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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

terça-feira,

12/12/2017

21:46

De 25 para 26 de Novembro de 1967

05/12/2017 11:33:27

“Os bombeiros não fraquejaram um só momento”


Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista

Na noite de 25 para 26 de Novembro de 1967, os bombeiros da Grande Lisboa viveram horas amargas durante as graves inundações que assolaram o território e foram protagonistas de actos de heroísmo no salvamento de vidas e bens.

Na ocasião, todos os bombeiros e todas as viaturas disponíveis pareceram ser insuficientes para dar resposta aos inúmeros pedidos de auxílio, provenientes de populações em perigo. Como se não bastassem os estragos em habitações e noutros espaços de primordial importância, houve quartéis de bombeiros que de igual modo sofreram prejuízos, devido à complexidade da sua localização geográfica. Também muito material ficou danificado, enquanto outro foi perdido na enxurrada. Todavia, a perda mais irreparável teve a ver com a morte de três voluntários envolvidos nas operações de socorro, vítimas da sua coragem e abnegação:

José António Lourenço Venâncio, cadete dos Bombeiros Voluntários de Bucelas (encontrado em 15 de Janeiro de 1968); José Rosa Serra, aspirante dos Bombeiros Voluntários de Bucelas (encontrado no dia 22 de Dezembro de 1967); e José Carlos Ramos Basílio, cadete dos Bombeiros Voluntários de Alverca (encontrado em 28 de Novembro de 1967).

lll.jpgO rasto de destruição deixado pela chuva torrencial, que tudo inundou na sua passagem – por falta de condições de escoamento dos solos, em resultado de vicissitudes da ocupação urbana – converteu a região de Lisboa num cenário impressionante. Por todo o lado havia lama, lares desfeitos, carros arrastados e muitos mortos, cujo número apurado parece ter ultrapassado os 400, contrariamente ao noticiado pela imprensa, sob pressão da censura.

O concelho de Loures foi um dos mais atingidos, nomeadamente nas zonas degradadas da ribeira de Odivelas e do rio Trancão.

Um dos testemunhos mais preciosos sobre o assunto está vertido no relatório de ocorrência das inundações, da responsabilidade do então comandante dos Bombeiros Voluntários de Odivelas (BVO), Fernando de Oliveira Aleixo, o qual não só dá ideia da dimensão da tragédia como revela as dificuldades e as condições macabras em que se processou a intervenção das equipas de resgate, situação transversal a outras regiões atingidas. Os salvamentos foram efectuados pelos bombeiros com risco da própria vida, inclusive “a nado e às escuras” e “por meio de espia”, sendo louvados, colectivamente, pela entidade tutelar, o Conselho Nacional dos Serviços de Incêndios, que ao reconhecer o “zelo, dedicação e espírito de sacrifício” considerou, ainda, terem os mesmos contribuído para “reduzir as consequências do temporal”.

“Às 23,40 estava consumada a grande catástrofe com todas as estradas cortadas para Odivelas, e centenas de pessoas a gritar pedindo para as salvar”, refere o relatório dos BVO, que também dá conta, entre outros pormenores, do facto de os bombeiros terem salvo “25 pessoas entre adultos e crianças com o auxilio de escadas de molas e de cima do telhado dum prédio de 1.º andar e cerca de 25 pessoas de cima de barracas e árvores”.

Durante “a noite que a chuva matou” – título adoptado por “O Século Ilustrado” para a capa da sua edição de 2 de Dezembro de 1967 – o quartel dos “soldados da paz” viu-se convertido num enorme corrupio, devido à inexistência de infraestruturas seguras.

“Às 0,40 horas começou a chegar ao meu Quartel os salvados, quase todos em trajos menores, os quais em principio começaram a ser vestidos com roupas dos nossos voluntários e a quem foram prestados os primeiros socorros”, descreve o comandante Fernando Aleixo, adiantando: “Às 4,00 horas da madrugada do dia 26, começaram a chegar cadáveres de homens, mulheres e crianças, que ficaram depositados no nosso Quartel”, que “por não terem para onde ir, estas pessoas ficaram alojadas na nossa camarata e em macas no parque de viaturas, onde se fez uma divisão entre os vivos e os mortos.”


“Humanidade sem limites”

 

A solidariedade dos bombeiros foi ainda extensível ao fornecimento de refeições à população afectada, tarefa garantida por elementos do Corpo Auxiliar Feminino, que para o efeito improvisaram uma cozinha nas instalações do quartel.


kkkk.jpg“No dia 26 com receio de epidemia motivada pela permanência dos cadáveres dentro do Quartel, pedi aos Serviços da Assistência para junto da Direcção Geral de Saúde providenciarem as medidas de segurança, o que foi prontamente atendido, tendo no dia 27 a Direcção Geral de Saúde enviado pessoal e material que no nosso Quartel começaram a dar as vacinas”, regista o comandante dos BVO, no relatório de ocorrência das inundações.

Entre os corpos de bombeiros que nos dias subsequentes à tragédia acorreram em auxílio dos Voluntários de Odivelas, apoiando na remoção de terras, viaturas, animais mortos e pesquisas de sinistrados, estiveram os Lisbonenses, reforçando estes os primeiros, entre os dias 1 e 4 de Dezembro, com 20 homens e procedido à vacinação da população, disponibilizando o seu Posto de Socorros Móvel.

Conforme veio a ser escrito no “Boletim da Liga dos Bombeiros Portugueses”, “os bombeiros não fraquejaram um só momento. Obraram prodígios e foram, acima de tudo, duma humanidade sem limites”.

 
Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:
www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico 

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