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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quarta-feira,

13/11/2019

13:08

PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DE CASTELO BRANCO

José Neves em entrevista

06/05/2019 16:24:23

CASTELO1.jpg“António Costa já demonstrou que não gosta dos bombeiros voluntários”


                      – José Neves, presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Castelo Branco

 

Será uma das presenças mais discretas nos encontros e fóruns do setor, contudo tem sempre uma palavra a dizer quando a discussão se centra na causa, que defende há quase duas décadas. José Neves ingressou nas fileiras dos soldados da paz em Idanha-a-Nova, mas, por imposições profissionais, acabou por assumir o desafio de comandar os Voluntários de Castelo Branco. Nos últimos quatro anos, o comandante dos bombeiros albicastrenses é, também, o rosto e a voz da Federação de Bombeiros do Distrito de Castelo Branco.


                                                                                                                                     Sofia Ribeiro (texto)
                                                                                                                           Marques Valentim (fotos)


José Neves fez-se nos bombeiro “já tarde, com 26 anos”, em Idanha-a-Nova e “deu nas vistas”, tanto que, um ano após o ingresso, foi  desafiado a integrar o comando como adjunto e, assim, foi consolidando o seu percurso. Foi comandante dos Voluntárias da Idanha durante sete anos, mas há cerca que uma década, deveres profissionais, ditam a mudança para o quartel de Castelo Branco, sendo que, nos últimos quatro, acumula as funções de responsável operacional com as de presidente da federação de bombeiros do distrito à qual chegou “pela mão do antecessor, o comandante Mariano”, encabeçando uma “uma lista de consensos”.

“Habituamo-nos a exigir tudo, aqui nesta posição percebo a dificuldade em dar reposta tantas e diversificadas solicitações. É de facto, muito mais, confortável estar do lado de quem reivindica, até porque apesar desta ser uma federação pequena, há muito a fazer e todos nós trabalhamos em regime de voluntariado”, revela, em tom de desabafo, o comandante José Neves.

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No distrito intervêm 12 corpos de bombeiros, cerca de mil operacionais, com missões distintas que variam em função das caraterísticas e das exigências das áreas de intervenção própria. Ainda que a emergência pré-hospitalar e o transporte de doentes constituam o “grosso” da atividade diária, certo é que os incêndios florestais preocupam, designadamente nos concelhos de Cernache do Bonjardim,  Oleiros e Sertã; tal como as questões associadas ao turismo de Inverno que impõem um dispositivo especial na Serra da Estrela ou a sinistralidade rodoviária na A23 que atravessa o distrito.


“A falta de incentivos (…) tem afastado bombeiros, sobretudo, os mais jovens”


A falta de voluntários ou as crescentes indisponibilidades das mulheres e homens que abraçam a causa é um problema nacional e Castelo Branco, onde interioridade causa danos, não poderia a exceção, como revela o presidente da federação:

 “O voluntariado não é um problema. A dificuldade reside em conseguir voluntários. A falta de incentivos e a retirada dos poucos que, no passado, existiam têm afastado bombeiros, sobretudo os mais jovens até porque, hoje em dia, existem muitas alternativas em matéria de Voluntariado, muitos e vários aliciantes.

 

“Os níveis de exigência no setor não facilitam o ingresso”


CASTELO3.jpgJosé Neves considera que “os níveis de exigência no setor não facilitam o ingresso de novos bombeiros”, até porque, assinala, “são muitas as responsabilidades, desde logo a obrigatoriedade, ainda como voluntários, de darem uma resposta profissional, mas, também, a “exigência do cumprimento de um número mínimo de horas”. Embora considere importante existirem requisitos para o ingresso na carreira de bombeiro que permitam certificar a qualidade do serviço prestado às populações, certo é que tantas obrigações estão a roubar voluntários aos quartéis.  Ainda assim, e porque, por aqui, não vingam teorias catastrofistas, José Neves defende que a “quantidade até pode estar comprometida”, mas, a qualidade “está a crescer”, sendo cada vez mais expressivo o número de bombeiros “com muitos conhecimentos em distintas valências, com formação académica nas mais diversas áreas, nomeadamente em Proteção Civil, o que no passado não acontecia”. Contudo, importa continuar a apostar no recrutamento, nomeadamente com a dinamização de escolas conjuntas de âmbito distrital que podem ser mais apelativas para os formandos e, no futuro, acrescentar valor às equipas de socorro nos teatros de operações, para os quais, não raras vezes, são chamados efetivos de vários corpos de bombeiros.

“Esta ideia não é, contudo, muito consensual. Esse tipo de organização ou essa parceria, ainda não colhe unanimidade no distrito. Mas não desistimos, vamos insistir porque julgamos que esta é questão importante que merece ser ainda trabalha”, diz-nos o presidente da federação.

