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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

sábado,

18/11/2017

02:42

O Congresso do Estoril

03/11/2017 10:03:53

Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista

Os anos 20 estão a chegar ao fim, sem aparentes perspectivas de melhoria na nova década que se avizinha.

O número de associações e corpos de bombeiros passa de pouco mais de uma centena. E é sintomática a desorganização em diferentes domínios.

Da parte do Governo, determinado em empreender diferentes reformas sectoriais, conhece-se a pretensão de alargar as mesmas aos aspectos organizativo e funcional dos bombeiros, com o fim da sua militarização.

Congresso-do-Estoril---1930.jpg


























A realidade dos bombeiros em Portugal, à excepção de Lisboa e arredores, aponta para um estado de isolamento profundo. As relações mantidas entre as várias associações e corpos de bombeiros são manifestamente restritas, ou quase nulas. O país está dividido. Não há espírito de união, o que se reflecte na ausência de uma organização que represente os interesses do sector, perante os poderes instituídos. O facto merece a atenção de vários comandantes de bombeiros do Centro e Sul do país, que, em 1929, trocando impressões durante uma festa dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas, reconhecem a necessidade de criar um organismo que congregue e revitalize as associações e corpos de bombeiros.

Por seu lado, a revista “O Fogo”, periódico especializado que se ocupa com a actividade dos bombeiros portugueses, fundada e dirigida por Jayme Firme Rocha, estimula a ideia da realização de um congresso, supostamente, para evitar que o Governo, a pretexto da fragilidade instalada, proceda a profundas alterações estruturais. Num dos almoços anuais de confraternização promovidos por “O Fogo”, com a presença dos comandantes dos corpos de bombeiros de concelho de Cascais, constitui-se uma comissão organizadora do idealizado congresso. O movimento conta, logo à partida, com o apoio de representantes de 40 corpos de bombeiros, que ambicionam traçar um novo rumo comum.

Para o período de 16 a 18 de Agosto de 1930, é convocado o Congresso Nacional de Bombeiros Portugueses. As instalações das Termas do Estoril, cedidas especialmente para o efeito pela Sociedade Estoril, são palco da reunião. Prevê-se a presença de mais de 300 congressistas. A organização, satisfeita com o elevado nível de participação, presta homenagem a Jayme Firme Rocha, entretanto falecido, “iniciador incontestável do Congresso”.

A reunião constitui uma aposta para ganhar. Nos bastidores, vive-se grande azáfama. Passados 25 anos, o “Boletim da Liga dos Bombeiros Portugueses” recorda e descreve o ambiente:

“O Comandante Gourinho, no seu quartel, afoga-se em papelada e multiplica-se, com os comandantes das corporações do concelho de Cascais, em saudações aos recenvindos e em indicações sobre alojamentos.

Atmosfera, não de desconfiança, mas ainda de falta de confiança.

Surgem os veteranos, alguns que vieram para esta terceira tentativa de organização de uma côisa que se visse désse garantias de honestidade e de bem alicerçada.”

Durante três dias, representantes de 110 corpos de bombeiros voluntários e municipais ocupam-se com a discussão de diferentes problemáticas do sector.

Os trabalhos decorrem com elevação, subordinados a um conjunto de teses. A vontade de mudar contagia todos os congressistas e fá-los caminhar em frente, sem tibiezas, à medida que a confiança vai crescendo. A imprensa dá grande cobertura aos trabalhos e, em consequência, força a todo o evento. O sucesso do Congresso parece ser um dado adquirido logo nos primeiros momentos, para desvantagem de alguns que haviam desenvolvido esforços na tentativa de desacreditar a reunião e o propósito dos seus mentores.

Numa tese de Celestino Garcia Lopes, 2.º Comandante dos Bombeiros Voluntários dos Caminhos-de-Ferro do Sul e Sueste, os congressistas inteiram-se sobre as bases para a fundação de uma organização oficial representativa da classe. Chega o último dia do Congresso: 18 de Agosto de 1930. Álvaro Valente, Comandante dos Bombeiros Voluntários do Montijo, em nome da Comissão de Legislação, emite um parecer favorável a respeito da tese. O germinar de uma nova organização domina a atenção dos congressistas, que, com profundo entusiasmo, aprovam as referidas bases. Assiste-se a um momento histórico: a criação da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), Confederação de Associações e Corporações de Bombeiros, com objectivos definidos:

“(...) promover o desenvolvimento profissional e técnico dos bombeiros, estabelecer a solidariedade entre os seus filiados, promover congressos e concursos, prestar assistência moral e material a bombeiros, criar delegações distritais, promover leis de protecção para os filhos e mulheres de bombeiros mortos no cumprimento do seu dever, fundar um jornal órgão da Liga.”

Na mesma ocasião, os congressistas delegam, num grupo de destacadas personalidades, o cumprimento das bases aprovadas. Capitão Alfredo Horácio da Cunha Nery, Capitão José de Almeida Cassar, Álvaro Valente, José Dias Ferreira, Joaquim do Nascimento Gourinho, Joaquim Teotónio Segurado e José Luís de Almeida Ricardo integram a Comissão Executiva da recém-criada LBP. Esta mesma comissão encarrega-se de várias diligências, no período subsequente à reunião magna. A prioridade vai para a exposição das resoluções do Congresso ao Presidente da República, General Óscar Carmona, tendente a obter o apoio do Governo. O mesmo Chefe de Estado, a quem a Liga fica grata pela atenção recebida, razão pela qual expressa, em 1951, aquando da sua morte:

“Os Bombeiros de Portugal, e nomeadamente os Voluntários, nunca poderão esquecer-se de que foi ele quem se impôs para que não fosse por diante a ideia de os militarizar, quando, por altura do Congresso do Estoril, se pensou nessa modalidade que lhes retiraria todas as características ideológicas.”

Congresso de 1936 na Cinemateca Digital

A Cinemateca Digital, da Cinemateca Portuguesa, não pára de surpreender ao disponibilizar vídeos de acontecimentos históricos relacionados com os bombeiros portugueses.
Um dos conteúdos ali publicados, do género documentário, apresenta diferentes momentos do IV Congresso Nacional de Bombeiros, ocorrido em Espinho, de 9 a 13 de Julho de 1936, e não Setembro, conforme consta no início e na respectiva ficha técnica.

Cinemateca-Digital---Congresso-Espinho-1936.jpg

Produzido e realizado pelo Secretariado da Propaganda Nacional, desconhecíamos a existência deste filme.
As suas imagens, melhor do que qualquer outro testemunho, mostram-nos, vibrantemente, embora sem som, ao longo de 9 minutos e 11 segundos, um período sobremaneira importante dos bombeiros em Portugal, marcado pelo renascimento e expansão das suas instituições, sob o forte impulso organizacional da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Vídeo disponível em: 

http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=3314&type=Video

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico

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