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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quinta-feira,

18/07/2019

22:23

DOMINGOS FABELA

PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DE BOMBEIROS

11/01/2019 12:23:37

DO DISTRITO DE BEJA

“Um dos obstáculos que ainda temos é a resistência à participação, à mudança”

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Professor aposentado com estreitas ligações a Serpa, onde nasceu e onde cumpre como dever cívico a participação ativa nas coisas e nas instituições da terra, Domingos Fabela, não poderia deixar de estar ligado aos bombeiros da sua terra natal que, aliás, acabaram por o levar à presidência da Federação de Bombeiros do Distrito Beja.


Sofia Ribeiro (texto)

Marques Valentim (fotos)

A.JPGAB.JPGDomingos Fabela abraça a causa em 1998, quando a convite de um de um colega “também professor” numa época em que os Bombeiros de Serpa vivam “tempos conturbados”, passadas mais de duas décadas, debeladas esta e várias outras crises, umas locais e outras tantas nacionais, o dirigente não mais se distanciou das problemáticas do setor que continua a viver intensamente, com muita preocupação, mas, também, com muita paixão.

Casado, pais de dois filhos, Domingos Fabela nasceu em Serpa, em 1955, no seio de uma “família grande”. O mais novo de seis irmãos concluiu o magistério e começou a lecionar em 1976. No início de carreira andou por muitas das então escolas primárias do Alentejo, mas acabou por se fixar em Serpa. Licenciou-se anos mais tarde, por opção manteve-se no primeiro ciclo, sendo responsável pela formação de base de mais de 600 crianças, reformou-se com 32 anos de carreira.

“Acho caricata esta situação nos bombeiros, somos sempre os mesmos”

No final da década de 90 do século passado aceitou o convite para vice-presidente da direção da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Beja, cumpriu dois mandatos e decidiu afastar-se para “abrir caminho à renovação”. Dois anos depois, foi novamente “desassossegado” para ocupar a cadeira que deixou vaga e que aliás ainda hoje ocupa.

SERX3.JPG1675.JPG“Acho caricata esta situação nos bombeiros, somos sempre os mesmos”, desabafa alertando para a crise no voluntariado que, não só está a roubar bombeiros aos quartéis, mas, também, dirigentes às associações, porque, na realidade, a disponibilidade é cada vez menor, mas maior o grau de exigência na gestão destas instituições, que requerem tempo, trabalho e muita responsabilidade.

“Temos projetos e objetivos, caso contrário não vale a pena. Passar por aqui para ver se há dinheiro e passar cheques não são tarefas que nos agradem”, diz-nos Domingos Fabela, revelando que esta equipa, ao longo dos anos, tem vindo a traçar metas que permitiram, tirar partido das candidaturas a fundos comunitários e avançar com a renovação do parque automóvel e a aquisição de equipamentos vários.

 

“Aqui nesta casa existe uma grande preocupação com estas mulheres e estes homens, com os nossos bombeiros”

 “Aqui nesta casa existe uma grande preocupação com estas mulheres e estes homens, com os nossos bombeiros, os voluntários e os assalariados”, revela o dirigente da associação humanitária de Serpa, dando conta da responsabilidade social desta instituição que dá emprego a mais de 30 pessoas, sendo já a terceira maior empregadora do concelho. Este investimento na profissionalização que obviamente tem custos elevados, foi a solução encontrada para que a associação pudesse continuar a prestar um serviço de excelência ao concelho, pois, também por aqui, os voluntários, ou a falta deles, constitui um problema.

“Temos um orçamento que ronda um milhão de euros, já com peso… portanto só nos resta gerir, coordenar esta estrutura da melhor forma”, frisa para defender que só um pleno entendimento, “uma ligação muito estreita”, entre a direção e comando, a par com a entrega dos bombeiros, permitem levar esta embarcação a bom porto.   

