PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DA GUARDA
“Por vezes todas estas lutas parecem inglórias"
01/11/2019 14:47:56

“Por vezes todas estas lutas parecem inglórias"
– Paulo Amaral, presidente da Federação de Bombeiros do Distrito da Guarda
Paulo Amaral entrou no mundo dos bombeiros, na década de 80
do século passado, empurrado por um dever de cidadania ativa, integrando os
órgãos sociais da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários da Meda, mas
“coincidências” acabaram por levá-lo a responder a um e a mais outro desafio,
no fundo a dar o seu contributo ao setor.
Volvidas três décadas, o presidente da direção dos Bombeiros
da Meda é, também, o rosto da Federação dos Bombeiros do Distrito da Guarda e secretário
da Mesa dos Congressos da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP).
Sofia Ribeiro (texto e fotos)
Paulo Amaral é o rosto dos bombeiros do distrito da Guarda e
foi nesse papel que, recentemente, recebeu a equipa do jornal Bombeiros de
Portugal na sede da federação, um espaço inaugurado há escassos meses, mas que surge
como a realização de um sonho antigo de Madeira Grilo, um acérrimo defensor da
causa e o primeiro presidente da federação.
Numa conversa corrida, sem os óbices da pergunta resposta,
Paulo Amaral fala do seu percurso denunciando o compromisso assumido há quase
três décadas. Conta que o ingresso no universo dos bombeiros dá-se como uma
“inevitabilidade” dos meios pequenos, onde todos são poucos para preservar e
dignificar as instituições locais de referência. Assim sendo, refere, foi com
“naturalidade” que começou por integrar os órgãos sociais da Associação
Humanitária de Bombeiros Voluntários da Meda em cargos de menor
responsabilidade, para, em 2003, assumir as funções de vice e, mais tarde, de
presidente da direção, missão que, aliás, continua a abraçar com “um
privilégio”. Recorda que, quando, em 1989, decidiu colaborar com a instituição,
sobre bombeiros “sabia apenas o básico”, mas sobrava disponibilidade para
aprender, conhecer e, sobretudo para acrescentar valor a este projeto encetado,
por um grupo de homens bons, em 1930.
“Reconheço que sobre a área operacional não sabia nada”
confidencia, contudo, é, também, por isso, que se pode congratular com a
“mudança radical” operada nos 16 últimos anos, marcados pela “realização de
obra”. Ainda que salvaguardando, sempre, o mérito do trabalho dos antecessores,
até porque “os tempos eram outros”, Paulo Amaral não deixa de reconhecer a
“evolução extraordinária dos Bombeiros da Meda”.
Volta atrás para relembrar uma casa erigida à escala e às
necessidades das populações como acontecia um pouco por todo o território
nacional, quando pontificavam os “grandes salões onde aconteciam tanto sessões
de cinema, como casamentos, bailes, festas ou comícios, no fundo porque tudo
acontecia nos quartéis de bombeiros” em contraponto com espaços operacionais
mais exíguos e com poucos meios. Relembra que, quando a sua equipa assumiu a
direção da associação humanitária surgiu a necessidade de “mudar a filosofia”,
de investir na renovação e modernização do parque de viaturas, mas, também, de
repensar todas as questões laborais, sendo esta “a primeira destas casas a
abrir portas e as negociações aos sindicatos” o que, hoje, permite que “a
remuneração dos funcionários da associação esteja indexada aos índices da
função pública, nomeadamente das autarquias”.
“O trabalho do comando (…) tem permitido manter a união do
efetivo de cerca de meia centena de operacionais e o forte pulsar do
voluntariado”
Neste processo de adaptação a uma nova realidade num setor
que, nos últimos anos, viveu o turbilhão de todas as alterações, a instituição
presidida por Paulo Amaral, contou, em todos os momentos, com o apoio da Câmara
Municipal da Meda, que, mantém, presentemente essa forte parceria com a
associação.

