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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quinta-feira,

17/08/2017

16:26

Mário Lobo: Nome de um herói obscuro

06/12/2016 16:14:03


Texto/Pesquisa: Luís Miguel Baptista

 1.JPGAo consultarmos os álbuns do antigo Museu da Liga dos Bombeiros Portugueses (Museu Júlio Cardoso), identificamos a fotografia de um jovem e valoroso bombeiro voluntário, cuja singularidade da sua história encerra uma das mais insólitas mortes, em serviço, dos bombeiros portugueses. O seu corpo nunca foi encontrado! Conforme viria a ser dito, muitos anos mais tarde, por um dos seus camaradas, numa visão poética, ao descrever o sucedido, “foi como se uma nuvem o pudesse ter levado para o infinito”.

A 20 de Novembro de 1937, Mário da Conceição Lobo, com 25 anos de idade, bombeiro de 3.ª classe dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC), foi arrastado pela fúria das águas, supostamente, quando tentava prestar socorro a vítimas das inundações que, naquela data, atingiram ambos os lugares. E dizemos "supostamente", porquanto bombeiros ou populares não presenciaram o acidente, tornando-se por isso difícil concluir das condições objectivas do desaparecimento. Todavia, testemunhos divulgados pela imprensa da época, que recordamos, parecem fazer sentido, sustentando, até aos nossos dias, a única versão existente sobre a morte de Mário Lobo.

“Na noite do temporal, por volta das 21,30, e pouco depois da massa líquida ter galgado a ponte do Cacém, um garoto de 12 anos, Leonel José Baptista, viu um vulto na cheia. E nessa mesma altura chamou para o facto a atenção de seu avô. Que se podia fazer? Nada, absolutamente nada. Agora, a ninguém resta dúvidas de que o vulto era o de Mário Conceição Lobo.” Esta informação foi veiculada pelo “Diário de Notícias”, em 23 de Novembro de 1937. Não deixando de acompanhar o caso, nas edições dos dias subsequentes, aquele periódico, a 25 do mesmo mês, dava assim conta de novos desenvolvimentos:

“Continua sen­do o assunto de todas as conversas o desa­parecimento do bombeiro voluntario desta localidade, Mário Lobo, que as águas turvas e traiçoeiras tragaram quando procurava servir uma causa a que há seis anos se de­dicava. Corre agora uma nova versão, que é a que mais se aproxima da forma como se teria dado o desastre.

4.jpg3.jpgO infeliz Mário Lobo não quis regressar ao quartel no ‘pronto-socorro’ e teria to­mado a rua António Nunes Sequeira, por ser o trajecto mais próximo da sua casa. Mas, ao atingir o cruzamento desta com a rua da Ponte Nova, ouvira os gritos de so­corro que partiam da casa de Manuel Pei­xinho, que estava a ser invadida pela água do rio.

O destemido bombeiro ter-se-ia desviado, para aquele local, a fim de ali prestar os socorros, tentando atravessar a ponte que o separava da casa, sendo então arrebatado pela corrente, que era fortíssima. Supõe-se ainda que nesse momento se tivesse apa­gado a iluminação pública.

Chegou-se a esta conclusão por declarações da sr.ª D. Carinte Pombo, que da sua janela viu um vulto de capa vestida tomar esta direcção. Quando foi dado o sinal de alarme, o desaparecido estava a trabalhar em casa do sr. António Paula Lopes. Cor­rendo ao quartel, tomou uma viatura, não chegando a ir a casa fardar-se para se não demorar. Foi, depois de cinco horas de ár­duo trabalho, quando ia alimentar-se para refazer as forças, a fim de voltar a trabalhar pelo bem alheio, que encontrou a morte.”

Apesar das muitas e aturadas buscas efectuadas ao longo dos cursos das ribeiras do Papel e de Caxias, até ao Tejo, não foram detectados sinais de vida ou morte de Mário Lobo. Resistiram, apenas, presos à raiz de uma árvore e a uns silvados, respectivamente, o seu casaco impermeável e o cinturão de cabedal.