Também em 2005, desafiado pelo então presidente da Federação de Bombeiros do Distrito, Luís Bartolomeu, integra os órgãos sociais daquela estrutura, mas só no mandato seguinte (2009), cedendo à pressão de dirigentes e comandantes, avançou com a candidatura à presidência.

“Um dos obstáculos que ainda temos é a resistência à participação, à mudança”

DOMINGOS FABEL.JPGRecorda que quando assumiu funções encontrou um grupo desmotivado e pouco participativo nas iniciativas da federação e da Liga dos Bombeiros Portugueses, longe dos centros de decisão e arredado das questões que ao setor importam, embora no Alentejo, as associações humanitárias se debatam com problemas muito semelhantes aos das congéneres de qualquer outro ponto do País.

“Um dos obstáculos que ainda temos é a resistência à participação, à mudança. Por aqui as pessoas ainda pensam que o que possam fazer não terá impacto, não resolverá nada, não fará a diferença e mudar essa mentalidade tem sido complicado”, revela o nosso interlocutor, reconhecendo, contudo, “algumas mudanças” que atribui à entrada dos comandantes nos órgãos sociais da federação.

O presidente lamenta ainda que vencer distâncias num distrito de grandes dimensões ainda é uma dificuldade, maior para dos dirigentes, pelo que a utilização das novas ferramentas de comunicação tem-se revelado fundamental para fazer passar a mensagem, para manter direções e comandos devidamente atualizados mais ainda nesta fase marcada por inúmeros acontecimentos e em que se perspetivam mudanças de vulto no setor. Domingos Fabela defende ainda que cabe aos dirigentes e aos elementos de comando comunicar com os bombeiros envolvendo-os em todo o processo, para que não se sintam à margem numa estrutura em que afinal só existe por eles, porque eles decidiram cumprir o lema “vida por vida”.

SERX16.JPGBeja enfrenta sérios problemas em atrair jovens para a causa, aqueles que na realidade serão o futuro destas instituições, que garantirão o pleno funcionamento dos quartéis. A interioridade, a falta de emprego, a debandada para as grandes metrópoles e o envelhecimento da população são realidades impiedosos, ainda assim existem no distrito iniciativas várias que visam captação de crianças e jovens para a causa, conforme salienta Domingos Fabela, dando conta do trabalho desenvolvido e dos “resultados animadores” obtidos pelos Voluntários de Castro Verde, Alvito, Odemira e Ourique com a criação e dinamização das escolas de infantes e cadetes 

“Que incentivos podemos dar a um jovem para passar a noite no quartel? Que motivação têm para vir fazer um piquete? O que temos para lhes dar que justifique deixaram o conforto do lar ou de sair com os amigos? indaga, defendendo caber ao Governo, em primeira instância, e sem mais delongas, mas, também, às autarquias investir nesta matéria.

“Aqui em Beja, como em qualquer outro distrito do País, não existem duas realidades iguais. Neste distrito temos autarquias que andam com as suas associações ao colo e outras que as ignoram”, refere o dirigente federativo, dando como bons exemplos, as parcerias fomentadas pelas câmaras municipais de Moura e Odemira, em sentido contrário existem alguns “casos” menos bons, que estão na origem de situações “delicadas”, sobre as quais Domingos Fabela prefere guardar reserva.

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Domingos Fabela esteve ainda, até ao final do ano passado, na assembleia geral da Misericórdia de Serpa, mas volvidos 12 anos, achou ter chegado o momento de deixar a instituição, porque considerou “ter chegado a hora de desligar de fechar um ciclo”, mas não de fechar a porta, até porque “pode ser que volte mais tarde”.

Aposentando, o antigo professor primário reconhece, tem mais tempo para se entregar ao voluntariado, mas, garante que não foi a maior disponibilidade que omobilizou. Fala de um “dever” para com a sociedade que o impeliu a colaborar com estas instituições que tanto fazem pelos outros.


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