“Hoje dispomos de um quartel operacional com uma frota
bastante boa, no que concerne a viaturas de combate a incêndios, enquanto
decorre, a bom ritmo, o processo de renovação das ambulâncias. Neste momento,
com a aquisição da autoescada, falta-nos apenas um veículo tanque de grande
capacidade” salienta, dando ainda conta da mais valia da equipa de intervenção
permanente (EIP), criada em 2016, que permitiu ampliar e qualificar a resposta
dada às populações deste concelho do distrito da Guarda.
Depois da obra de requalificação e ampliação do quartel
está, ainda, por cumprir o projeto de cobertura da parada. A obra orçada, em
cerca de cem mil euros, carece, no entanto, de patrocínio da autarquia, até
porque o acesso a fundos comunitários ficou vedado numa recente intervenção de
grande monta que rondou os 300 mil euros.
Para o sucesso da equipa diretiva concorre, também, “o
trabalho do comando que tem permitido manter a união do efetivo com cerca de
meia centena de operacionais e o forte pulsar do voluntariado”. Este é “corpo
ativo muito homogéneo e muito empenhado”, faz questão de frisar o dirigente
dando conta da união, dentro, mas, também, fora dos portões do quartel que vai
permitindo manter acesa a chama que, nem os mais novos deixam extinguir e a
prova-lo o sucesso da “escolinha” de infantes e cadetes que conta, atualmente,
com cerca de 40 elementos.

Uma peculiar e transversal “mística” está bem expressa neste
final de 2019, quando a Meda já prepara as comemorações do 90.º aniversário da
associação que se assinala para o ano e que, para além das distinções e justas
homenagens aos que, ao longo de tantos anos, têm ajudado a escrever esta
história, está anunciada a “devolução” à comunidade da primeira ambulância do
corpo de bombeiros, algo só possível, como faz questão de referir Paulo Amaral,
com o apoio do comandante Carlos Jaime, dos congéneres do Dafundo (Oeiras) que
se ofereceu para recuperar a mítica Wolkswagen “pão de forma” que entrou ao
serviço deste concelho em 1951, quase 30 anos após a fundação da instituição.
“Recebemos as verbas tarde e a más horas, mas avançamos
sempre. Já era tempo de não sermos mendigos de mão estendida, sobretudo a
quem…”´
Como dirigente local mas, também, como o rosto dos bombeiros
no distrito da Guarda, Paulo Amaral não hesita em denunciar a falta de apoios e
em exigir o devido respeito para estas instituições privadas que se substituem
ao Estado, como principal pilar da proteção civil, um estatuto, aliás,
certificado à exaustão, pelos próprios governantes, em cerimónias públicas, mas
quase sempre esquecido ou minimizado nos gabinetes de onde saem as leis que
tutelam o setor.

“Nós recebemos as verbas tarde e a más horas, mas avançamos
sempre. Já era tempo de não sermos mendigos de mão estendida sobretudo a quem…
Exigimos mais colaboração efetiva”, sublinha, considerando, ainda assim, que no
processo negocial com o Governo, assumido pela Liga dos Bombeiros Portugueses
(LBP) “muito já foi conseguido”, contudo, no dossier das reivindicações
continuam pendentes o pacote de incentivos ao voluntariado e medidas
diferenciadoras para as mulheres e os homens que servem a causa. Paulo Amaral
vai mais longe para defender “estar na altura de se começar a pensar, também,
no dirigismo nestas instituições”, que assinala, no futuro corre riscos até
porque “as responsabilidades são muitas -
cada vez mais -, nestas casas, onde já não se gerem apenas trocos”.
Nesta linha de raciocínio defende, também, para os dirigentes “algumas
regalias”, que, “não sendo, obviamente, remuneratórias”, traduzam algum
“reconhecimento pelo serviço que prestam” às comunidades e ao País, até porque
muito se fala na crise no voluntariado nos quartéis, mas o problema já atinge
os espaços associativos, onde começam a faltar pessoas, sobretudo quando se
torna imperioso assegurar o processo de renovação dos órgãos sociais.
