PUB

Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

23/10/2017

07:19

DO ALMANAQUE PARA 1904

30/12/2016 15:38:35


A importância do reconhecimento… a Escola do Bombeiro


Texto/Pesquisa: Luís Miguel Baptista


INTRODUÇÃO

NH1.jpgLonge vão os tempos em que a chegada do novo ano era anunciada especialmente através do almanaque ilustrado “O Bombeiro”, publicação semelhante ao histórico e ainda existente “Borda d’Água”.

Segundo uma das definições do seu significado etimológico, almanaque corresponde à “designação de uma publicação de periodicidade anual, que contém calendário, curiosidades e dados científicos, inscrições de aniversários, listas e pequenos escritos jocosos ou de entretenimento.”

O bombeiro Oliveira Cruz, dos Voluntários da Ajuda, foi quem se dedicou, durante mais de dez anos, à direcção do “nosso” almanaque.

O primeiro número de “O Bombeiro” verificou-se no ano de 1885, numa época de grande proliferação, em Portugal, de almanaques, reunindo estes “um tipo de verdades reconhecidas por determinados grupos como universais e essenciais”.

Sobre a utilidade dos almanaques, escreveu Eça de Queiroz: “O almanaque, com efeito, é o livro disciplinar que coloca os marcos, traça as linhas dentro das quais circula com precisão toda a nossa vida social. (…) Só com o almanaque sempre presente e sempre vigilante, pode existir regularidade na vida individual e colectiva; e sem ele, como uma feira, quando se abatem as barreiras e se recolhem as cordas divisórias, o que era uma sociedade seria apenas uma horda e o que era um cidadão seria apenas um trambolho.”

Nas palavras do grande romancista português parece ter-se inspirado, sempre, Oliveira Cruz, em virtude dos conteúdos compilados para “O Bombeiro”, do qual o Núcleo de História e Património Museológico da Liga dos Bombeiros Portugueses (NHPM/LBP) conserva exemplares das edições dos anos de 1895 e de 1904. De resto, é das páginas da segunda edição atrás referida que transcrevemos dois documentos históricos, versando curiosas concepções: a visão de Guilherme Gomes Fernandes acerca da extinção de incêndios; e o programa (incompleto) da Escola do Bombeiro.

As imagens que seleccionámos para ilustrar este nosso apontamento, pertencentes, também, ao NHPM/LBP, complementam pedagogicamente ambos os documentos, contextualizando o período temporal em apreço, que ficou marcado pela expansão dos corpos de bombeiros e por notáveis avanços de pendor organizativo e técnico-operacional.


EXTINCÇÃO D’INCENDIOS

 

NH3.jpgO fim principal de quem combate um incêndio deve ser o circumscrevel-o ao menor espaço possivel ainda dentro d’esse espaço reduzir os prejuízos ao mínimo. Par isso se se conseguir tem cada um de guiar-se pela pratica adquerida em outros fogos, pelo seu critério e segundo circumstancias especiaes, sendo condição sine qua non, o máximo sangue frio. Os nervosos e os que se deixam pela febre do enthusiasmo nunca podem ser bons bombeiros.

O maior ou menor desenvolvimento que os incendios tomam depende quasi sempre da forma como foram ou poderam ser combatidos no começo. E esse combate nunca póde ser bem dirigido sem que previamente se faça um reconhecimento em fórma para se descobrir o verdadeiro foco do incendio e onde teve origem, qual a sua violencia, a direcção provavel da sua marcha e o genero das materiais combustiveis que o alimentam e a inflammabilidade do que lhe fica proximo e o póde fortalecer.

E’ necessario seguir-se a mesma tactica que na guerra – antes de dar batalha procede-se ao reconhecimento das forças do inimigo, ás suas posições, etc., para n’essa conformidade se dispôr o ataque e assegurar melhor a victoria; e assim, tambem, na lucta contra o fogo.

Ninguem póde conformar-se com a ideia de vêr fechados os seus haveres n’uma casa que arde; mas é necessario que isso se faça emquanto se não effectuou o reconhecimento e os soccorros não estão a postos para o ataque.

