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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

sexta-feira,

21/09/2018

05:01

"SERVIÇO 202"

03/08/2018 10:38:37

                                                                                           Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista


Antigo-quartel-dos-Bombeiros-de-Vila-Real-de-Santo-António.jpg


Eleger um aspecto histórico, de entre as páginas das monografias editadas pelas Associações Humanitárias de Bombeiros, é sempre uma tarefa difícil e, porventura, injusta, porquanto geralmente são muitos os factos importantes que justificariam uma abordagem mais alargada. 

Para esta oportunidade procurámos centrar a nossa atenção em aspectos menos conhecidos e revestidos de maior originalidade, que tenham marcado de forma especial a trajectória das instituições, nomeadamente ao nível de efeitos sociais. É pois o caso do facto seleccionado e aqui abordado, tendo como referência o livro evocativo do centenário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vila Real de Santo António (AHBVRSA), cuja edição se reporta a 1990.


Em 1968, três anos antes da institucionalização do Serviço Nacional de Ambulâncias, vulgarmente designado por “SNA”, a AHBVVRSA lançava o "Serviço 202".

Símbolo-do-Serviço-202.jpg"Acudir às necessidades urgentes das populações dos concelhos de Vila Real de Santo António e outros", foi a razão que levou os bombeiros vila-realenses, ao tempo sob a responsabilidade do prestigiado comandante Luís Cardoso de Figueiredo – o mais velho bombeiro português em actividade, com 83 anos de idade de idade e 60 de "soldado da paz” – a organizar tal serviço, que entrou em funcionamento no final da primeira quinzena do mês de Maio do aludido ano.

A sua denominação, 202, teve a ver com o facto de se tratar do número telefónico através do qual o serviço poderia ser solicitado pela população: 202 Vila Real de Santo António.

Tratou-se de um serviço inovador e, ao que julgamos saber, único em todo o país, no domínio do socorrismo confiado a bombeiros, destacando-se, também, pelo seu carácter permanente, por via de piquete próprio.

Comandante-Luís-Cardoso-de-Figueiredo.jpgA título de curiosidade, recorde-se que em 1965 havia sido criado pelos ministérios do Interior e da Saúde e Assistência o número telefónico 115, destinado ao serviço de primeiros socorros e transporte de feridos e doentes, a cargo da Polícia de Segurança Pública. No início, abrangia somente Lisboa, mas posteriormente foi alargado a outras cidades do país.

Relativamente ao "Serviço 202", em funcionamento a qualquer hora do dia ou da noite, dispunha de "ambulâncias, médicos, enfermeiros, parteiras e de pessoal especializado do Corpo de Bombeiros, material de SOS, recuperadores, oxigénio, talas, injectáveis de emergência, etc", cita o livro do centenário da AHBVVRSA.

Por sua vez, na edição de Maio a Agosto de 1968, o “Boletim da Liga dos Bombeiros Portugueses”, atento à actualidade, num artigo assinado pelo comandante e jornalista Fernando Sá, anunciava:

"Agora das bandas algarvias vem outro assomo de valiosa iniciativa. Os Voluntários de Vila Real de Santo António vão criar um serviço móvel de urgência, que se destina a prestar assistência a feridos ou doentes que dela necessitem, nos concelhos de Vila Real de Santo António e Castro Marim.

Para que tal ideia possa frutificar, para que aquele pensamento altruísta vá por diante, a corporação lançou um pedido de auxílio para a aquisição de uma ambulância. Entrará então em funcionamento o 'Serviço de urgência 202', que será de valor e utilidade indiscutível, prestando assistência a tantos lugares ou aldeias e freguesias rurais."

Área-abrangida-pelo-Serviço-202.jpgAo nível organizativo, o "Serviço 202" obedecia a um conjunto de regras específicas, que aquando da edição da monografia em destaque ainda vigoravam, tais como: "o Serviço 202 só deverá ser solicitado em casos de absoluta necessidade e quando se reconheça ser indispensável a sua presença "; "também o Serviço se encarrega, em caso de necessidade, de transportar o doente ou doentes a qualquer estabelecimento hospitalar "; "no caso de o doente necessitar de utilizar qualquer medicamento existente na ambulância, este será obrigatoriamente reposto pelo mesmo ou seu familiar no dia ou hora imediatos, para que o stock esteja permanentemente completo"; "se o doente for sócio da Associação ou familiar agregado do sócio, devidamente reconhecido, beneficiará de 25 por cento no preço dos transportes".


Uma ambulância que deu nome a criança


Na sua edição de 23 de Agosto de 1944, o jornal “Diário de Notícias” informava que a cidadã Gertrudes Maria tinha dado à luz uma menina, no interior da auto-maca dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC), quando esta se deslocava para a Maternidade Dr. Alfredo da Costa (MAC).

Primeira-auto-maca-dos-BVAC.jpg


O nascimento verificou-se já perto da MAC, assistido por enfermeiras.

O mais curioso da notícia – e por isso merece a nossa especial atenção – é que os pais da recém-nascida baptizaram-na com o nome Guilhermina, o mesmo que havia sido atribuído à auto-maca e que figurava numa placa de prata colocada na chaparia, em homenagem a Guilhermina Santos, benemérita que oferecera o veículo aos BVAC.
A título de complemento, registe-se que a ambulância em causa, marca Citroën, a primeira que o referido Corpo de Bombeiros dispôs, foi inaugurada no dia 25 de Setembro de 1939 e chegou a ser apelidada de "mártir", por ver-se obrigada a prestar serviço em todo o concelho de Sintra, percorrendo longas distâncias e, por conseguinte, desgastando-se significativamente.

Por exemplo, no ano de 1944, efectuaram-se 105 conduções de feridos e doentes – número elevado para a época – apesar de a mesma ter chegado a estar inactiva durante alguns meses, por falta de pneus. Em sua substituição, o serviço de saúde era assegurado através do recurso a um pronto-socorro, sendo a vítima acomodada numa maca de padiola colocada na parte traseira do veículo.

Pródigos em encontrar soluções para os problemas e de modo a que a população não fosse privada de assistência, os bombeiros resolveram colocar umas rodas diferentes e a auto-maca voltou a entrar ao serviço.

Os pneus adequados à marca da auto-maca somente surgiram passados cerca de dois anos sobre a sua requisição às entidades competentes.

Sabe-se que, ao tempo, os BVAC despenderam elevadas importâncias em manutenção mecânica e no consumo de combustível, sem direito a qualquer tipo de apoio de terceiros, pois até a própria cobrança do serviço prestado aos utentes tornava-se impossível de concretizar devido ao facto de não possuírem meios financeiros. Sinais de tempos difíceis vividos pelo voluntariado, agravados, em parte, pelas limitações de ordem económica e conjuntural resultantes da II Guerra Mundial que então penalizavam a vida portuguesa.

 

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico

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