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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quarta-feira,

13/11/2019

11:49

PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DE ÉVORA

“O desincentivo ao voluntariado é culpa de todos"

01/11/2018 16:37:02

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“O total desincentivo ao voluntariado é culpa de todos”


                                              – Inácio Esperança, presidente da Federação dos Bombeiros do Distrito de Évora

 

É, e assume-o, uma figura interventiva nos fóruns do setor, talvez, porque acumule o saber de mais de duas décadas de estreita ligação, mas não de acomodação, ao mundo dos bombeiros onde entrou pelo quartel dos Voluntários de Vila Viçosa que o acabaram por conduzir à presidência da Federação de Bombeiros dos Distrito de Évora, há já uma década.

O professor Inácio Esperança, soma responsabilidades em várias outras instituições a que juntou, há pouco mais de um ano, a missão de presidente de junta de freguesia.

Não sobra tempo numa vida cheia, mas, certamente, satisfação do dever cumprido, ainda que seja este um exigente exercício de cidadania.


                                                                                                                                     Sofia Ribeiro (texto)

                                                                                                                           Marques Valentim (fotos)

 

Professor do ensino secundário, presidente da Junta de Freguesia de Pardais, presidente da mesa da assembleia da Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa, Inácio Esperança encontra ainda tempo para integrar os órgãos sociais da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Vila Viçosa e presidir à Federação de Bombeiros do Distrito de Évora.

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Ao nosso jornal conta que chegou “aos bombeiros, há 25 anos, como vogal, a convite do então presidente, Romão Correia Carapinha, quando a associação tinha vinte mil contos de dívidas”. Volvido um quarto de século, recorda, com natural e inata boa disposição, a sua primeira missão “ir ao Banco de Portugal resolver problemas: a associação estava inibida de emitir cheques, tinha um processo em tribunal de execução fiscal por dívidas à Segurança social a certa de quatro mil contos ao posto de combustível”. Nesse tempo nem viaturas existam, por isso, “com cheques pessoais” tratou de adquirir uma ambulância para que o corpo de bombeiros pudesse cumprir a sua missão.

 

“Durante 10 anos nunca fui a uma reunião de federação”

 

Recorda que nessa época “uns 20 bombeiros, três funcionários e duas ambulâncias” tentavam dar resposta às populações do concelho, ainda que com pouquíssimas condições “numa garagem do antigo Cinema Calipolense, na Rua Florbela Espanca, com 10 metros de frente e 30 de comprimento, um chuveiro e sem camarata feminina”.

INACIO2.jpgDepois de “casa arrumada”, dirigentes e bombeiros já podiam dar ao espaço ao sonho e o novo quartel, à séria, tornou-se uma aspiração coletiva. Não obstante “dois projetos falhados” e quase uma década de avanços e recuos, em 2005 arrancou o processo para a construção das instalações-sede. Em 2009, o então ministro da tutela, Rui Pereira, presidia à inauguração do complexo operacional orçado em 1.4 milhões de euros, que permitiu, finalmente, dar condições de trabalho e de conforto às mulheres e homens que integram o efetivo.

A ligeireza com que Inácio Esperança, aparentemente, (re)visita o passado não esconde a dificuldades em erguer uma instituição e sobretudo mantê-la de pé, até porque são grandes e sobejamente conhecidos os constrangimentos destas organizações da sociedade cível, ainda que tenham como fim – primeiro e único – servir. Trabalho, trabalho, trabalho é o único segredo das associações humanitárias e corpos de bombeiros, que, apesar de todas as vicissitudes, têm ao longo de muitos anos conseguido superar os desafios de um setor em contante mudança. Em Vila Viçosa não é diferente, foi necessário mesmo criar algumas fontes de receita para custear a atividade do corpo de bombeiros, nomeadamente um restaurante e um posto de lavagem de viaturas, que não sendo um grande negócio, garantem “têm alguma sustentabilidade”.

 

“No passado [a federação] limitava-se a fazer representações em festas”

 

É desta forma que o hábil dirigente associativo de Vila Viçosa chega à presidência da Federação dos Bombeiros do Distrito de Évora, órgão, que curiosamente, confidencia, nunca lhe havia despertado qualquer interesse.

INACIO5.jpg“Durante 10 anos nunca fui a uma reunião de federação, contudo em 2007 ou 2008 achei que devíamos participar nestes encontros distritais, comecei então a entender a  importância de estarmos representados, no fundo percebi que a união podia fazer a diferença”, refere, dando conta de um primeiro convite para o conselho fiscal, depois para presidente, cargo que cumpriu durante três mandatos e que devia já ter deixado “porque os estatutos impõem a limitação do número de mandatos”, mas, revela, foi forçado a prolongar, pois na realidade, “não apareceu outra lista”. Afirma-se sem problema como a “solução de recurso, necessária porque existiam processos pendentes concursos públicos, com o hospital de Évora, envolvendo verbas de mais de três milhões de euros”, no âmbito de um consórcio dos bombeiros dos distritos de Évora, Beja e Portalegre que, há já alguns anos, no pico de uma das várias crises do setor, permitiu assegurar e segurar o transporte de doentes não urgentes.

“No passado [a federação] limitava-se a fazer representações em festas. Enquanto isso as empresas de transporte de doentes prosperavam, em Évora. Se esse era um bom negócio, porque é que os bombeiros definhavam?”, uma questão entre muitas outras que levaram o presidente e a sua em equipa em procurar soluções em colocar a “federação a fazer coisas em prol de todos”.

