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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

23/10/2017

07:16

Inevitabilidade sina ou fado

04/09/2017 10:59:17

Inevitabilidade sina ou fado

 

Nestes últimos dias, quando as chamas davam tréguas aos bombeiros reacendeu-se o fogo de mais uma polémica, desta vez ateado pela qualidade, apresentação e quantidade das refeições servidas às mulheres e aos homens que combatem os incêndios florestais, aos operacionais que no terreno travam as mais duras das batalhas servindo de forma exemplar a Pátria, sem que isso seja devidamente reconhecido.

As inqualificáveis imagens que circularam nas redes sociais denotam a maior das ingratidões e uma total falta de vergonha, de princípios e de decência, que nada pode justificar, nem mesmo os inquéritos da praxe que quase sempre dão em nada.

Importa esclarecer que o pagamento das despesas com a alimentação dos bombeiros estão consignadas na diretiva operacional que sustenta o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios que estabelece uma verba diária de 21, 2 euros para cada um dos operacionais destinada a custear duas refeições (almoço e jantar), pequeno-almoço, lanche e dois reforços. 

Não é certamente a falta de recursos financeiros que pode justificar o injustificável e, ainda que existissem constrangimentos dessa ordem, nada, mesmo nada, serve de atenuante a quem ousa chamar lanche ou mesmo reforço a um pão seco ou considerar refeição uma aguadilha de feijão com milho. O que afronta não é a total incapacidade de reação e de intervenção em situações de calamidade ou uma óbvia incompetência, mas sim a desfaçatez com que confunde uma obrigação com caridadezinha, com que muitos, nestas como noutras situações, lavam consciências.

Depois da denúncia nas redes sociais a tutela apressou-se a abrir mais um inquérito voltando e a exigir explicações, em suma a correr atrás do prejuízo, quando na verdade também não está isenta de responsabilidades, até porque o episódio de Oleiros não é único ou isolado.

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Num ano marcado pela tragédia e por muitos “casos” mais ou menos graves, impõe-se mais do que a tal reflexão ampla, séria e profunda, medidas que permitam de uma vez por todas solucionar questões pendentes e muito antigas e que, invariavelmente, todos os verões, voltam à atualidade, assim ao jeito de inevitabilidade, sina ou fado.

Quando quase tudo parece ter falhado, resta a certeza que as mulheres e homens que semanas a fio, um pouco por todo o País, travaram as mais duras das batalhas, deram o seu melhor, arriscaram as suas vidas, deixaram o conforto e a tranquilidade do lar e da família para abraçar uma missão patriótica. Os bombeiros não procuram louvores, mas ainda assim não queira Portugal que troquem a dignidade por um prato de lentilhas.

 

Sofia Ribeiro

 

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