 

“Existem, em Castelo Branco, associações em situação económica bastante confortável, mas, outras, que enfrentam enormes dificuldades”

 

Sobre os apoios concedidos às associações humanitárias e corpos de bombeiros e as políticas locais de proteção civil desenvolvidas, o comandante José Neves assinala que “a realidade do distrito não será muito diferente da do resto do País. De facto, existem, em Castelo Branco, associações em situação económica bastante confortável, mas outras que enfrentam enormes dificuldades, com poucos recursos para fazerem face a necessidades básicas em matéria de equipamentos e viaturas, de que precisam os nossos bombeiros para poderem trabalhar”.  

Ainda que apreensivo com o futuro do setor e a superação de desafios cada vez maiores mas, também, com a forma displicente como Estado tem tratado os bombeiros de Portugal, José Neves não esconde o entusiasmo do passado recente, quando o seu distrito se uniu, em peso – “algo nunca visto” – à jornada de luta nacional do setor:

“Presidentes de direção das associações e comandantes de corpos de bombeiros dos distritos estiveram coesos na luta, resistiram à pressão externa e nunca cederam”, regista e ainda que reconheça que as principais reivindicações não tiveram eco nos corredores do poder, salienta que “os bombeiros não perderam nada até ganharam algumas coisas”.

 

“Passou a ideia que procurávamos lugares para os comandantes e dinheiro para as associações humanitárias”

 

CASTELO4.jpg“Importa analisar toda esta situação. Se é certo que não conseguimos tudo o que queríamos, conseguimos, pelo menos, uma união nunca vista. Há cinco anos se tentássemos fazer uma manifestação apareciam lá três ou quatro, importa que todos nós valorizemos isto”, enfatiza, lamentando, ainda assim que “os portugueses pareçam o que pediam os bombeiros”.

“Acho que a informação não foi bem passada e nesse aspeto importa fazer a “mea-culpa”, diz considerando que “passou a ideia que procurávamos lugares para os comandantes e dinheiro para as associações humanitárias, quando o mais importante eram os incentivos ao voluntariado, nomeadamente o prometido cartão social do bombeiro”.

Na análise do processo que mobilizou os bombeiros durante vários meses num processo negocial musculado assumido pela Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), o presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Castelo Branco frisa que a nova lei orgânica não será um dossier arrumado, mas antes uma espécie de guião para missão de recuperação da tal “estrutura própria, que os bombeiros já tiveram e, entretanto, perderam, uma porta aberta, uma luz ao fundo do túnel ou uma janela de oportunidade que não se pode fechar”.

Ainda assim, José Neves foi dos primeiros a contestar a nova organização territorial e a intermunicipalização que, no caso de Castelo Branco, vai dividir o distrito em três. Dos 12 corpos de bombeiros seis ficam na Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa - Castelo Branco, Idanha, Vila Velha de Rodão, Penamacor, Oleiros e Proença a Nova – e os restantes nas comunidades da Beira Alta (três) e do Médio Tejo (três).

 “Devemos começar a trabalhar na criação dessa estrutura autónoma, fora da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC). Acredito que vamos conseguir lá chegar”, considera José Neves, até porque, como frisa “os bombeiros, enquanto “principal pilar da proteção civil” não podem ser subjugados a interesses económicos ou políticos. Temos de ser livres, estar fora disso, longe de quaisquer pressões externas, tal como acontece com as outras forças”

 

“Quem hoje é o responsável político do País foi, no passado o ministro da Administração Interna que deu muitas machadadas nos bombeiros voluntários”


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Embora crente que “isto vai mudar com certeza”, não hesita em colocar o dedo na ferida ao relembrar que “quem hoje é o responsável político do País foi, no passado o ministro da Administração Interna que deu muitas machadadas nos bombeiros voluntários, o obreiro das estruturas e estruturazinhas que continuam a ganhar força” e, em jeito de desabafo afirma, perentório: “António Costa já demonstrou que não gosta dos bombeiros voluntários”.

Não esconde alguma revolta pelos entraves ou tão somente pela falta de reconhecimento por todos aqueles, mulheres e homens, dirigentes associativos e operacionais que “trabalham de graça para cumprir uma obrigação do Estado Português, consagrada na Constituição da República”.

Registe-se que o distrito de Castelo Branco congrega as associações humanitárias de bombeiros voluntários do Fundão, Castelo Branco, Covilhã, Sertã, Belmonte, Oleiros, Vila Velha de Rodão, Proença-a-Nova, Idanha-a-Nova, Penamacor, Vila de Rei e Cernache de Bonjardim.

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