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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

22/10/2018

12:36

Crítica fácil e o exacerbado direito à indignação

09/10/2018 11:04:05

Comunicar é preciso, sem dúvida, e até o setor dos bombeiros, até há uns anos avesso à notoriedade, rendeu-se à necessidade de interagir com o exterior, porque na verdade tornou-se fundamental dar a conhecer o trabalho desenvolvido dentro e fora dos quartéis, e que inclui não apenas a atividade operacional, mas, também, um conjunto diversificado de outras iniciativas de cariz social, desportivo, recreativo ou cultural.

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Num mundo perfeito, as redes sociais não seriam mais do que uma boa ferramenta de comunicação, contudo, com o tempo, conquistaram espaço e ganharam estatuto e, hoje servem para quase tudo, sem grande regulação, pouca contenção ou nenhuma responsabilização pelo que é veiculado.

Vale tudo, sobretudo, odiar e exacerbar o direito à indignação. E como os temas a debate se renovam todos os dias está assegurada a rentabilização de uma espécie de destilação coletiva de veneno. Os utentes das redes sociais têm, periodicamente, novos motores de indignação, questões fraturantes, que alimentam horas, por vezes dias, de apaixonadas e, quase sempre, acesas discussões, que se extinguem com a chegada de um novo “caso”.

Os “haters” – os mais puristas – nem sequer se preocupam em indagar a veracidade das notícias ou das denúncias, porque o fundamental é alimentar polémicas, ainda que isso implique, não raras vezes, difamar, ofender ou maltratar indiscriminadamente.

Ainda, recentemente, um cidadão indignado colocou em praça pública uma história que configura uma atuação, alegadamente, menos correta, ou pouco humana de um corpo de bombeiros. Os contornos da situação deverão ser apurados, sendo certo que a imagem dos soldados da paz sai beliscada de um processo que configura total desconhecimento da missão destes operacionais e das fontes de financiamento das associações humanitárias de bombeiros voluntários de todo o País.

O Estado não paga tudo, na verdade em muitos casos estas instituições pagam para socorrer, e só por isso será lícito, óbvio e da mais elementar justiça, que certos serviços sejam cobrados, nomeadamente, o corte de árvores, a limpeza de estradas ou a abertura de portas.

É estranho que as populações continuem a desconhecer a realidade destas instituições e que não se interroguem sequer como é possível que organizações privadas se evidenciem na prestação de serviço público.  Lamentavelmente, não sabem, nem querem saber quem paga os meios e os equipamentos, mas exigem a proteção de bens e o socorro, da mesma forma que parecem ignorar que o principal pilar da proteção civil são os bombeiros, na sua esmagadora maioria voluntários.

Importava, pois, que os portugueses, sempre solidários, e que nos incêndios deste ano voltaram aos quartéis para entregar águas e alguns bens alimentares, regressassem com o intuito único de conhecer a realidade destas casas que assentam na abnegação e na entrega de mulheres e homens que, todos os dias, se superaram no exemplar serviço prestado à nação.

O (bom) funcionamento destas instituições depende, contudo, das receitas sempre poucas para fazer face às crescentes solicitações, e, assim sendo, todos podemos fazer a diferença no apoio aos bombeiros, engrossando as fileiras dos associados.

Se a crítica, muitas vezes, não tem rosto, importa “dar a cara” pela causa!

 

Sofia Ribeiro

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