A Federação dos Bombeiros Portugueses
04/11/2019 15:51:10
Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista
Com alguma frequência, tende-se a confundir a existência da
Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) como uma continuidade da extinta Federação
dos Bombeiros Portugueses (FBP). Nada mais incorrecto, pois estamos na presença
de organizações distintas, com trajectórias completamente diferenciadas.


A FBP foi fundada a 17 de Abril de 1904, em homenagem ao
saudoso Inspector Guilherme Gomes Fernandes que, por ocasião do I Congresso dos
Bombeiros Portugueses, reunido no Porto, de 28 de Junho a 1 de Julho de 1889, se
batera pela criação da Liga Fraternal de Bombeiros (LFB).
Apesar de definidos os seus fins sociais, a LFB não conheceu
sucesso, designadamente, por dificuldades logísticas, o que impediu o
desenvolvimento de toda e qualquer acção pelos membros indicados para a
respectiva comissão organizadora.


Deveu-se, sobretudo, ao impulso do Comandante Júlio
Alexandre da Silva, dos Bombeiros Voluntários de Linda-a-Pastora, personalidade
complexa também ligada à organização do Congresso do Porto, a fundação, no
limiar do século XX, da novel Federação dos Bombeiros Portugueses.
“Alguns comandos superiores de corporações de bombeiros
reconhecendo a imperiosa e absoluta necessidade que ha em federarem as suas
corporações para melhor poderem desenvolver e aperfeiçoar os serviços de
salvação publica por meio de conferencias, congressos, concursos, e prestar
socorros mútuos ao pessoal que os desempenha, por meio de uma Caixa Geral de
subsídios pecuniários e pensões vitalicias, que ponha ao abrigo da miseria as
victimas do dever, suas viúvas e orphãos, resolveram instituir a Federação dos
Bombeiros Portuguezes”, lê-se no preâmbulo das disposições regulamentares da
FBP, que teve como corporações fundadoras as sediadas nas seguintes localidades:
Covilhã, Guarda, Braga, Vila Franca de Xira, Algés, Oeiras, Figueira da Foz,
Mirandela, Paredes, Viseu, Cascais, Chaves, Coimbra, Arruda dos Vinhos, Vila
Real de Santo António, Sintra, Paço de Arcos, Póvoa de Varzim, Leiria, Vila
Real, Portalegre, Felgueiras, Marinha Grande, Alhandra, Barcarena, Moçamedes,
Lourenço Marques, Torres Vedras, Dafundo, Fundão, Sesimbra, Cidade da Praia e
Luanda.
Prematuramente, a instituição viveu momentos de instabilidade,
permanecendo inactiva durante longo tempo. Funcionou, apenas, nos períodos de 1904-1905,
1923-1926 e 1927-1928.
Apesar das meritórias intenções dos seus dirigentes e
delegados provinciais, quer na metrópole, quer nas colónias, não são conhecidos
benefícios que tenham marcado especialmente os bombeiros portugueses, decorrentes
da intervenção da Federação, exceptuando a realização de eventos e a edição de
publicações de pendor técnico e informativo, dimensionadas à rudimentaridade da
época, entre as quais o “Jornal dos Bombeiros”.
Reactivada em 23 de Março de 1924, através de novos
protagonistas, voltou a ser atingida por uma atribulada fase, caracterizada por
movimentos de protesto, alegando-se a incapacidade dos seus responsáveis. Sujeita
a nova tentativa de normalização da vida interna, no dia 10 de Abril de 1927, por
via da eleição de uma Comissão Administrativa presidida pelo Comandante Júlio
Alexandre da Silva, não obteve, definitivamente, êxito. De resto, os problemas aumentaram
de nível, com incidências muito negativas, envolvendo a detecção de graves irregularidades
financeiras, o que obrigou à intervenção das autoridades competentes. Desde
então, não há registo de qualquer acção da FBP, exceptuando o conhecimento do
curioso facto de que a mesma nunca teve existência legal, conforme documento
emitido pelo Governo Civil de Lisboa, datado de 22 de Novembro de 1928.
Da análise feita aos períodos em que se manteve activa, somos
levados a concluir que a Federação dos Bombeiros Portugueses configura, em bom
rigor, um nebuloso fragmento da gloriosa história dos bombeiros portugueses. 
Em 1933, já a LBP tinha sido audazmente fundada no Congresso
do Estoril e legalizada por portaria do Ministério do Interior, o Comandante
Júlio Alexandre Silva, figura centralizadora da FBP, manifestava, com alguma
violência verbal, nas páginas do “Jornal dos Bombeiros”, o seu inconformismo em
relação ao fim da mesma. Parecia isolado e esquecido pelos seus antigos pares,
não se revendo, em absoluto, no projecto liderado pela Liga. Se, porventura, um
dos valores acrescentados da história reside em aprender com o passado, a curta
e perturbada vigência da Federação dos Bombeiros Portugueses ensina-nos que
nada na vida é definitivo e que há sempre uma solução para cada problema.
Site do NHPM da LBP; www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico
Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia