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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quinta-feira,

17/08/2017

16:20

INCÊNDIOS FLORESTAIS

04/07/2017 15:58:03

Soluções pensadas há 50 anos para a prevenção e combate

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Pesquisa e texto: Luís Miguel Baptista

 

A ocorrência de incêndios florestais de proporções e consequências alarmantes é um facto que faz história entre os bombeiros portugueses há 50 anos.

O primeiro grande sinistro do género, gerador da mudança de paradigma, ocorreu entre 6 e 12 de Setembro de 1966. Referimo-nos ao grande incêndio na Serra de Sintra, onde perderam a vida, no combate às chamas, 25 militares do Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa. Até à altura não havia deflagrado, no país, um incêndio de efeitos tão devastadores, justificando a intervenção de mais de quatro mil homens, entre bombeiros, militares e paramilitares. A área ardida foi avaliada em 50 quilómetros quadrados, tendo a investigação da Polícia Judiciária apurado que o incêndio se ficou a dever a um simples descuido.

hist1.jpgPosteriormente, o impacto da tragédia motivou a reflexão no seio dos bombeiros portugueses. Dedicaram-se ao estudo da situação, sob o impulso do inspector de incêndios da Zona Sul, coronel Rogério de Campos Cansado, considerando aspectos organizativos aos níveis da prevenção e do combate, dois prestigiados e visionários comandantes: Mário Ferreira Lage, dos Bombeiros Voluntários de S. Pedro de Sintra, e João Maria de Magalhães Ferraz, dos Bombeiros Voluntários de Algueirão-Mem Martins. Convertido em tese, o mesmo estudo veio a ser apresentado no XVIII Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, reunido em Lisboa de 16 a 20 de Outubro de 1968. Tratou-se de uma abordagem pioneira sobre a problemática dos incêndios florestais, privilegiando um sistema integrado multidisciplinar. Ao longo dos anos, seguiram-se muitas outras importantes reflexões, podendo-se concluir, histórica e factualmente, que os bombeiros portugueses configuram, sem dúvida, a entidade que, entre nós, mais tem pugnado pela defesa da floresta, lançando sucessivos alertas, afirmando e demonstrando, por exemplo, vezes sem conta, com sustentação, que os incêndios não se combatem, evitam-se.

A propósito da catástrofe de Pedrógão Grande, cujos prejuízos humanos e materiais ultrapassaram os efeitos do incêndio na Serra Sintra, recuperamos, a título de curiosidade, porque actuais nos seus principais basilares, algumas das mais significativas soluções avançadas pelos comandantes Mário Ferreira Lage e João Maria de Magalhães Ferraz, na sua tese “Defesa contra incêndios nos bosques, parques florestais, matos e matas”, publicada no "Boletim da Liga dos Bombeiros Portugueses":


Prevenção


Rondas de guardas florestais, para vigilância e detecção, em viaturas ou de outro modo com rádio-telefones ligados a uma central;

Telefones em diversos pontos do circuito, devidamente sinalizados quer de noite quer de dia;

Meios de alarme, sirenes, semáforos projectores, etc.;

Redes de recursos de água, tais como cisternas, ribeiros, poços, condutas, açudes, e canalizações com bocas de incêndio de 70 mm;

Abertura de estradas para fácil acesso de viaturas, caminhos para acesso de pessoal, etc.;

Cooperação de todos no ataque ao incêndio, na prevenção sendo esta parte a principal;

Uma das bases principais numa floresta, bosques ou matas é haver TORRES DE VIGILÂNCIA, com um guarda permanente e ligadas por meio de rádio-telefones, tendo um mapa da região (igual ao existente em todos os corpos de bombeiros);

É necessário fazer-se um regulamento de protecção contra o fogo, aliado a uma campanha persistente na rádio e na televisão, com conferências, filmes, etc.;

Colocar em lugares visíveis cartazes de propaganda, com indicações;

