PUB

Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

terça-feira,

12/12/2017

21:49

LISBOA, CAMPO DE OURIQUE - 1921

04/10/2017 16:00:10


Uma grande prova de esforço e solidariedade


Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista

np.jpgA “Ilustração Portugueza” chamou-lhe “O desastre de Campo de Ourique”. Um prédio em construção, naquele bairro lisboeta, desabou parcialmente, ficando soterrados debaixo dos escombros vários operários que trabalhavam na obra.

A tragédia deu-se no dia 14 de Outubro de 1921, na Rua Correia Teles. Eram 10,45 horas, quando ecoou um “ruído formidável”.

Aparentemente sólida, a edificação em causa transformou-se, como é visível, na sua esmagadora maioria, num “colossal monte de entulho”. Do interior deste, ouviam-se gritos de socorro. Pouco tempo depois chegavam ao local, para prestarem auxílio, meios dos Bombeiros Municipais de Lisboa, actual Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa, que vieram a ser apoiados pelos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique – Cruz Branca (aquartelados na própria Rua Correia Teles, desde 3 de Julho de 1921) e dos extintos Bombeiros Voluntários de Campolide (ambos os corpos de bombeiros integravam a Divisão Auxiliar dos Bombeiros Voluntários de Lisboa). 

As imagens que reproduzimos, então publicadas na “Ilustração Portugueza”, dão uma ideia precisa da dimensão do sinistro, o qual exigiu ainda a intervenção do Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro e da Cruz Vermelha Portuguesa, para além da Guarda Nacional Republica e, supomos, da então Polícia Civil de Lisboa, antecessora da Polícia de Segurança Pública. 

O “Diário de Lisboa” do próprio dia do desabamento salienta que todos revelaram “o maior espírito de sacrifício”, num contexto absolutamente crítico, credor da máxima resistência física e emocional. 

Uma hora mais tarde, após a dura remoção de escombros – com recurso, apenas, a pás, enxadas e picaretas – foram retirados os primeiros operários, infelizmente, já cadáveres.

O balanço inicial saldou a existência de três mortos e outros tantos feridos, que antes de transportados para o Hospital de S. José receberam tratamento no Posto de Socorros da Cruz Branca (localizado na Rua Ferreira Borges). Porém, nos dias seguintes, a contagem aumentou para cinco vítimas mortais, confirmando-se as suspeitas de que mais operários haviam perecido entre o turbilhão de destroços.

Segundo informação veiculada pelo “Diário de Lisboa”, por determinação do comandante dos bombeiros, foi ordenada a demolição do que restou do edifício, para evitar a repetição de quaisquer acidentes.

Refere ainda aquele periódico que o desabamento resultou de deficiências de construção, motivadas pela fraca qualidade dos materiais utilizados, tendo sido tomadas diligências pelas autoridades policiais com vista ao apuramento de responsabilidades junto de dois mestres de obra, proprietários do prédio.

O caso, polémico, gerou protestos de indignação em ruas de Lisboa, culpando os construtores, ao tempo apelidados de “gaioleiros”, por esta e outras derrocadas ocorridas nas áreas de Campo de Ourique e de S. Bento.


"Não é o traje que faz o bombeiro - são os seus actos”


npm.jpgDesde há longa data que a protecção individual do bombeiro é considerada como sendo de primordial importância no contexto do socorro.

Em 1881, “O Bombeiro Portuguez” – folha quinzenal publicada no Porto – ocupava-se do assunto e recomendava o capacete de sola, tipo inglês, para o serviço de incêndios, justificando que “resguarda perfeitamente a cabeça, cara e pescoço; é suficientemente leve reunindo ao mesmo tempo a precisa solidez”.

Em contrapartida, desaconselhava o uso do capacete de metal, tipo francês, dando conta das respectivas desvantagens: “(…) tem o inconveniente de ser muito mais pesado e o de deteriorar-se mais promptamente, accrescendo ainda a circumstancia de ser mais difficil a limpeza”.

Ao tempo, em Portugal, o capacete de metal merecia a preferência dos responsáveis pelos Corpos de Bombeiros. A este facto não ficou indiferente o mesmo jornal, que aproveitou as suas colunas para tecer duras críticas, em nome da protecção individual do bombeiro, da qual era acérrimo defensor.

“Nós, pela nossa parte, somos apologistas do capacete de sola pelas razões que já por mais do que uma vez temos apresentado n'este periodico e não podemos deixar de lastimar que agora se comece entre nós a dar preferência ao capacete de metal, preferência esta que só podemos attribuir á fascinação que necessariamente deve produzir nos espiritos fracos, o brilho do dourado metal, fazendo-lhes suppôr que ficam valendo mais aos olhos do publico que os admira, mas que, diga-se de passagem, não está n'estes casos á altura de os comprehender. Não é o traje que faz o bombeiro – são os seus actos”, ventilou “O Bombeiro Portuguez”.

Curiosamente, passados 72 anos sobre a publicação de tão acutilante reparo, ou seja, em 1953, tudo parecia estar na mesma, pois o “Boletim da Liga dos Bombeiros Portugueses” chamava a atenção para os perigos subjacentes ao capacete de metal, adoptado pela “maior parte dos bombeiros das Corporações de voluntários”:

“Quando se começaram a usar estes capacetes o emprego da electricidade não estava tão generalizado como actualmente. Julgamos, por isso, que se deverá pensar em substituir estes capacetes por outros de material que não seja condutor de electricidade e que possa resistir ao calor e suportar o choque de qualquer objecto pesado que lhe caia”.

Tanto o capacete de latão como o de sola (este último também chegou a ser fabricado em poliester), hoje apenas visíveis por ocasiões festivas e solenes, foram utilizados pelos Corpos de Bombeiros até aos anos 80 do século passado, altura em que passou a generalizar-se o capacete com viseira, tipo americano.

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico

PUB