“O dirigismo também precisa de ser acarinhado, caso contrário,
também corre riscos”
“O dirigismo também precisa de ser acarinhado. Importa não
esquecer que são os diretores que são chamados a responder pelas dívidas destas
instituições”, frisa para deixar claro que os incumprimentos de várias
entidades criam situações muitas vezes complicadas, tendo em conta que os
prazos dos fornecedores não se compadecem com constantes atrasos nos pagamentos
das unidades de saúde ou até da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção
Civil (ANEPC).

“Por vezes, todas estas lutas parecem inglórias. Como diria
o comandante Jaime Marta Soares se fossemos Governo estaria tudo resolvido,
mas, a verdade é que não somos. Obviamente, não podemos desistir, mas tudo
seria mais fácil se nos tratassem com um verdadeiro parceiro, até porque, na
verdade, os bombeiros são o suporte de toda a gente, os bombeiros resolvem
tudo, e esta dissipabilidade, esta capacidade de resposta não tem preço. E se
isto fosse contabilizado?”, indaga e sem esperar a resposta que nunca virá,
considera que, haja o que houver, “a comunidade vai precisar sempre dos
bombeiros”. Falando de territórios que conhece bem, Paulo Amaral vai mais longe
vaticinando que numa hipotética reforma administrativa, o interior pode perder
todos os serviços, mas “manterá sempre o quartel de bombeiros”.
“Nos bombeiros temos o problema da eternização nos cargos”
Entre a pele do cidadão e a do dirigente é nesta condição
que denuncia “grande preocupação pelo anunciado modelo intermunicipalização, ao
abrigo do qual a Guarda pode vir a “perder corpos de bombeiros”, advogando que
o “processo não vai ser muito fácil”, até porque neste, como noutros casos,
antecipa-se uma espécie de esvaziamento deste distrito para pelo menos três
comunidades intermunicipais (CIM).
Ainda assim, Paulo Amaral observa que as federações têm aqui
uma oportunidade de se afirmarem como porta-voz das associações de
bombeiros nas CIM com ganhos claros em
matérias são distintas como a formação, o reequipamento dos quartéis, ou a
distribuição de fundos comunitários e, assim, serem uma “voz forte”, com
direito a parecer nas decisões importantes, até mesmo perante os municípios que
“muitas vezes se esquecem de apoiar os bombeiros ou só fazem de forma
interesseira, descartando as suas responsabilidades em matéria de proteção
civil”.
Paulo Amaral diz ter chegado à presidência da Federação dos
Bombeiros do Distrito da Guarda por “uma coincidência”, ainda que a escolha das
federadas tenha assentado no consenso, no nome indicado por Álvaro Guerreiro
que assumiu funções transitoriamente, em substituição do médico Gil Barreiros,
forçado abdicar do cargo por questões profissionais.
Embora faça um balanço positivo do trabalho, encetado em
2013, pela equipa que encabeça, garante que, terminado este segundo mandato,
não voltará a recandidatar-se defendendo que o programa sufragado pelas 23
federadas está, particamente, executado.
“Nos bombeiros temos o problema da eternização nos cargos.
Por isso mesmo, é chegada a altura de dar lugar a outros, cumprida que está a
aspiração do professor Madeira Grilo, de dotar a federação de sede própria”,
refere, ainda que existam outros projetos para casa dos bombeiros do distrito
da Guarda. Paulo Amaral explica que este novo espaço, que reúne todas as
condições para apoio às federadas, também na área da formação, deverá acolher
ações pedagógicas que permitam à comunidade, sobretudo aos mais novos,
“perceberem e vivenciarem o espírito dos bombeiros partindo do legado do
professor” e que está disponível num bem conseguido espaço museológico, que se
afirma como uma espécie de centro interpretativo da vida e obra de Madeira
Grilo, mas, também, da causa e das coisas dos soldados da paz .
