verdadeiro, a sua palavra é sagrada.

2.º - O Cadete é obediente e respeita-se a si próprio.

3.º - O lema do Cadete é "Vida por Vida".

4.º - O Cadete é cortês e leal, todos os Cadetes são seus irmãos.

5.º - O Cadete é generoso e valente.

6.º - O Cadete ama os animais e as plantas.

7.º - O Cadete está sempre alegre e bem-disposto.

8.º - O Cadete tem iniciativa e toma responsabilidade dos seus actos.

9.º - O Cadete é económico, sóbrio e respeitador do bem de outrem.

10.º - O Cadete é puro nos pensamentos, nas palavras e nas acções.


O dever da história, o dever da memória


A importância da história está a ganhar nova dimensão e consciência, no seio das associações/corpos de bombeiros.

Na verdade, é cada vez mais evidente o interesse pela história e a apetência dos operacionais e dirigentes para o desenvolvimento de acções que potenciem a sua divulgação e preservação. "Porque o futuro tem raízes, importa conhecer o passado que nos trouxe ao que somos hoje", reconheceu, recentemente, um esclarecido presidente de Direcção.

Todavia, há quem ainda julgue – por erro ou desconhecimento – que valorizar a história é sinónimo de saudosismo e regressão.

De resto, verificámos isso mesmo, há pouco tempo, lendo um manifesto eleitoral, onde a história era literalmente renegada, esquecendo que as transformações de qualquer instituição não são naturais ou espontâneas, mas sim determinadas por uma cadeia de factores antecedentes.

Os bombeiros correspondem a organizações impregnadas de história. Em razão disso, não faz qualquer sentido perspectivar o futuro tendo a veleidade de que a vida associativa se confina à actualidade.

O país real mostra-nos que as mais prestigiadas e mais bem-sucedidas associações/corpos de bombeiros são aquelas que estão e sempre estiveram comprometidas com a sua história, fazendo dela uma permanente fonte de inspiração. O mesmo se pode dizer em relação à memória, mantendo uma relação afectiva e de salvaguarda do passado.

Está demonstrado que o dever da história e o dever da memória, ao serviço da causa dos bombeiros, encerram, também, uma afirmação de cidadania activa e responsável.

É, portanto, preciso agir para que não corramos o risco de perder de vista as nossas referências e o importante património (moral e material) que nos foi legado por aqueles que nos precederam e esta vida já deixaram, cuja memória só será suficientemente honrada se, a exemplo do que eles sempre fizeram e sentiram, continuarmos a acreditar que "uma instituição é um organismo vivo que se alimenta do passado, vive do presente e se projecta no futuro".


LMB

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