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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

25/09/2017

03:21

O incêndio da última nau da Índia

08/05/2017 13:12:34


Pesquisa e texto: Luís Miguel Baptista

222222.jpg3 de Abril de 1963 – Há 54 anos, um violento incêndio destruiu, na sua quase totalidade, a última nau portuguesa da chamada "Carreira da Índia": a fragata D. Fernando II e Glória, mantida ao serviço da Marinha Portuguesa entre 1845 e 1878.

A data, sem dúvida marcante, figura no historial dos Bombeiros Voluntários de Almada e de Cacilhas, pois tiveram de acorrer ao combate às chamas, o que constituiu uma complexa missão.

Fundeada no Mar da Palha, em pleno estuário do Rio Tejo, aquela embarcação servia então de sede à Obra Social Fragata D. Fernando, instituição destinada ao acolhimento de rapazes oriundos de famílias de parcos recursos económicos e que ali recebiam instrução escolar e treino de marinha.

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Faíscas resultantes de trabalhos de soldadura de um tanque de gasóleo estiveram na origem do incêndio, alastrando rapidamente por toda a estrutura, a ponto de transformar o convés num enorme braseiro.

A bordo estavam 137 jovens e pessoal afecto à Obra Social, alguns dos quais, apesar do atempado salvamento levado a cabo pela Marinha e pelos bombeiros, não deixaram de sofrer pequenas queimaduras e ferimentos ligeiros.

Imprensa da época, nomeadamente o "Diário de Lisboa", dá testemunho de que a extinção das chamas se tratou de "um trabalho abnegado, mas inglório, pois não era possível chegar aos focos de incêndio, localizados nos porões onde todo o madeiramento ardia. A concepção da fragata, as madeiras, os alcatrões e sucessivas camadas de tinta não deixavam que a água vencesse o fogo".

No livro comemorativo dos 120 anos da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Cacilhas, da autoria de Victor Neto, o saudoso chefe Severiano Durão conta que as viaturas e demais material de incêndio seguiram de ferry boat até à fragata sinistrada. As operações processaram-se com enorme dificuldade, devido a intenso fumo, vendo-se limitadas ao lançamento de jactos de água pelas aberturas disponíveis.

"Estive mais de cinco horas agarrado a uma agulheta de 70 mm", recorda o mesmo operacional, falecido em Outubro de 2013, revelando que "já mal sentia os braços".

Por sua vez, no decurso das operações, ficou célebre, um nobre e apreciável gesto patriótico praticado pelos bombeiros, aliás, descrito na "Revista de Marinha", que aqui recordamos: "(…) vendo que a Bandeira Nacional estava prestes a ser consumida pelas chamas, se prontificaram para a 'salvar'. Assim num ambiente de incêndio, enquanto os dois Mestres movimentavam a adriça para arriar a Bandeira, os Bombeiros perfilados e em Continência, indiferentes às chamas e ao denso fumo que já os envolvia, prestavam a última guarda de honra à Bandeira que ali drapejava há muitos e muitos anos".

O chefe Durão fez parte dos intervenientes. "Corremos um enorme risco para salvar a Bandeira Nacional que se encontrava hasteada, tendo ficado algo chamuscada", relata. Todavia, mais tarde, viria a dar-se um caso insólito e penalizante: apesar do cuidado colocado pelos bombeiros de Cacilhas, que dobraram e guardaram a bandeira em cima da bomba com que trabalhavam, aquela, estranhamente, desapareceu.

Após o incêndio, a fragata – “uma carcaça vencida pelo fogo", conforme referenciado pelo "Diário de Lisboa", na edição do dia subsequente ao incêndio – foi adernada e permaneceu encalhada durante 29 anos.

Somente intervencionada a partir de 1992, a fim de ser submetida a um aturado processo de reconstrução, a D. Fernando II e Glória é hoje um pólo de atracção turística, encontrando-se visitável em Cacilhas, no Largo Alfredo Diniz, junto ao terminal fluvial.

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico


Comandante José Brás, dos BV de Almada

 

1111.jpgA propósito da efeméride aqui evocada, recordamos o emblemático e saudoso comandante José Brás, reproduzindo para o efeito uma fotografia captada durante o 25.º Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, reunido na Figueira da Foz, de 6 a 10 de Outubro de 1982, onde foi o comandante-em-chefe do respectivo desfile de encerramento.

Entre outros factos marcantes da sua carreira de bombeiro, no âmbito da qual se revelou sempre incondicional apoiante da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), ficou particularmente célebre a atitude assumida quando da aprovação unânime da criação do Serviço Nacional de Bombeiros, pela Assembleia da República, em 8 de Fevereiro de 1979.

"(...) o veterano das muitas centenas de bombeiros presentes nas galerias, Comandante José Brás (dos B.V. de Almada), gritou: 'Bombeiros de Portugal, sentido!' E todos, à uma, contrariando o Regimento da Assembleia, se ergueram em continência prolongada sob a compreensiva complacência da Mesa da Câmara” – regista o vulgaramente designado "Livro Branco" da LBP. 

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