PUB

Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

domingo,

30/04/2017

08:10

Teatro e(m) chamas

04/04/2017 12:29:33


nh.jpg





nhp.jpgFOTOS / LEGENDAS:
- Três aspectos dos efeitos do incêndio deflagrado no Porto
- Escombros do Teatro D. Maria II
- Fase de rescaldo no Teatro Avenida
- Ilustração alusiva ao incêndio no Teatro Baquet 


Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista


Todos os anos, a 27 de Março, celebra-se o Dia Mundial do Teatro. Assim acontece desde 1961, em homenagem à arte de representar cujas origens reportam ao período da Grécia Antiga. De resto, do ponto de vista etimológico, a palavra teatro deriva do grego theaomai, que significa contemplar, relacionando-se com as divindades mitológicas.

As casas de espectáculo estão intimamente ligadas à história dos bombeiros portugueses, em virtude da intervenção destes no combate a violentos incêndios.

Porventura, o mais importante de que há memória, devido ao impacto trágico, deflagrou na noite de 20 para 21 de Março de 1888. Era Guilherme Gomes Fernandes inspector-geral do Serviço de Incêndios quando se deu o pavoroso incêndio no Teatro Baquet, em pleno centro do Porto. Tendo como origem a chama de um bico de gás de uma gambiarra do palco, que pegou fogo a uma bambolina, destruiu por completo o edifício e motivou inúmeras mortes.

Na altura, decorria uma representação e a sala acolhia muito público, que entrou em pânico. Viveram-se momentos de horror, durante e após o acontecido, conforme testemunha a imprensa da época. Uma das fontes consultadas aponta para 84 vítimas mortais e 86 feridos, enquanto outra refere que perderam a vida cerca de 170 pessoas.

Este incêndio chocou o país e viu-se envolto em enorme polémica, mormente no que se refere à avaliação da sua causa, sendo alegada a falta de segurança do edifício e a demora no socorro por parte dos bombeiros.

Guilherme Gomes Fernandes previu um sinistro daquela dimensão. Inclusive, com base num relatório da sua responsabilidade, elaborado onze meses antes da tragédia, havia sido indicada a necessidade da realização de obras tendentes a criar condições de segurança no teatro, o que foi ignorado. Em consequência, entendeu oficiar às entidades competentes afirmando não se responsabilizar por o que pudesse vir a acontecer. Apesar da sua actuação preventiva, a classe política (o governador civil, o presidente da Câmara Municipal do Porto e o vereador do pelouro dos incêndios) procurou culpabilizá-lo, mas o inspector, de consciência tranquila, decidiu fazer frente e mostrar o seu génio. O facto encontra-se relatado na revista "Ilustração" que, por ocasião da Grande Parada dos Bombeiros Portugueses, realizada no Porto, em 1934, num artigo intitulado "Evocação dum herói: Guilherme Gomes Fernandes, uma vida ao serviço da comunidade", recordou:

“ – Alto!... Mas eu estou a ser interrogado como réu!? Não posso consentir em tal. Os que devem sentar-se no banco dos réus são V. Exas....

E indicava nervosamente os três magnates que, repoltreados nos seus fôfos cadeirões, tomavam o aspecto de juizes sevéros e inflèxiveis.

– Sim – prosseguiu Gomes Fernandes – os senhores é que devem prestar contas à cidade. A responsabilidade dessa horrivel desgraça cabe-lhes inteira pela incuria que manifestaram, apesar das minhas instantes reclamações. Bem os preveni. São, portanto, os únicos responsáveis do pavoroso desastre. V. Exa. – e indicava o vereador do pelouro dos incêndios – sente-se aqui no meu logar. Se alguem têm o direito de ser juiz, nêste tristisssimo caso, sou eu que procurei evitar a catástrofe por todos os meios."

Há menos tempo, nos anos 60 do século passado, Lisboa foi alvo de dois grandes incêndios em teatros: no Teatro Nacional D. Maria II (2 de Dezembro de 1964); e no Teatro Avenida (13 de Dezembro de 1967).

