PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DE ÉVORA
“O desincentivo ao voluntariado é culpa de todos"
01/11/2018 16:37:02

“O
total desincentivo ao voluntariado é culpa de todos”
– Inácio Esperança, presidente da Federação dos Bombeiros do Distrito de Évora
É, e assume-o, uma figura interventiva nos fóruns do setor,
talvez, porque acumule o saber de mais de duas décadas de estreita ligação, mas
não de acomodação, ao mundo dos bombeiros onde entrou pelo quartel dos Voluntários
de Vila Viçosa que o acabaram por conduzir à presidência da Federação de
Bombeiros dos Distrito de Évora, há já uma década.
O professor Inácio Esperança, soma responsabilidades em
várias outras instituições a que juntou, há pouco mais de um ano, a missão de
presidente de junta de freguesia.
Não sobra tempo numa vida cheia, mas, certamente, satisfação
do dever cumprido, ainda que seja este um exigente exercício de cidadania.
Sofia Ribeiro (texto)
Marques Valentim (fotos)
Professor do ensino secundário, presidente da Junta de
Freguesia de Pardais, presidente da mesa da assembleia da Santa Casa da
Misericórdia de Vila Viçosa, Inácio Esperança encontra ainda tempo para
integrar os órgãos sociais da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários
de Vila Viçosa e presidir à Federação de Bombeiros do Distrito de Évora.

Ao nosso jornal conta que chegou “aos bombeiros, há 25 anos,
como vogal, a convite do então presidente, Romão Correia Carapinha, quando a
associação tinha vinte mil contos de dívidas”. Volvido um quarto de século,
recorda, com natural e inata boa disposição, a sua primeira missão “ir ao Banco
de Portugal resolver problemas: a associação estava inibida de emitir cheques,
tinha um processo em tribunal de execução fiscal por dívidas à Segurança social
a certa de quatro mil contos ao posto de combustível”. Nesse tempo nem viaturas
existam, por isso, “com cheques pessoais” tratou de adquirir uma ambulância
para que o corpo de bombeiros pudesse cumprir a sua missão.
“Durante 10 anos nunca fui a uma reunião de federação”
Recorda que nessa época “uns 20 bombeiros, três funcionários
e duas ambulâncias” tentavam dar resposta às populações do concelho, ainda que com
pouquíssimas condições “numa garagem do antigo Cinema Calipolense, na Rua
Florbela Espanca, com 10 metros de frente e 30 de comprimento, um chuveiro e
sem camarata feminina”.
Depois de “casa arrumada”, dirigentes e bombeiros já podiam
dar ao espaço ao sonho e o novo quartel, à séria, tornou-se uma aspiração
coletiva. Não obstante “dois projetos falhados” e quase uma década de avanços e
recuos, em 2005 arrancou o processo para a construção das instalações-sede. Em
2009, o então ministro da tutela, Rui Pereira, presidia à inauguração do
complexo operacional orçado em 1.4 milhões de euros, que permitiu, finalmente,
dar condições de trabalho e de conforto às mulheres e homens que integram o
efetivo.
A ligeireza com que Inácio Esperança, aparentemente,
(re)visita o passado não esconde a dificuldades em erguer uma instituição e
sobretudo mantê-la de pé, até porque são grandes e sobejamente conhecidos os
constrangimentos destas organizações da sociedade cível, ainda que tenham como
fim – primeiro e único – servir. Trabalho, trabalho, trabalho é o único segredo
das associações humanitárias e corpos de bombeiros, que, apesar de todas as
vicissitudes, têm ao longo de muitos anos conseguido superar os desafios de um
setor em contante mudança. Em Vila Viçosa não é diferente, foi necessário mesmo
criar algumas fontes de receita para custear a atividade do corpo de bombeiros,
nomeadamente um restaurante e um posto de lavagem de viaturas, que não sendo um
grande negócio, garantem “têm alguma sustentabilidade”.
“No passado [a federação] limitava-se a fazer representações
em festas”
É desta forma que o hábil dirigente associativo de Vila
Viçosa chega à presidência da Federação dos Bombeiros do Distrito de Évora,
órgão, que curiosamente, confidencia, nunca lhe havia despertado qualquer
interesse.
“Durante 10 anos nunca fui a uma reunião de federação,
contudo em 2007 ou 2008 achei que devíamos participar nestes encontros
distritais, comecei então a entender a
importância de estarmos representados, no fundo percebi que a união
podia fazer a diferença”, refere, dando conta de um primeiro convite para o
conselho fiscal, depois para presidente, cargo que cumpriu durante três
mandatos e que devia já ter deixado “porque os estatutos impõem a limitação do
número de mandatos”, mas, revela, foi forçado a prolongar, pois na realidade,
“não apareceu outra lista”. Afirma-se sem problema como a “solução de recurso,
necessária porque existiam processos pendentes concursos públicos, com o
hospital de Évora, envolvendo verbas de mais de três milhões de euros”, no
âmbito de um consórcio dos bombeiros dos distritos de Évora, Beja e Portalegre
que, há já alguns anos, no pico de uma das várias crises do setor, permitiu
assegurar e segurar o transporte de doentes não urgentes.
“No passado [a federação] limitava-se a fazer representações
em festas. Enquanto isso as empresas de transporte de doentes prosperavam, em
Évora. Se esse era um bom negócio, porque é que os bombeiros definhavam?”, uma
questão entre muitas outras que levaram o presidente e a sua em equipa em
procurar soluções em colocar a “federação a fazer coisas em prol de todos”.
“Não sou daqueles que lamenta o que não têm. Na verdade,
temos de gerir o que há”
A propalada falta de recursos humanos no Alentejo, parece
não ser “dor de cabeça” para o presidente da federação de Évora. O distrito
pode contar com pouco mais de 730 os bombeiros, um número que Inácio Esperança,
não questiona ou lamuria:
“São os possíveis à nossa dimensão, afinal somos 150 mil
alentejanos. Não sou daqueles que lamentam o que não têm. Na verdade, temos de
gerir o que há”, dispara, sendo certo que não ignora o menospreza a falta de
voluntários nos quartéis.
“O total desincentivo ao voluntariado é culpa de todos, deixámos
que nos tirassem regalias. Agora nada mais há a fazer do que repensar no que dar
aos mais jovens, para que venham para os bombeiros”, diz, considerando que essa oferta deverá ter em linha de conta
“as novas tecnologias de informação, o ingresso no ensino superior ou acesso
cursos médios, bens públicos e sociais”.
“A ENB já deveria ter evoluído, há anos, para o ensino
superior”
“Porque é que os bombeiros e as instituições do setor não
têm uma instituição de ensino superior?”, indaga, para, no imediato, defender
que “a Escola Nacional de Bombeiros (ENB) já deveria ter evoluído, há anos,
para o ensino superior”, denunciando “a proliferação de universidades e
institutos superiores públicos, com cursos sem qualidade, sem gente sem
conhecimentos”. Bem ao seu estilo, vai mais longe:

“Estão a vender cursos feitos à medida e às necessidades,
dos comandantes operacionais distritais, de presidentes disto ou daquilo…
servem para o que servem. Os bombeiros têm de ter uma instituição de ensino
superior que forme os seus quadros – que os outros tenham, tudo bem – mas nós
temos de ser líderes, dar cartas. As sobras, se existirem, podem ficar para as
escolas superiores. Já digo isto há anos, falta dar este salto, mas ainda há
tempo. Esta é uma questão essencial para o futuro dos bombeiros”.
Alinhado com as grandes reivindicações da Liga dos Bombeiros
Portugueses (LBP), o presidente da federação de Évora, exige para os bombeiros
“uma estrutura financeira autónoma, com o dinheiro que é transferido para Autoridade
Nacional de Proteção Civil (ANPC), que permitiria satisfazer as necessidades em
questões fundamentais como a formação e reequipamento e as obras nos quartéis”.
É desta forma, direta e sem muitos filtros que Inácio
Esperança se assume como um dos proeminentes presidentes de federação,
participativo e muito interventivo, com um profundo conhecimento dos dossiers,
temas e matérias. Embora a sua postura e frontalidade lhe custem alguns debates
mais acalorados, nos momentos mais difíceis para o setor, o presidente da
federação, faz questão de estar do lado da solução, de não se agarrar muito ao
problema.
A presença assídua em todos os fóruns dos bombeiros de
Portugal, não o impede de colaborar ativamente com a Santa Casa da Misericórdia
de Vila Viçosa, onde assume funções de presidente da mesa da assembleia ainda,
assim, com grandes responsabilidades e muitos projetos que deseja ver
concretizados, “em breve”.
“Os balanços fazem-se no fim”

A política está também muito presente na vida de Inácio
Esperança, que começou nas lides partidárias ainda muito jovem, militou no
Partido Social Democrata que representeou como vereador na Câmara Municipal de
Vila Viçosa. Afastou-se do partido para criar o Movimento de Unidade dos
Cidadão do Concelho de Vila Viçosa (MUC) tendo concorrido à presidência da
autarquia e à assembleia municipal que não ganhou. O ano passado e, “por exclusão de partes”
acabou por avançar numa candidatura à pequena freguesia de Pardais, um feudo
socialista há mais de 40 anos, mas que o independente Inácio Esperança,
conseguiu conquistar.
O presidente da junta fez questão de receber o Jornal
Bombeiros de Portugal em Pardais para dar conta de alguns seus dos projetos e
ideias para uma freguesia que, em apenas um ano, ganhou novo ritmo.
Embora sempre vá dizendo que “os balanços fazem-se no fim”, sempre
reconhece que o seu projeto é concretizável, leia-se que as promessas feitas
aos fregueses são todas para cumprir e algumas até já são uma realidade,
nomeadamente o centro de dia para idosos, a junta de porta aberta o dia inteiro
e disponibilizando uma série de serviços, incluindo um terminal Payshop. A autarquia,
também, assinou a organização do I Festival da Laranja, um produto premium da região
e que era de certa forma desvalorizado. Este certame, conforme explica o
presidente da junta permitiu, na realidade, promover todos os produtos da
terra, alto a que Inácio Esperança até porque é, também, agricultor.
A ideia agora passa por potenciar o agroturismo que
permitirá aliar a ruralidade ao edificado, “coisas muito giras, de aldeia” que
importa potenciar, nomeadamente, “o Palacete dos Infantes de Lacerda, Quinta de
Cima, Quinta dos Passos”.

Os grandes projetos, pelos menos os de maior notoriedade ou
visibilidade, estão ainda por concretizar, mas o presidente da junta acredita
que que a estação de tratamento de águas residuais (ETAR) e a praça de touros –
a “menina dos olhos” do ex-forcado e aficionado de sempre –, são obras que
podem ser concretizadas em breve.
Professor do ensino secundário, leciona filosofia e
psicologia no ensino secundário, e esta sim é a sua principal atividade de
Inácio Esperança, a profissão que iniciou com apenas de 21 anos, e que garante,
30 anos depois, não descurar um só momento, porque, certamente, a exerce com
total entrega, com a mesmo com que afinal faz tudo na vida, ainda que reconheça
que tanta atividade tem um preço alto que a família, mulher e filhas, cobram
todos os dias.