“(…) o casaco encontrava-se preso à árvore pela aba e tinha as mangas voltadas do avesso, o que para nós significava que o corpo de Mário Lobo passara naquele local e que o casaco, ao ficar preso, se lhe despira, continuando o corpo o curso. Não restavam  dúvidas. Mário Lobo fora tragado pelas águas revoltas da cheia e a tristeza invadia-nos" – testemunhou, um dia, o saudoso comandante dos BVAC, Artur Lage, recordando as horas amargas vividas, era então bombeiro de 3.ª classe.

A propósito, o “Diário de Notícias”, no dia 3 de Dezembro de 1937, noticiou que “os trabalhos de pesquisa resultaram infrutíferos, mas vieram confirmar a boa camaradagem existente entre os bombeiros portugueses". Em acção, no terreno, a partir de Barcarena, onde se reuniram, estiveram 70 homens e oito viaturas, pertencentes aos corpos de bombeiros de Agualva-Cacém, Algés, Amadora, Barcarena, S. Pedro de Sintra e Sintra. Existe ainda registo da intervenção, provavelmente noutro momento das pesquisas, dos Voluntários do Dafundo e de Paço de Arcos.

O acontecido gerou uma enorme onda de consternação. As bandeiras de associações de bombeiros estiveram a meia haste. Por sua vez, a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), no respectivo Boletim, referente a Novembro de 1937, deu assim prova da sua desolação:

“O desaparecimento do infeliz Mário Lobo, da corporação de Agualva-Cacém, veio dar a nota triste aos relevantes serviços prestados pelas corporações que tiveram de intervir nos socorros dispensados ás populações atingidas pela tormenta que assolou diferentes terras do paiz. Se bem que ainda não esteja suficientemente averiguado como se deu o desaparecimento daquele camarada, a verdade é que, infelismente, não pode restar dúvida de que ele foi vitima da sua dedicação.”

2.jpg

Um ano após o trágico acontecimento, a fim de perpetuar a memória do malogrado bombeiro, foi descerrada uma lápide no local onde presumivelmente se deu o desaparecimento, acto aqui documentado através de uma das imagens reunidas no nosso Núcleo de História e Património Museológico. A título de curiosidade, compareceram na ocasião, entre várias entidades, com os seus estandartes, representações dos bombeiros da Ajuda, Algés, Amadora, Barcarena, Carcavelos, Carnaxide, Cascais, Colares, Cruz de Malta, Dafundo, Lisboa, Lisbonenses, Linda-a-Pastora, Queluz, S. Pedro de Sintra, Sintra e Sul e Sueste. A LBP marcou presença na homenagem através do Comandante Álvaro Valente, um dos mais prestigiados dirigentes da Confederação, que proferiu impressionante discurso, referindo, a dado momento: “Mário Lobo morreu? Não! Porque a sua alma paira sôbre as nossas cabeças, como por sôbre a sua pairou aquela ave noturna, anunciando-lhe o seu triste fim, naquela sinistra noite em que a água, irrompendo de todos os lugares, inundou êste lugar! E foi a água quem o matou! A água! O instrumento que êle tantas vezes utilizara para a extinção das chamas!”

Posteriormente, nos anos 60, foi a vez do nome de Mário Lobo passar a figurar na toponímia de Agualva-Cacém. Para a Rua Mário Lobo, também ela situada nas imediações do presumível sítio da tragédia, resultante da conversão do mesmo em área urbanizada, verificou-se ainda a transferência da referida lápide de homenagem, a qual anos mais tarde veio a sofrer alterações, sendo configurada num novo aspecto, tipo monumento, que se mantém.

A concluir, transcrevemos palavras que, há 79 anos, traduziram o sentir da Liga dos Bombeiros Portugueses, ao sublinhar o "zelo e solicitude" dos "dedicados serviços" prestados por Mário Lobo em diversos sinistros, com destaque para o grave incêndio no Palácio Nacional de Queluz (4 de Outubro de 1934):

“Não resta duvida que Mário Lobo foi um belo ornamento dessa legião anonima de colaboradores dos seus chefes, comando e direcções que, pelo paiz fora, presta o melhor do seu esforço em prol da causa em que todos trabalhamos.”

 

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico

 

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