Em ambas as situações intervieram bombeiros sapadores e bombeiros voluntários, “enfrentando, destemidos, o fogo, fazendo-o com absoluto desprezo pela própria vida”. Não obstante estas palavras, da responsabilidade do “Diário de Notícias”, se reportarem em concreto às condições verificadas no primeiro incêndio, aplicam-se, na perfeição, a muitas outras ocorrências que justificaram a acção dos nossos bombeiros.

Segundo o mesmo jornal, a “antiguidade da construção e natureza dos seus materiais, o alto poder inflamável da camada de poeira acumulada no forro do telhado, circunstâncias estas agravadas pela existência de todo o material de cena e outros objectos guardados no vão superior do edifício, formado pelo falso tecto e utilizado como arrecadação, foram elementos que se conjugaram para dar tão terrível expansão ao incêndio”.

Tanto quanto é sabido, as primeiras medidas preventivas contra incêndios em teatros e noutras casas de espectáculo, com carácter efectivo, surgiram a 17 de Setembro de 1853, vendo-se consubstanciadas num diploma de dez artigos. Entre outras normativas, passou então a ser obrigatória a existência, para trabalho nos dois lados do palco, de um sistema composto por reservatório de água, bomba, mangueira e agulheta. Refira-se que, naquele tempo, o sistema de iluminação residia na utilização de candelabros alimentados a gás fazendo dos teatros locais potencialmente vulneráveis à ocorrência de incêndios e de outros acidentes.

Mais tarde, na tentativa de dar resposta a mais problemas, foram surgindo novas e melhoradas exigências, sobretudo, ao nível da construção dos edifícios, da fiscalização e da vigilância. Geralmente na dependência dos governos civis e das câmaras municipais, a adopção de medidas específicas destinadas a regular a prevenção e segurança no domínio em apreço chegou a ser matéria da responsabilidade da Inspecção-Geral de Teatros e Espectáculos Nacionais, criada a 15 de Novembro de 1836. Foi seu primeiro inspector Almeida Garrett, escritor e dramaturgo romântico, o qual parece ter pugnado pela diminuição do risco de incêndio, embora sem êxito, derivado a vicissitudes do sector que o obrigaram a dispersar a sua actuação por outras áreas. 


Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico

 


 

"Nobre Causa", título de uma peça teatral


cxnh.jpgA relação entre o teatro e os bombeiros não se esgota no combate a incêndios em recintos fechados.

O teatro está bem presente na vida das associações humanitárias de bombeiros, no âmbito das actividades de cultura e recreio exercidas junto dos respectivos sócios em particular e da comunidade em geral.

Na verdade, ao longo da história do associativismo em bombeiros, encontramos muitos bons exemplos de entrega à arte de representar, por via da existência de grupos de teatro amador no seio das próprias associações, especialmente vocacionados para a produção de espectáculos destinados à angariação de fundos, na maior parte dos casos, a favor da aquisição de novas viaturas.

Desconhecemos se essa foi, nos anos 40 do século passado, a motivação dos autores da peça "Nobre Causa", drama em dois actos, cuja capa da brochura onde se encontra publicado o texto teatral reproduzimos a título de curiosidade.

Eugénio Ribeiro Nunes, comandante dos Bombeiros Voluntários do Dafundo, e Vieira Neves, ex-bombeiro voluntário, assinaram na altura o que foi considerado como sendo uma "bela obra dramática que revela uma profunda análise dos sentimentos generosos do povo portuguez, e em que se faz a mais interessante e feliz propaganda da acção humanitária dos Bombeiros Portugueses".

A referida brochura faz parte do arquivo documental da Liga dos Bombeiros Portugueses, entregue aos cuidados do Núcleo de História e Património Museológico. Trata-se, apenas, de um exemplo do valioso acervo ali reunido, onde, entre outras raridades relacionadas com o teatro e mais artes, é possível encontrar, também, o programa do sarau de apoio às viuvas e órfãos dos Bombeiros Municipais de Lisboa, realizado a 7 de Janeiro de 1926, no Coliseu dos Recreios, ao palco do qual subiram os mais consagrados actores e actrizes do país, com destaque para a talentosa, culta e empreendedora Amélia Rey Colaço.

PUB