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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

24/06/2019

16:24

Será pedir muito?

05/02/2019 15:58:20


jornal03.jpgNum destes dias, da assídua e imprescindível leitura da imprensa ficou-nos o desabafo de um bombeiro que integrou o dispositivo de busca ao surfista que foi dado como desaparecido na Costa da Caparica, mas que afinal, sem grandes explicações, acabou por regressar a casa, não sem antes mobilizar meios – leia-se retira-los de outros teatros de operações onde de facto poderiam fazer a diferença -  e dar trabalho vários operacionais.

Nas redes sociais o bombeiro, que o Jornal de Notícias (JN) não identifica, lamenta ter abdicado de parte das folgas e ainda mais por “ter deixado em casa um familiar doente e a necessitar de ajuda”.

Esta situação não é nova, vem aliás na linha de outras, igualmente inquietantes, como o elevado número de chamadas falsas para o 112 quase sempre sem consequências para os irresponsáveis, criminosos, que retiram algum tipo de diversão em ocupar meios que podem fazer toda a diferença no salvamento de uma ou mais vidas. Por ser raro, há poucos dias, a imprensa, dava, relevo ao facto de a Guarda Nacional Republicana ter identificado e apreendido o telemóvel de um jovem que, alegadamente, na noite de 24 de dezembro terá ligado para o número nacional de emergência dando conta de um acidente na Póvoa do Lanhoso, do qual assegurou existirem quatro vítimas encarceradas, o que obrigou a mobilizar para o local cinco viaturas e perto de 40 operacionais. Resta saber se este caso servirá para fazer jurisprudência ou se estas “brincadeiras” continuarão a não passar disso mesmo.

Também, recentemente, no decorrer de uma visita de trabalho a um quartel do distrito de Braga, o comandante acrescentava a estas questões, uma outra, a da ideia generalizada de que os bombeiros são “pau para toda a obra”, que têm a obrigação de atender e corresponder a todas as solicitações, sem que a comunidade tenha real noção das dificuldades em responder a todas as ocorrências, em acrescentar prontidão ao socorro. Contava-nos esse responsável operacional que “num dia complicado” em que todos os meios pareciam poucos para fazer face a inúmeros pedidos, chegou ainda ao quartel um alerta para a presença de um pato num telhado e, por isso, era pedida a ajuda dos bombeiros para colocar o animal em local mais seguro. O bombeiro que estava na central de comunicações tentou explicar à senhora que denunciou o caso, que a ave teria forma de sair do inusitado poiso sem qualquer apoio, mas insistência acabou por obrigar a mobilizar meios para local e o desfecho foi óbvio: o pato sentiu-se incomodado com o aparato e voou para paragens mais tranquilas.

O episódio, que parece caricato, não será assim tão raro. Na realidade, a estreita ligação entre os bombeiros e as populações acaba por potenciar situações desta natureza, que trazem dificuldades acrescidas à gestão dos recursos, que terá de ser, forçosamente, rigorosa… criteriosa.

Por uma questão de respeito exigia-se, apenas, que a sociedade respeitasse a complicada missão destas mulheres e destes homens que escolheram servir, na grande maioria dos casos, como voluntários. Será pedir muito?

 

 

Sofia Ribeiro

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