PUB

Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

sábado,

07/12/2019

18:41

O CTIF e a acção da Liga

08/08/2019 10:32:14

                                                                                                    Pesquisa/ Texto: Luís Miguel Baptista


NHPM_JUL5.jpgDesde os finais do século XIX que a destreza dos bombeiros portugueses remete-os para uma posição privilegiada junto da comunidade internacional, facto que importa preservar. Nessa medida, os fundadores da LBP decidem formalizar a adesão da instituição ao Comité Technique International de Prévention et d’Extinction du Feu (CTIF), no seguimento de deliberação tomada no Congresso do Estoril.

Fundado em 16 de Agosto de 1900, com o contributo de Portugal, representado por Guilherme Gomes Fernandes, o CTIF é, essencialmente, uma organização vocacionada para as questões técnicas e para a troca de experiências no domínio da prevenção e luta contra os incêndios e da prestação do socorro em geral. Sediado em Paris, saúda, em 1931, a constituição da Liga.

NHPM_JUL1.jpg

A ambição de elevar o nome dos bombeiros portugueses não se limita ao país. A vontade de o fazer além-fronteiras intensifica-se, à medida que vão surgindo os reflexos positivos do movimento de reorganização dos serviços de incêndios liderado pela Confederação.

Entre 26 de Junho e 5 de Julho de 1931, tem lugar, em Paris, o Congresso Internacional do CTIF. É a grande oportunidade da LBP representar, oficialmente e pela primeira vez, Portugal e os seus bombeiros. Reunidas condições para o efeito, parte para França o Comandante Joaquim Teotónio Segurado, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Cascais, que participa nos trabalhos da reunião, na qualidade de primeiro delegado ao Conselho Permanente. Ao representante de Portugal, junta-se o Comandante Joaquim do Nascimento Gourinho, que mais tarde vem a ser convidado para ocupar o lugar de Vice-Presidente do CTIF, sendo o primeiro português a ascender a tão representativo e honroso cargo.

NHPM_JUL2.jpg

O Congresso de Paris passa a constar, no domínio das relações exteriores, como o começo de uma promissora e prestigiante experiência da Liga. 

Depois de 1931, sucedem-se as presenças em reuniões internacionais. José de Brito, Primeiro Patrão dos Bombeiros Voluntários do Porto, ao participar no IV Congresso Internacional do CTIF, faz uma exposição sobre os bombeiros portugueses e a sua situação.

O nome de Portugal, referenciado com frequência, passa a figurar no roteiro de visitas de muitos bombeiros estrangeiros. Convidam-se personalidades das estruturas congéneres para assistir aos congressos da Confederação, estreitam-se relações e obtêm-se novos ensinamentos, junto dos países mais evoluídos em material e técnica de combate a incêndios. As impressões recolhidas a respeito de Portugal e dos seus serviços de incêndios são as melhores.

Nos anos que antecedem a II Guerra Mundial, a cidade de Lisboa reúne possibilidades, da parte do CTIF, como local de realização do seu Congresso Internacional. O facto chega a ser deliberado em reunião dos países membros e entusiasma os responsáveis pela LBP. Contudo, as circunstâncias da guerra, que forçam a interrupção da actividade do Comité, no período de 1939 a 1945, faz o assunto cair no esquecimento.

Restabelecida a paz na Europa, o CTIF retoma a sua actividade normal. Nesse contexto, o prestígio de Portugal no seio daquela estrutura internacional volta a ocupar lugar de destaque. Em Setembro de 1951, no VII Congresso, em Copenhaga, o Comandante Joaquim do Nascimento Gourinho, há muito tempo afirmado como representante dos bombeiros portugueses, é reeleito Vice-Presidente do organismo. E, por mérito próprio, chega a desempenhar a função de Presidente Interino, aquando do Congresso Internacional do Fogo, realizado de 20 a 24 de Setembro de 1960, em Bordéus, por demissão do Presidente Coronel Maruwel. Nessa mesma reunião, António de Moura e Silva, Presidente do CAT, apresenta a candidatura de Portugal como país anfitrião do futuro Congresso Internacional do Fogo, a realizar em 1962.