Proibição de fumar, deitar fósforos para o chão, etc.;

Proibir terminantemente de fazer lume nas bermas das estradas, dentro das matas e das zonas florestais;

Verificação do uso de chaminés de lenha dentro das florestas e matas;

Obrigação de manter as zonas florestais limpas de matos e árvores secas, etc.;

Na ocasião de perigo latente, pôr de alerta os bombeiros e brigadas de socorro;

Montar com urgência ligações telefónicas com cabo subterrâneo, rádio-telefones, etc.;

Colocar em activa vigilância não só a guarda florestal mas as forças do Exército, da Guarda Nacional Republicana e aviação, por meios de carros-patrulha, «jeeps», etc..


Meios de combate


Pessoal:

Deve existir uma colaboração entre os bombeiros e os Serviços Florestais, assim como com as Forças Policiais, de forma a actuar-se contra aqueles que provoquem os incêndios;

Devem também treinar-se todos os utentes dos locais na luta contra o fogo;

Deve existir uma coordenação de esforços entre os Corpos de Bombeiros e os Serviços Florestais, podendo estes fornecer material e directrizes na luta contra o fogo.

Como se verifica normalmente que os fogos são, na sua maioria, provocados por negligência, imprevidência e malvadez, devia haver uma fiscalização rigorosa e as necessárias sanções.

Assim, os Serviços Florestais deviam contar com:

Serviços de postos de vigilância;

Serviços diversos de observação climática;

Serviço permanente de escuta;

Agentes de ligação;

Serviços permanentes nas Administrações Florestais, com especialidade na luta contra o fogo;

Telefones em todas as casas dos guardas florestais, postos diversos devidamente assinalados, nas residências, devendo ser por meio de cabo subterrâneo;

Centros de socorro;

Equipas de intervenção rápida, brigadas de choque com equipas devidamente treinadas e bem equipadas;

Quartéis de bombeiros;

Encarregados de recrutamento de pessoal auxiliar;

Apoio aéreo;

Ajuda rápida das forças do Exército, quando pedidas pelos comandos dos bombeiros.

Armazéns de ferramentas:

Devem existir:

Enxadas, machados e machadinhas, catanas, gadanhos, ancinhos, picaretas, croques, forquilhas, desforradeiras, batedores de diversos tipos, foices, máquinas de ceifar, megafones, moto-serras, lanternas, bombinhas portáteis, capacetes de protecção, baldes, regadores, pulverizadores, etc. e ainda telefones ligados à rede da Companhia.

Os corpos de bombeiros deviam ter:

Camiões de todo o terreno com depósitos de água entre 2.000 e 3.000 litros, com bombas acopladas ao tanque, podendo ser mesmo de trabalhar a petróleo, com saída de 50 mm;

1 rádio-telefone, batedores, pás, enxadas, machados, foices, moto-serras de disco e de cadeia, 2 postos de rádio portáteis, megafones, bombas portáteis, megafones, bombas portáteis de mochila, lanternas eléctricas, capacetes de protecção para brigadas auxiliares, 1 balão de lona para 500 a 1000 litros de água, 1 auto-pronto-socorro de todo o terreno, com bomba para duas saídas de 70 mm e com pequeno tanque, 1 auto-tanque de apoio para 5000 litros, 1 camioneta para transporte de pessoal, 1 auto-comando de todo o terreno, com posto emissor receptor, com cartas topográficas e servindo de transporte de pessoal.

Além disto, o material orgânico dos bombeiros urbanos, podendo ter tractores, etc..

Isto que se apresenta é aquilo que se julga mais necessário para os fogos de bosques, matos, matas e florestas nas nossas zonas de acção, mas para isso é necessário o auxílio do Estado, porque não podem arcar os bombeiros com total despesa, visto que já fazemos um enorme sacrifício com a manutenção dos serviços actuais.

 

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico

 

 

 

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