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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

22/10/2018

14:01

VOLUNTARIADO: ONTEM, HOJE… SEMPRE!

09/10/2018 11:25:27


Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista


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"Doutrinar e teorizar o Voluntariado português" eram, em 1968, palavras que consubstanciavam uma necessidade no seio das associações e corpos de bombeiros do país, segundo a opinião do engenheiro Lourenço Antunes, ao tempo presidente da Direcção e comandante dos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique. Recordamo-las, 50 anos depois, no momento em que o voluntariado continua a constituir um sério desafio para as estruturas dos bombeiros portugueses. Falamos da sua adaptação aos novos tempos.

Marcando efectivamente uma postura crítica e invulgar na época entre a classe dirigente, aquele responsável proferiu, no referido ano, uma interessante conferência subordinada ao tema "No Limiar do Século II do Voluntariado".

Estamos, no fundo, na presença de um exercício discursivo que anuncia o início de uma nova era dos bombeiros em termos de pensamento e discussão dos problemas, o qual veio a assumir a sua máxima expressão aquando do Congresso de Aveiro de 1970, inclusive, com o válido contributo do engenheiro Lourenço Antunes e de tantos outros congressistas. 

3.jpg"A falta de pessoal e a dificuldade de escolha de comandos e de elementos directivos virão afectar o nosso movimento", perspectivava-se em 1968.

Para que tal não pudesse vir a acontecer, era importante "conceber missões futuras, pensar em estratégia, em comando, em meios, em tecnologia e até em riscos calculados".

"(…) temos um grande trabalho a empreender: rever e pensar os nossos sistemas, se existem, mesmo que essa tarefa colida com qualquer de nós", afirmava o conferencista, defendendo ainda que "o Voluntariado tem de ser um reflexo da marcha ascendente em que o conjunto da Nação está empenhado".

Na consulta a informação reportada aos anos 60, dificilmente encontramos um dirigente com uma visão tão objectiva e, sobretudo, dotado de tanta capacidade introspectiva, direccionada para os reais problemas das estruturas dos bombeiros, pelo que não é de admirar ter sido o mesmo candidato à presidência do Conselho Administrativo e Técnico da Liga dos Bombeiros Portugueses, dois anos após a realização desta sua análise-diagnóstico. 

Por várias vicissitudes não foi eleito, motivando, supostamente, alguma reserva junto de certa ala conservadora, devido ao desassombro das suas palavras: "não devemos quedar-nos na contemplação estática do passado, mas antes renovar na continuidade, temos de reconhecer as nossas deficiências e, com plena consciência desses factores e dos nossos deveres, prepararmos a entrada e em especial a permanência no Século II".

Tal como hoje, embora noutras dimensões, o financiamento das associações de bombeiros constituía um quebra-cabeças. Eram necessárias "algumas medidas de carácter oficial que viriam diminuir os encargos associativos", tais como: "diminuição dos preços de combustível para viaturas; passagens gratuitas nos transportes urbanos; isenção dos descontos para fins de previdência social que incidem sobre os nossos assalariados; isenção dos direitos alfandegários para as viaturas adquiridas, já usadas, às forças armadas".

1.jpgAo nível individual do bombeiro, aspirava-se "o apoio possível através das entidades oficiais e particulares, mesmo na possibilidade de empregos, melhores condições de habitação e ainda assistência durante a doença, a eles e a seus familiares mais próximos, quando não gozem dos benefícios da previdência".

Estava então o voluntariado configurado, segundo Lourenço Antunes, numa "mendicidade disfarçada", justificando que "pedimos para tudo: para uma nova ambulância, para um pronto-socorro, para obras na sede, para rádios, etc, etc". E dizia, na mesma linha: "estes factos, que nos parecem dentro das realidades, põem problemas que merecem meditação, e exigem de nós novas provas de capacidade, na medida em que concorrerão para a sobrevivência do nosso movimento".

Segundo apurámos, o universo dos bombeiros portugueses comportaria mais de 13 500 voluntários, distribuídos por 337 corporações. Números expressivos, reveladores da forte implantação do voluntariado nos bombeiros em Portugal, que explicam o sentido da resposta à pergunta formulada e respondida pelo próprio engenheiro: "Nos tempos modernos, deve existir o Voluntariado?"

4.jpg"A pergunta não é despropositada para um espírito menos lúcido que porventura pensasse que a nossa tese vem demolir um edifício penosamente construído.

Mas se assim fosse, diria que é amor, simplesmente amor do Voluntariado o que nos move a exprimir uma tentativa de teorização que julgamos útil a todos nós; diria que é o respeito pelos que concordam e pelos que discordam.

Se o Voluntariado deixasse de existir, diria que o País ficava incomparavelmente mais pobre, não tanto pelos serviços materiais que deixaria de prestar, facto importante, sem dúvida mas sobretudo porque tinha sido atingido o cerne da alma nacional, na medida em que seria negar a existência de milhares e milhares de homens bons capazes de tudo darem, até a própria vida, no serviço desinteressado pelo próximo; seria abdicarmos de aceitar o desafio do presente e do futuro; seria não sermos dignos de desvendar o Século II do Voluntariado, em cujo limiar nos encontramos."

Decorridos 50 anos, o voluntariado permanece como principal base organizativa dos bombeiros em Portugal, conhecendo diferentes condições de vida face aos direitos alcançados após a institucionalização do regime democrático, fruto do "desvendar" de sucessivos responsáveis pelo sector. Porém, sendo um valor evolutivo, resultante das mutações da sociedade, continua a representar um permanente "desafio". Faltam, acima de tudo, incentivos, para que – como diria o engenheiro Lourenço Antunes, no longínquo ano de 1968 – o voluntariado seja "um reflexo da marcha ascendente".


Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico


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