Do ponto de vista internacional, a imagem de Portugal encontra-se desfavorecida devido à política conservadora do Governo de Salazar, no tocante aos territórios ultramarinos, contrariando o anticolonialismo consagrado como princípio fundamental da Carta das Nações Unidas. Teme-se que a conjuntura política possa concorrer em desfavor da candidatura. No entanto, o carácter apolítico das organizações dos bombeiros impera na escolha unânime de Lisboa.

Em 1962, entre 22 e 26 de Agosto, realiza-se, nas instalações da Feira Internacional de Lisboa (FIL), o II Congresso Mundial do Fogo, tendo a Confederação como principal entidade responsável pela organização da reunião. Participam 162 congressistas, em representação de 28 países, da Europa, América do Sul, África e Ásia. À sessão de abertura e ao desfile preside o Presidente da República, Almirante Américo Tomás, o qual, no decorrer do Congresso, condecora o Presidente e o Secretário Geral do CTIF, respectivamente, Josef Holaubek e Tenente Coronel Collinet, com a Ordem Militar de Cristo.

NHPM_JUL3.jpg

O Congresso Mundial do Fogo resulta numa importante jornada de afirmação do valor dos bombeiros portugueses, apesar das dificuldades enfrentadas pela Liga. A limitação de recursos financeiros implica a solicitação de apoio ao Governo, que se mostra muito interessado na realização da iniciativa, a fim de cobrir despesas de organização, pois para satisfazer o pagamento da quota do CTIF têm que ser os próprios dirigentes a colectarem-se entre si. Quanto a deslocações ao estrangeiro, os custos das viagens são suportados a título particular. As relações internacionais estabelecem-se em verdadeiro espírito de sacerdócio.

Em 1966, sob proposta dos bombeiros franceses, o Presidente da LBP, António de Moura e Silva, é eleito, em Titisse, na Alemanha, Vice-Presidente do CTIF. Portugal sente-se novamente reconhecido, ao mesmo tempo que, na memória da comunidade estrangeira, se mantém presente a bem sucedida organização do Congresso de 1962.

Na mesma ocasião, Joaquim do Nascimento Gourinho, o mais antigo elemento do CTIF, ainda em actividade, ascende a Vice-Presidente Honorário. Os representantes dos 26 países presentes na reunião do Conselho Permanente saúdam-no efusivamente e testemunham simpatia e apreço pelo seu trabalho e dedicação.

António de Moura e Silva volta a ser eleito no ano de 1970, em Viena e, posteriormente, ao finalizar o mandato de quatro anos, proclamado Vice-Presidente Honorário.

Entre 1974 e 1978, período de viragem na estrutura da Confederação, as relações com o CTIF mantém-se em “estado latente por razões de ordem financeira e por se aguardarem contactos esclarecedores de relações, direitos e obrigações”, avança o Relatório do CAT referente ao biénio 1976-1978.

NHPM_JUL4.jpg

No ano de 1978, em obediência a orientações emanadas do Congresso e da Assembleia de Delegados, são reactivadas as relações com o CTIF e retomado o pagamento da quotização. Selando uma nova era, o Padre Dr. Vítor Melícias Lopes visita, em Maio de 1979, na cidade de Paris, a sede do Comité. No mês de Julho do ano seguinte, ao representarem a LBP no I Concurso Internacional de Manobras de Sapadores Bombeiros, em Tione, Trento-Itália, o Padre Dr. Vítor Melícias Lopes e Ismael Baltazar, inteiram-se sobre as condições para participação de equipas de bombeiros portugueses no Concurso de Manobras do CTIF, programado para 1981, em Boblingen, na República Federal da Alemanha.

