PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DE CASTELO BRANCO
José Neves em entrevista
06/05/2019 16:24:23
“António Costa já demonstrou que não gosta dos bombeiros
voluntários”
– José Neves, presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Castelo Branco
Será uma das presenças mais discretas nos encontros e fóruns
do setor, contudo tem sempre uma palavra a dizer quando a discussão se centra
na causa, que defende há quase duas décadas. José Neves ingressou nas fileiras
dos soldados da paz em Idanha-a-Nova, mas, por imposições profissionais, acabou
por assumir o desafio de comandar os Voluntários de Castelo Branco. Nos últimos
quatro anos, o comandante dos bombeiros albicastrenses é, também, o rosto e a
voz da Federação de Bombeiros do Distrito de Castelo Branco.
Sofia Ribeiro (texto)
Marques Valentim (fotos)
José Neves fez-se nos bombeiro “já tarde, com 26 anos”, em
Idanha-a-Nova e “deu nas vistas”, tanto que, um ano após o ingresso, foi desafiado a integrar o comando como adjunto e,
assim, foi consolidando o seu percurso. Foi comandante dos Voluntárias da
Idanha durante sete anos, mas há cerca que uma década, deveres profissionais,
ditam a mudança para o quartel de Castelo Branco, sendo que, nos últimos
quatro, acumula as funções de responsável operacional com as de presidente da federação
de bombeiros do distrito à qual chegou “pela mão do antecessor, o comandante
Mariano”, encabeçando uma “uma lista de consensos”.
“Habituamo-nos a exigir tudo, aqui nesta posição percebo a
dificuldade em dar reposta tantas e diversificadas solicitações. É de facto,
muito mais, confortável estar do lado de quem reivindica, até porque apesar
desta ser uma federação pequena, há muito a fazer e todos nós trabalhamos em
regime de voluntariado”, revela, em tom de desabafo, o comandante José Neves.

No distrito intervêm 12 corpos de bombeiros, cerca de mil operacionais,
com missões distintas que variam em função das caraterísticas e das exigências
das áreas de intervenção própria. Ainda que a emergência pré-hospitalar e o
transporte de doentes constituam o “grosso” da atividade diária, certo é que os
incêndios florestais preocupam, designadamente nos concelhos de Cernache do
Bonjardim, Oleiros e Sertã; tal como as questões
associadas ao turismo de Inverno que impõem um dispositivo especial na Serra da
Estrela ou a sinistralidade rodoviária na A23 que atravessa o distrito.
“A falta de incentivos (…) tem afastado bombeiros,
sobretudo, os mais jovens”
A falta de voluntários ou as crescentes indisponibilidades
das mulheres e homens que abraçam a causa é um problema nacional e Castelo
Branco, onde interioridade causa danos, não poderia a exceção, como revela o
presidente da federação:
“O voluntariado não é
um problema. A dificuldade reside em conseguir voluntários. A falta de
incentivos e a retirada dos poucos que, no passado, existiam têm afastado
bombeiros, sobretudo os mais jovens até porque, hoje em dia, existem muitas
alternativas em matéria de Voluntariado, muitos e vários aliciantes.
“Os níveis de exigência no setor não facilitam o ingresso”
José Neves considera que “os níveis de exigência no setor
não facilitam o ingresso de novos bombeiros”, até porque, assinala, “são muitas
as responsabilidades, desde logo a obrigatoriedade, ainda como voluntários, de darem
uma resposta profissional, mas, também, a “exigência do cumprimento de um
número mínimo de horas”. Embora considere importante existirem requisitos para
o ingresso na carreira de bombeiro que permitam certificar a qualidade do
serviço prestado às populações, certo é que tantas obrigações estão a roubar voluntários
aos quartéis. Ainda assim, e porque, por
aqui, não vingam teorias catastrofistas, José Neves defende que a “quantidade
até pode estar comprometida”, mas, a qualidade “está a crescer”, sendo cada vez
mais expressivo o número de bombeiros “com muitos conhecimentos em distintas
valências, com formação académica nas mais diversas áreas, nomeadamente em
Proteção Civil, o que no passado não acontecia”. Contudo, importa continuar a
apostar no recrutamento, nomeadamente com a dinamização de escolas conjuntas de
âmbito distrital que podem ser mais apelativas para os formandos e, no futuro,
acrescentar valor às equipas de socorro nos teatros de operações, para os
quais, não raras vezes, são chamados efetivos de vários corpos de bombeiros.