 

“Não sou daqueles que lamenta o que não têm. Na verdade, temos de gerir o que há”

 

A propalada falta de recursos humanos no Alentejo, parece não ser “dor de cabeça” para o presidente da federação de Évora. O distrito pode contar com pouco mais de 730 os bombeiros, um número que Inácio Esperança, não questiona ou lamuria:

INACIO6.jpg“São os possíveis à nossa dimensão, afinal somos 150 mil alentejanos. Não sou daqueles que lamentam o que não têm. Na verdade, temos de gerir o que há”, dispara, sendo certo que não ignora o menospreza a falta de voluntários nos quartéis.

“O total desincentivo ao voluntariado é culpa de todos, deixámos que nos tirassem regalias. Agora nada mais há a fazer do que repensar no que dar aos mais jovens, para que venham para os bombeiros”, diz, considerando  que essa oferta deverá ter em linha de conta “as novas tecnologias de informação, o ingresso no ensino superior ou acesso cursos médios, bens públicos e sociais”.

 

“A ENB já deveria ter evoluído, há anos, para o ensino superior”

 

“Porque é que os bombeiros e as instituições do setor não têm uma instituição de ensino superior?”, indaga, para, no imediato, defender que “a Escola Nacional de Bombeiros (ENB) já deveria ter evoluído, há anos, para o ensino superior”, denunciando “a proliferação de universidades e institutos superiores públicos, com cursos sem qualidade, sem gente sem conhecimentos”. Bem ao seu estilo, vai mais longe:

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“Estão a vender cursos feitos à medida e às necessidades, dos comandantes operacionais distritais, de presidentes disto ou daquilo… servem para o que servem. Os bombeiros têm de ter uma instituição de ensino superior que forme os seus quadros – que os outros tenham, tudo bem – mas nós temos de ser líderes, dar cartas. As sobras, se existirem, podem ficar para as escolas superiores. Já digo isto há anos, falta dar este salto, mas ainda há tempo. Esta é uma questão essencial para o futuro dos bombeiros”.

Alinhado com as grandes reivindicações da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), o presidente da federação de Évora, exige para os bombeiros “uma estrutura financeira autónoma, com o dinheiro que é transferido para Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), que permitiria satisfazer as necessidades em questões fundamentais como a formação e reequipamento e as obras nos quartéis”.

É desta forma, direta e sem muitos filtros que Inácio Esperança se assume como um dos proeminentes presidentes de federação, participativo e muito interventivo, com um profundo conhecimento dos dossiers, temas e matérias. Embora a sua postura e frontalidade lhe custem alguns debates mais acalorados, nos momentos mais difíceis para o setor, o presidente da federação, faz questão de estar do lado da solução, de não se agarrar muito ao problema.

A presença assídua em todos os fóruns dos bombeiros de Portugal, não o impede de colaborar ativamente com a Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa, onde assume funções de presidente da mesa da assembleia ainda, assim, com grandes responsabilidades e muitos projetos que deseja ver concretizados, “em breve”.

 

“Os balanços fazem-se no fim”


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A política está também muito presente na vida de Inácio Esperança, que começou nas lides partidárias ainda muito jovem, militou no Partido Social Democrata que representeou como vereador na Câmara Municipal de Vila Viçosa. Afastou-se do partido para criar o Movimento de Unidade dos Cidadão do Concelho de Vila Viçosa (MUC) tendo concorrido à presidência da autarquia e à assembleia municipal que não ganhou.  O ano passado e, “por exclusão de partes” acabou por avançar numa candidatura à pequena freguesia de Pardais, um feudo socialista há mais de 40 anos, mas que o independente Inácio Esperança, conseguiu conquistar.

O presidente da junta fez questão de receber o Jornal Bombeiros de Portugal em Pardais para dar conta de alguns seus dos projetos e ideias para uma freguesia que, em apenas um ano, ganhou novo ritmo.

Embora sempre vá dizendo que “os balanços fazem-se no fim”, sempre reconhece que o seu projeto é concretizável, leia-se que as promessas feitas aos fregueses são todas para cumprir e algumas até já são uma realidade, nomeadamente o centro de dia para idosos, a junta de porta aberta o dia inteiro e disponibilizando uma série de serviços, incluindo um terminal Payshop. A autarquia, também, assinou a organização do I Festival da Laranja, um produto premium da região e que era de certa forma desvalorizado. Este certame, conforme explica o presidente da junta permitiu, na realidade, promover todos os produtos da terra, alto a que Inácio Esperança até porque é, também, agricultor.

A ideia agora passa por potenciar o agroturismo que permitirá aliar a ruralidade ao edificado, “coisas muito giras, de aldeia” que importa potenciar, nomeadamente, “o Palacete dos Infantes de Lacerda, Quinta de Cima, Quinta dos Passos”.

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Os grandes projetos, pelos menos os de maior notoriedade ou visibilidade, estão ainda por concretizar, mas o presidente da junta acredita que que a estação de tratamento de águas residuais (ETAR) e a praça de touros – a “menina dos olhos” do ex-forcado e aficionado de sempre –, são obras que podem ser concretizadas em breve.

Professor do ensino secundário, leciona filosofia e psicologia no ensino secundário, e esta sim é a sua principal atividade de Inácio Esperança, a profissão que iniciou com apenas de 21 anos, e que garante, 30 anos depois, não descurar um só momento, porque, certamente, a exerce com total entrega, com a mesmo com que afinal faz tudo na vida, ainda que reconheça que tanta atividade tem um preço alto que a família, mulher e filhas, cobram todos os dias.

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