O que, em 1980, se traduz numa intenção, no ano seguinte, corresponde a uma prática bem sucedida. A bandeira portuguesa desfila em Boblingen, simbolizando a participação de Portugal no Concurso Internacional de Manobras do CTIF. A equipa do então Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa obtém a medalha de Ouro correspondente ao primeiro lugar, entre oito equipas profissionais. Na categoria de voluntários, a equipa dos Bombeiros Voluntários de Portalegre classifica-se em 26.º lugar, num total de 45 equipas concorrentes.

Depois de Boblingen, Portugal começa a participar em todos os escalões dos concursos internacionais de manobras. 1983 marca o alargamento à participação dos jovens bombeiros portugueses, ao nível de equipas masculinas e femininas.

Do ponto de vista meramente desportivo e independentemente das classificações obtidas, Portugal consegue atingir, sempre, o pódio da dignidade. Renovado sucesso é alcançado, em diferentes períodos, através da conquista de medalhas de Ouro, Prata e Cobre, por equipas em representação do Batalhão de Sapadores Bombeiros do Porto e, ainda, dos Bombeiros Voluntários de Leixões, Marco de Canaveses, Montemor-o Novo, Ourém, Rebordosa e Ribeira Grande.

Com a criação do SNB, a representação de Portugal no Conselho Permanente passa a ter a designação de Comité Nacional Português do CTIF, integrado por elementos da LBP e daquele Serviço. No âmbito de um acordo, cujo projecto merece a aprovação do Congresso da Figueira da Foz, em 1982, a presidência do referido comité recai em cada uma das entidades, obedecendo a esquema rotativo, com duração de um período de três anos.

De 21 a 24 de Outubro de 1987, realizam-se, no Estoril, as reuniões do Comité Executivo, do Conselho Permanente do CTIF e do XVI Simpósium Internacional, este último subordinado ao tema “Segurança contra incêndios em hospitais e estabelecimentos para pessoas que necessitam de cuidados especiais”. Cabe a Portugal a organização do evento, registando-se a participação de delegações de 22 países.

Decorridos 21 anos sobre a última eleição de António de Moura e Silva, o Eng.º José António da Piedade Laranjeira, Presidente do SNB, é o terceiro português a ascender ao cargo de Vice-Presidente. Eleito em Outubro de 1991, na cidade de Bruxelas, não conclui o mandato por, entretanto, solicitar a sua demissão.

A década de 90 continua a ser bem sucedida, no plano internacional. Entre 15 e 18 de Outubro de 1998, Lisboa acolhe as reuniões do Comité Executivo, do Conselho Permanente e um simpósio subordinado ao tema “Luta Contra os Incêndios - Análise e Cobertura de Riscos”. Participam representantes de 29 países. A organização portuguesa recebe rasgados elogios não só pela qualidade técnica dos eventos como também pelos programas sociais e apoios logísticos.

Consumado o êxito de mais uma jornada e reconhecido o prestígio dos bombeiros portugueses, instala-se novo desejo de voltar a ver o país representado na estrutura executiva do CTIF. Ao realizarem-se eleições para os órgãos dirigentes do Comité, Portugal apresenta a candidatura de José Manuel Lourenço Baptista, Presidente da Liga, para Vice-Presidente do Comité Executivo. A eleição dá-se em Setembro de 1999, na cidade de Gotemburgo, Suécia. No mês de Setembro de 2003, em Budapeste, volta a ser eleito para a mesma função. Ao representante português são confiadas responsabilidades no “alargamento das relações internacionais do CTIF, estabelecendo novas formas de cooperação com os sectores dos grandes grupos empresariais, geradores de riscos industriais. Isto perspectivado a um vasto número de empresas europeias e do continente americano, com as quais, ao mesmo tempo, se pretende formalizar acordos que permitam a troca de experiências e de estudos técnicos, susceptíveis de se repercutirem, em dimensão e vantagem, a todos os bombeiros dos países filiados no CTIF”.


                                                                                     Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

                                                                                                                                                                                                                                                                 Site do NHPM da LBP:

                                                                                     www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico


 

PUB