PUB

Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quinta-feira,

17/08/2017

16:24

Sobre a pioneira Companhia de Voluntários Bombeiro

02/11/2016 12:59:15

  nhpm7.jpg     nhpm8.jpg

Pesquisa/ Texto: Luís Miguel Baptista

O facto é desconhecido pelos inúmeros transeuntes que circulam diariamente na Baixa de Lisboa e justificava, no local, estar gravado numa placa para a posteridade. Foi, no Rossio, durante a segunda metade do século XIX, mais precisamente na farmácia dos irmãos Azevedo, ainda hoje existente, que surgiu a ideia de criar a primeira associação de bombeiros voluntários em Portugal.

A fundação da Companhia de Voluntários Bombeiros (CVB), que mais tarde veio a adoptar a denominação de Associação dos Bombeiros Voluntários de Lisboa (ABVL), verificou-se em 18 de Outubro de 1868.

A iniciativa de fundar a CVB teve origem na falta de operacionalidade revelada pela estrutura municipal de bombeiros, no combate a numerosos e violentos incêndios deflagrados em Lisboa, situação decorrente da insuficiência de meios financeiros destinados à manutenção dos encargos com pessoal e material. Para o efeito contribuíram, decisivamente, as conversas sobre o problema mantidas na farmácia dos irmãos Azevedo, uma das quais (18 de Setembro de 1868) na presença do dr. José Isidro Viana, vereador da Câmara Municipal, e de Carlos José Barreiros, inspector do Serviço de Incêndios, além de outras destacadas personalidades que faziam daquele estabelecimento um dos afamados pontos de reunião da sociedade lisboeta. À semelhança do que se fazia no estrangeiro e perante a promessa feita pelo vereador Isidro Viana de que iria propor o aumento da verba orçamentada para os bombeiros da cidade, cifrado em sete contos, o maestro Guilherme Cossoul, que era presença assídua, alvitrou que se organizasse uma companhia de bombeiros voluntários. Desde logo não faltaram apoiantes, pelo que se sentiu legitimado para a promoção de uma reunião, na Abegoaria Municipal, onde funcionava a Inspecção de Incêndios, dela resultando a constituição da primeira companhia de bombeiros voluntários, que veio a ter o seu primeiro exercício no mesmo local, em 18 de Outubro de 1868.

Os mais destacados nomes do comércio, da aristocracia, das ciências e das artes, bem como muitos membros da colónia inglesa, aderiram à novel companhia, na qualidade de sócios.

A prestação do primeiro serviço verificou-se no dia 22. Tratou-se de uma situação de incêndio, num edifício situado na Travessa da Praia de Santos, onde a corporação, orientada pelo comandante Guilherme Cossoul, recorreu a material do município, em virtude da sua bomba braçal “Flaud” ainda não se encontrar completa para intervenção.

O corpo activo, que teve o seu primeiro quartel numa casa alugada na Travessa de André Valente, era constituído por um conjunto de notáveis figuras, celebrizando-se entre o povo que o passou a denominar como “Bomba dos Fidalgos”. Por sua vez, a sede funcionava na Travessa do Carvalho, em espaço alugado para o efeito.

A referida bomba “Flaud”, cuja aquisição partiu da iniciativa de um anónimo, ao industrial Cannel, pelo valor de 180$000 réis, resistiu até aos nossos dias, sendo pertença da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Almoçageme (AHBVA) e encontrando-se em exposição no seu Museu. Foi adquirida à Associação dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, em 1895, pelo valor de 200$000 réis. O livro “Cem Anos ao Serviço da Comunidade. 1895-1995”, de Maria Teresa Caetano, evocativo do centenário da ABVA, discrimina as despesas efectuadas na reparação daquele equipamento, a fim de esta se encontrar capacitada para entrar ao serviço, o que recordamos, a título de curiosidade:

Trabalho de reparação da bomba – 3$560 réis;

Aviamentos, tintas e solas – 2$720 réis;

65m de mangueira de lona – 26$000 réis;

Uma agulheta – 3$600 réis;

Cinco junções – 10$000 réis;

20 baldes de lona – 12$000 réis;

Um malote para os baldes – 3$000 réis.

Guilherme Cossoul faleceu a 26 de Novembro de 1880, certamente, sem nunca ter imaginado que o seu alvitre iria transformar-se num fecundo e imparável fenómeno social, base organizativa do sistema de protecção e socorro em Portugal.



PRIMEIRO BOMBEIRO VOLUNTÁRIO

Guilherme Cossoul na obra de Ramalho Ortigão

nhpm9.jpgNa obra “As Farpas Esquecidas”, o escritor Ramalho Ortigão (1836-1915) regista a morte de Guilherme Cossoul (1828-1880), pioneiro do voluntariado nos bombeiros em Portugal, salientando qualidades da sua versátil personalidade.

Este clássico da literatura portuguesa, na linha de “As Farpas” e de “As Últimas Farpas”, reúne diferentes crónicas da política, das letras e dos costumes, bem como traduz “um novo e inovador conceito de jornalismo”, mais precisamente “um jornalismo de ideias, de crítica social e cultural”.

O apego aos valores da terra portuguesa está subjacente à escrita de Ramalho Ortigão, o qual chegou a fazer crítica em parceria com Eça de Queiroz.

Guilherme Cossoul, homem de cultura (compositor e violoncelista), foi director do Conservatório e chefe de orquestra do Real Teatro de São Carlos, onde também exerceu a actividade de empresário.

Em 1868, com outras notáveis figuras da sociedade lisboeta, entre as quais o caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro, fundou a Companhia de Voluntários Bombeiros.

Em virtude do seu espírito empreendedor e dedicado ao serviço da extinção de incêndios, mereceu da parte do rei D. Luís I o título de capitão-chefe dos bombeiros da freguesia dos Mártires.

Escreveu Ramalho Ortigão, a respeito daquele a quem a história dos bombeiros portugueses e a toponímia de Lisboa consagram lugar de destaque como “1.º Bombeiro Voluntário”:

“O enterro de Cossoul, perante o qual o ‘Antó¬nio Maria’ se descobre respeitosamente, foi uma dessas poucas acções boas que Lisboa pratica de longe em longe. Faz honra aos sentimentos de um povo prestar por tal modo a um simples cidadão os tributos funerários que noutro tempo se não pagavam senão aos príncipes. Cossoul era apenas um artista amável e um trabalhador honrado. A enfermidade de que morreu contraiu-a arriscando como bombeiro voluntário a sua vida pela do seu semelhante. Passava pelo homem mais gracioso de Lisboa e, apesar disso, consta que tinha graça. Seja leve ao seu coração a terra que ele se dedicou a amar.” 


Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico

PUB