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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

23/10/2017

07:19

GUILHERME DE CARVALHO

07/02/2017 17:04:04


Memórias sobre um bombeiro e jornalista

1nh.jpgA peça histórica que é motivo de destaque na presente edição do”BP” corresponde a uma das mais recentes acções de recuperação e conservação levadas a efeito pelo Núcleo de História e Património Museológico (NHPM), da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP).

Depois de vários anos se ter encontrado num adiantado estado de degradação, o capacete que apresentamos está, de novo e na medida do possível, limpo e luzidio, conforme é recomendável.

Foi oferecido à LBP, em 4 de Julho de 1970, por Guilherme de Carvalho (1898-1972), seu proprietário, comandante honorário dos Bombeiros Voluntários da Cruz de Malta (Lisboa), de Vila do Conde e de Barcelos.

Usado pelo ofertante, durante 40 anos, quando fez parte dos Bombeiros Voluntários Portuenses, estamos na presença de um dos mais elegantes modelos de capacete adoptados outrora pelos bombeiros portugueses.

2nh.jpgCuriosamente, este equipamento de protecção abre caminho a outras curiosidades históricas relacionadas com Guilherme de Carvalho, personalidade da qual a Confederação recebeu outros significativos documentos que se encontram à guarda do NHPM.

Jornalista de profissão desde 1927 iniciou a actividade em “O Século”. Posteriormente, ingressou no “Diário de Lisboa, como redactor. Chefiou a delegação do Porto do mesmo periódico até 1968, ano da passagem à situação de reforma.

Condecorado com as Ordens de Cristo e de Benemerência, entre outras insígnias, por relevantíssimos serviços prestados, em 1941, durante a II Guerra Mundial, visitou a Inglaterra, mediante convite da Bristish Council, para estudar o sistema de defesa passiva implementado naquele país, apresentando um relatório considerado “notável, a todos os títulos”. Em razão disso não é de estranhar que tenha sabido conciliar a actividade de jornalista com a de bombeiro. Entre outras participações e colaborações, nos últimos anos de vida, foi proprietário, director e editor do “Jornal dos Bombeiros”, órgão da Velha Guarda dos Bombeiros da Cidade do Porto.

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“Jornalista da velha escola, espírito leal, amigo do seu amigo, camarada dos melhores, simples e afável”. Assim foi descrita, no “Jornal dos Bombeiros”, a personalidade de Guilherme de Carvalho, quando do seu falecimento, adiantando ainda a mesma publicação: “(…) serviu dedicada e desinteressadamente o Voluntariado, em manifestação inequívoca do seu alto espírito de humanitarismo”.

Aliás, tais predicados são bem sintomáticos na sua escrita e nas temática dos seus artigos, transparecendo, como alguém escreveu, “o amigo dedicado, o lutador generoso, o guia precioso e o estrénuo defensor desta nobre causa que ele serviu com entranhada devoção e abnegado espírito de sacrifício”.

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De realçar ainda, sobre Guilherme de Carvalho, que com apenas 16 anos de idade se alistou na Cruz Vermelha Portuguesa. Ao serviço desta prestou arriscados serviços de socorro, nomeadamente, aquando da contra-revolução ocorrida na cidade do Porto, em 19 de Janeiro de 1919, conhecida por Monarquia do Norte. 

Convicto republicano, manteve, tanto quanto julgamos saber, ligação à Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.


“Jornal dos Bombeiros”

5nh.jpgO “Jornal dos Bombeiros”, cujo título nada tem a ver com um outro igual existente anteriormente, propriedade de Júlio Alexandre da Silva, publicou-se, pela primeira vez, no ano de 1950. Sabemos que as entidades oficiais não se manifestaram interessadas neste periódico, criando dificuldades à sua legalização.

Esteve suspenso em diferentes momentos, devido, principalmente, a constrangimentos de ordem financeira.

Surgiu, de novo, em 1969, como órgão da “Velha Guarda dos Bombeiros da Cidade do Porto”, estrutura entretanto fundada a 1 de Dezembro daquele ano, congregando sapadores e voluntários, resultante da iniciativa de Adalberto Meneses Leitão, Manuel Maia, Feliciano Vasconcelos e Fernando Cabral Borges.

“Dignificar, cada vez mais, a nossa humanitária causa” foi propósito do “Jornal dos Bombeiros” e também da “Velha Guarda”, sobressaindo no cabeçalho do primeiro a expressão “Pelo Bem da Pátria e da Humanidade”.

De fácil leitura, o “Jornal dos Bombeiros” compreendia notícias de actualidade, curiosidades, artigos de opinião e crítica, esta, de resto, sempre numa perspectiva construtiva, não obstante, por vezes, revestida de certa dureza, no âmbito da qual a própria acção da Liga dos Bombeiros Portugueses e os resultados dos seus Congressos chegaram a não passar imunes.Com periodicidade mensal e distribuição gratuita, o referido jornal estava sujeito à censura, apelidada de “exame prévio”, nos termos da lei de imprensa vigente. Tinha colaboração de algumas firmas comerciais, a propósito do que fazia sempre constar no rodapé da primeira página: “Os nossos anunciantes merecem a preferência dos nossos Leitores”.

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“São numerosas e de várias origens as notícias até nós chegadas sobre a expansão do nosso jornal, que francamente nos agradam, pois nos compensam bem do nosso trabalho, que se não é materialmente rendoso, é pelo menos moralmente compensador”, congratulava-se aquele periódico numa das suas edições.

Sucedeu a Guilherme de Carvalho, na direcção de “O Jornal dos Bombeiros”, em virtude do seu falecimento, após novo período de suspensão, o prestigiado jornalista e escritor portuense Hugo Rocha (1907-1993), de “O Comércio do Porto”.

O jornal existiu até o início dos anos 80 do século passado, sofrendo ao longo dos tempos naturais alterações mas sem nunca se distanciar da linha de rumo que presidiu à sua criação.

 

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico


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