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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

domingo,

30/04/2017

08:10

NOVA IORQUE 77

24/02/2017 12:02:37


Estágio de Comandantes em Bombeiros de élite

 

Texto/Pesquisa: Luís Miguel Baptista

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Entre 19 de Setembro e 8 de Outubro de 2017 completam-se 40 anos sobre a realização do estágio de comandantes portugueses no New York Fire Department (NYFD), então "considerada a mais importante corporação de bombeiros existente". Esta é, de resto, a expressão empregue no relatório mais tarde elaborado e também distribuído por ocasião do XXIII Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses (Estoril - 1978), no qual se fundamenta o presente artigo.

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"(...) possibilitar a estadia de alguns elementos dos nossos bombeiros de forma a poderem colher ensinamentos que se nos afiguravam úteis para aplicação nas Corporações de Bombeiros Portugueses" foi o objectivo do estágio, proporcionado pela Liga dos Bombeiros dos Portugueses (LBP), com o apoio da Fundação Calouste Gulkenkian (FCG), do Ministério da Administração Interna (MAI) e da Comissão Instaladora do Serviço Nacional de Protecção Civil (CISNPC).

A ideia partiu do secretário técnico da Confederação, comandante Serra e Moura (Bombeiros Voluntários de Lisboa), conhecedor e entusiasta da realidade dos bombeiros americanos, que para o efeito estabeleceu contacto com o comandante do NYFD, Jonh O'Hagan, sendo, portanto, bem sucedido.

Seguiram para os Estados Unidos da América sete elementos, seleccionados mediante a prestação de provas que envolveram 25 candidatos. Foram eles: comandante José Alberto Caetano (Bombeiros Voluntários de Almoçageme), comandante Armando de Matos Fernandes (Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique); comandante António Babo Pinto Ribeiro (Bombeiros Voluntários de Marco Canaveses), comandante Rogério Seabra (Bombeiros Voluntários de Leça do Balio), comandante Júlio Carneiro (Bombeiros Municipais de Viana do Castelo), comandante Amílcar Carvalho (Bombeiros Voluntários dos Estoris) e comandante José Bello Moraes (Bombeiros Voluntários de Portalegre).

A experiência obtida, qualificada como "excelente", encontra-se descrita ao longo de 15 páginas que compõem o relatório do estágio, focalizando este, entre outros, aspectos relacionados com o conhecimento prático dos meios de ataque, a organização do New York Fire Department, a prevenção contra incêndios e a utilização de viaturas.

Conclui-se não só da vastidão do estágio mas também da sua intensificação, pois além dos assuntos versados nas aulas (ventilação, explosão de veículos transportando gases, organização do Departamento, monóxido de carbono, desmoronamentos, fogo posto, fogos em florestas, vistorias a fábricas, fogos em edifícios de grande altura, táctica de ataque, segurança contra incêndios em edifícios de grande altura, exercícios práticos de salvamento individual, sistemas de detecção e alarme e sprinklers), os nossos comandantes efectuaram visitas de estudo, estiveram presentes em grandes incêndios e acompanharam a realização de vistorias. De igual modo inteiraram-se sobre as potencialidades da recém-inaugurada Academia de Fogo de New York, situada no bairro de Bronx, junto ao Rio Hudson, percorrendo o seu alargado espaço (cerca de 90.000 m2), dotado de surpreendentes condições, susceptíveis da simulação dos mais diferentes cenários.


Uma nova táctica


img223.JPGA propósito, importa referir e contextualizar que, à época, os bombeiros em Portugal, sobretudo, os voluntários, viviam uma situação muito depauperada. Sob proposta e forte impulso da LBP, trabalhava-se afincadamente, no âmbito de uma comissão específica constituída por despacho do MAI, na reestruturação dos serviços de incêndios, pugnando os bombeiros, em especial, pela criação de órgãos de cúpula do socorrismo, correcta definição de atribuições e competências, manutenção e incremento do voluntariado, suficiente apoio financeiro do Estado e ou das autarquias locais, escola nacional do fogo e conveniente equipamento material e humano.

Perante tão elevado número de necessidades e aspirações, não será de estranhar que a deslocação ao NYFD tivesse constituído um importante acontecimento, resultando num assinalável contributo a favor da valorização técnica dos bombeiros portugueses. Um dos assuntos que gerou maior sensação foram os ensinamentos respeitantes à táctica de ataque fundamentada na ventilação, que até então havia sido vista entre nós com "desconfiança" e relutância". Aliás, após o estágio e com a finalidade de esclarecer os bombeiros portugueses e elevar o seu conhecimento a um nível actualizado, a mesma passou a ser motivo da realização de sessões temáticas ao longo do país, por iniciativa da Liga dos Bombeiros Portugueses, com recurso a meio audiovisual (projecção do filme técnico americano intitulado "Ventilação"), abordando-se assim "um acentuado avanço na técnica de extinção de incêndios". Recordemos uma passagem do relatório sobre a matéria, que descreve aquela "vantagem para o ataque a incêndios", nos seguintes termos: "A preocupação é de atacar o fogo pelo interior e empurrá-lo para o exterior. Por isso raramente utilizam os grandes jactos das viaturas (através de agulhetas-canhão) a não ser nos fogos em que o outro recurso não é viável. Num caso recomendam a sua utilização à chegada ao local - quando o fogo ameaça passar-se pelo exterior de um andar para o outro. Então neste caso o Chefe de viatura manda trabalhar a agulheta-canhão durante um lapso bastante curto pois caso contrário correria o risco de estar a empurrar o fogo para o interior do edifício."


À margem do estádio


img211.JPGDurante a sua estada em território norte-americano, os sete comandantes foram brindados com várias recepções, inclusive oferecidas por portugueses ali residentes, e convidados a participar numa homenagem aos bombeiros falecidos, junto do Firemen's Memorial, onde tomaram lugar de destaque e depuseram, em nome dos bombeiros portugueses, uma coroa de flores. Por outro lado, tiveram a honra de desfilar na 5.ª Avenida, em paradas distintas, quando da celebração de datas festivas, integrando a formatura do New York Fire Department .

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No final da jornada formativa realizou-se uma cerimónia para a entrega dos diplomas comprovativos do estágio, com a presença do Cônsul de Portugal em Nova Iorque, Melo Freitas, que culminou com as intervenções do comandante Jonh O'Hagan, do diplomata atrás referido e do secretário técnico da LBP, comandante Serra e Moura, que procedeu à imposição de condecorações da Confederação.

No regresso, a delegação portuguesa trouxe consigo na bagagem dois aparelhos respiratórios da gama "Scott", utilizados pela Academia de Fogo. Atribuídos, através de sorteio, saíram premiados os Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique e os Bombeiros Municipais de Viana do Castelo. Tratou-se de uma atenção do comandante do NYFD.

"Realçamos aqui, por ser da mais elementar justiça, o clima de excepcional camaradagem em que vivemos especialmente no quartel 206 onde se cimentou uma verdadeira amizade entre a guarnição da viatura (cerca de 20 homens) e o nosso contingente.

Só quem ali viveu 6 semanas poderá testemunhar o correctíssimo comportamento de ambos os lados podendo assegurar que os portugueses deixaram ali uma imagem excelente do que são os nossos bombeiros."

É deste modo que, na sua última página, encerra o relatório do estágio de comandantes portugueses no New York Fire Department. Mais uma página de história gloriosa - e por isso aqui avivada - que honra e prestigia os bombeiros de Portugal!


 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico

 

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