A trabalhar em várias frentes, embora com parcos recursos, a
federação está, agora, apostada, no âmbito de uma parceria com o Instituto
Politécnico da Guarda e Escola Nacional de Bombeiros, em reforçar a oferta
formativa com uma pós graduação nas áreas
da comunicação, média e proteção civil, destinada aos bombeiros do
distrito “mas não só” e, quem sabe, no futuro, criar neste interior um polo de
excelência e de referência nesta área,
desde logo importante, porque, como lembra Paulo Amaral, “bombeiro que
não sabe não se salva nem salva”, uma espécie de novo lema que tem servido de estímulo
para ampliar conhecimentos, competências e as habilitações académicas das
mulheres e homens que escolheram servir nos quarteis portugueses.
“O bombeiro da Guarda é determinado, acredita na causa e com
mais, ou menos, ou até sem quaisquer contrapartidas ainda deposita entusiasmo
beirão nesta missão”
Desafiado para uma análise à realidade das associações
humanitárias Guarda, o presidente hesita até porque não existem duas
instituições similares, e, assim, as especificidades dos territórios que servem
e até os apoios que recebem, nomeadamente das câmaras municipais, acabam por
criar uma certa unicidade, ainda que, na generalidade, o presidente da
federação garanta não existirem problemas mais graves dos que afetam todas as
outras congéneres de Norte a Sul do País.
Já no que concerne o perfil do bombeiro do distrito Paulo Amaral é
perentório:
“O bombeiro da Guarda é determinado, acredita na causa, com
mais ou menos ou até sem quaisquer contrapartidas ainda deposita entusiasmo
beirão nesta missão”, assinala dando como exemplo o crescente sucesso das
escolas de infantes e cadetes, curiosamente, muito impulsionadas pelos
elementos do quadro de honra, que deixam o ativo, mas mantêm-se ativos,
passando o exemplo, o conhecimento e a experiência aos mais novos.
Do alto da sua experiência e de quem conhece o meio, Paulo
Amaral reconhece muitas mudanças, sobretudo nas dinâmicas e do modo de
funcionamento destas instituições, contudo continua a acreditar que, tal como
no passado, “quer nos comandos quer nas direções ainda continuam a estar os
homens bons deste País”, até porque longe vão os tempos em que cargos nestas
instituições davam estatuto aos seus titulares.
“Os bombeiros ocupam-me, de facto, muito tempo, sim é
verdade” reconhece, garantindo, contudo, que teve e tem missão facilitada,
porque sempre pode e soube delegar tarefas nas suas equipas.
“Esta experiência enriquece todos os dias, o homem, o Paulo
Amaral, que neste mundo tem conhecido pessoas interessantes, gente boa e
aprendido muito”, destaca.
Paulo Amaral é um profissional da política, fez dela vida
com “enorme orgulho”. Estreou-se nestas andanças com apenas 22 anos fidelizado
ao Partido Social Democrata, ocupou vários cargos, desempenhou variadíssimas funções,
mas dedicou grande parte da vida à Câmara Municipal da Meda, onde exerceu as
funções de vereador e vice-presidente, com responsabilidades em várias áreas,
nomeadamente na Proteção Civil. Há já algum tempo, depois de 24 anos de intensa
atividade, autossubmeteu-se a um programa de “metadona politica”, mas não teme
reincidir, até porque esteve e estará sempre disponível para servir o seu
concelho e as suas gentes. Por enquanto são mesmo os bombeiros que lhe ocupam
os dias, embora reforce que, também, por aqui não tem lugar cativo até porque,
defende “todos devem aprender a fazer uma análise da oportunidade da entrada,
mas, também dos tempos de saída”.
As federadas
A federação de Bombeiros do Distrito da Guarda congrega as
associações humanitárias de bombeiros voluntários Egitanienses (Guarda), de
Gonçalo, de Famalicão da Serra, também os Pinhelenses, os Celoricenses
(Celorico da Beira), e, ainda, de
Gouveia, Almeida, Trancoso, Vila Franca das Naves, Melo, Seia, Figueirenses,
Meda, Folgosinho, Vila Nova de Tazém, Fornos
de Algodres, Sabugal, Manteigas, Aguiar da Beira, Vila Nova de Foz Côa,
Soito, São Romão e de Loriga.