A exclusão do ar retarda o desenvolvimento das chammas e o contrario é fazel-as alastrar e robustecer por fórma que depois são infructiferos os maiores esforços para as conter. E quantas e quantas vezes a leviandade de se tentar salvar meia duzia de cadeiras ou objectos de insignificante valor, não tem dado margem a enormes perdas!

Exceptua-se, sem duvida, d’esta regra geral a salvação de pessoas, cuja vida corra risco eminente ou a salvação de objectos d’arte insubstituiveis ou cujo valor exceda o dos restantes ou da propriedade, ou quando haja documentos, ou papeis de superior importância.

Guilherme Gomes Fernandes

 

ESCOLA DO BOMBEIRO


Programma


A instrução tactica do bombeiro comprehende:

NH2.jpg

Escola de passo, Exercícios gymnasticos – Signaes e toques de apitos – Nomenclatura de material d’incendios – Manobras com bombas – Idem com apparelhos de salvação – Casa de fumo – Telephones – Algumas noções sobre construção civil – Telephones – Algumas noções sobre construcção de predios – Extincção de incêndios.


I - Escola de passo


Formação da esquadra – Das posições em sentido e descanso – Das continencias – Olhar para qualquer dos flancos – Das voltas – Das marchas – Das voltas em marcha – Dos alinhamentos – Da marcha directa – Da marcha obliqua – Marcha de costado – Diminuição e augmento de frente na formação de costado – Mudanças de frente – Mudanças de direcção – Formação para os flancos – Na marcha de costado – das ordens aberta e cerrada – Destroçar e reunir – Ajoelhar e levantar.


II - Exercicios gymnasticos


Exercicios livres – Exercicios em paralellas – Idem em torniquete – Subidas em corda lisa, de nós e vara – Equilibrios e passagem sobre vigas – Saltos – Escada horizontal – Exercicios com halteres – Idem nas argolas, escaladas no portico com auxilio dos dedos.


III - Signaes e toques de apito (1)


Posição do apito – Tabella dos signaes d’apito – Disposições geraes. 


IV - Nomenclatura do material d’incendios (2) 

V - Manobras com bombas


Evoluções com a bomba montada. Montar e desmontar bombas, por tempos e para trabalho – Estabelecimento de mangueiras – Utilisação de boccas d’agua – Idem de tanques de lôna – Reparação das bombas no local do incendio.


V - Manobras com escadas


Armar e desarmar escada de ganchos – Subir e descer pela mesma – Arvoragem com escadas de lanços – Idem com escada «Magirus» – Subir e descer por estas escadas – Armar, subir e desarmar, pela escada Espinha.


VII - Manobras com apparelhos de salvação


Montagem da manga de salvação – Descer por dentro e por fora – Dobrar e guardar malote – Salvamento pelo descençor – Idem pelo nó de cadeira e outros – Idem ás costas dos bombeiros pelas diversas escadas.


VIII - Casa de fumo


Respiradores e sua utilidade – Forma de entrar em uma casa cheia de fumo – Precauções a tomar.


IX - Apparelhos telephonicos


O que é o telephone – Signaes convencionaes – Precauções.


X - Algumas noções sobre construcção de predios


Cabouco – Paredes – Vigamento – Soalho – Forro – Madeiramento – Asna – Fileira – Madres – Frexal – Varedo – Guarda pó – Coberturas – Hombreiras – Verga – Peitoril – Soleira – Cunhal – Socco – Algeroz – Cimalha – Escada – Patim – Pernas – Bandeira – Caixilhos das janellas – Cortina – Parapeito – Abobadas – Pé direito – Pilar – Imposta.


(1) A 4.ª parte será explicada pelo instructor durante os exercícios.

(2) Esta parte será ensinada, durante a 5.ª, 6.ª e 7.ª parte deste manual.

 

Nota: Por suposta falta de espaço, a parte correspondente à extinção de incêndios, transitou para o almanaque do ano de 1905.


Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico

PUB