“Esta ideia não é, contudo, muito consensual. Esse tipo de
organização ou essa parceria, ainda não colhe unanimidade no distrito. Mas não
desistimos, vamos insistir porque julgamos que esta é questão importante que
merece ser ainda trabalha”, diz-nos o presidente da federação.
“Existem, em Castelo Branco, associações em situação
económica bastante confortável, mas, outras, que enfrentam enormes
dificuldades”
Sobre os apoios concedidos às associações humanitárias e
corpos de bombeiros e as políticas locais de proteção civil desenvolvidas, o
comandante José Neves assinala que “a realidade do distrito não será muito
diferente da do resto do País. De facto, existem, em Castelo Branco,
associações em situação económica bastante confortável, mas outras que
enfrentam enormes dificuldades, com poucos recursos para fazerem face a necessidades
básicas em matéria de equipamentos e viaturas, de que precisam os nossos
bombeiros para poderem trabalhar”.
Ainda que apreensivo com o futuro do setor e a superação de
desafios cada vez maiores mas, também, com a forma displicente como Estado tem
tratado os bombeiros de Portugal, José Neves não esconde o entusiasmo do
passado recente, quando o seu distrito se uniu, em peso – “algo nunca visto” –
à jornada de luta nacional do setor:
“Presidentes de direção das associações e comandantes de
corpos de bombeiros dos distritos estiveram coesos na luta, resistiram à pressão
externa e nunca cederam”, regista e ainda que reconheça que as principais
reivindicações não tiveram eco nos corredores do poder, salienta que “os
bombeiros não perderam nada até ganharam algumas coisas”.
“Passou a ideia que procurávamos lugares para os comandantes
e dinheiro para as associações humanitárias”
“Importa analisar toda esta situação. Se é certo que não
conseguimos tudo o que queríamos, conseguimos, pelo menos, uma união nunca
vista. Há cinco anos se tentássemos fazer uma manifestação apareciam lá três ou
quatro, importa que todos nós valorizemos isto”, enfatiza, lamentando, ainda
assim que “os portugueses pareçam o que pediam os bombeiros”.
“Acho que a informação não foi bem passada e nesse aspeto
importa fazer a “mea-culpa”, diz considerando que “passou a ideia que
procurávamos lugares para os comandantes e dinheiro para as associações
humanitárias, quando o mais importante eram os incentivos ao voluntariado,
nomeadamente o prometido cartão social do bombeiro”.
Na análise do processo que mobilizou os bombeiros durante
vários meses num processo negocial musculado assumido pela Liga dos Bombeiros
Portugueses (LBP), o presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de
Castelo Branco frisa que a nova lei orgânica não será um dossier arrumado, mas
antes uma espécie de guião para missão de recuperação da tal “estrutura
própria, que os bombeiros já tiveram e, entretanto, perderam, uma porta aberta,
uma luz ao fundo do túnel ou uma janela de oportunidade que não se pode fechar”.
Ainda assim, José Neves foi dos primeiros a contestar a nova
organização territorial e a intermunicipalização que, no caso de Castelo
Branco, vai dividir o distrito em três. Dos 12 corpos de bombeiros seis ficam
na Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa - Castelo Branco, Idanha, Vila
Velha de Rodão, Penamacor, Oleiros e Proença a Nova – e os restantes nas comunidades
da Beira Alta (três) e do Médio Tejo (três).
“Devemos começar a trabalhar
na criação dessa estrutura autónoma, fora da Autoridade Nacional de Emergência
e Proteção Civil (ANEPC). Acredito que vamos conseguir lá chegar”, considera
José Neves, até porque, como frisa “os bombeiros, enquanto “principal pilar da
proteção civil” não podem ser subjugados a interesses económicos ou políticos. Temos
de ser livres, estar fora disso, longe de quaisquer pressões externas, tal como
acontece com as outras forças”
“Quem hoje é o responsável político do País foi, no passado
o ministro da Administração Interna que deu muitas machadadas nos bombeiros
voluntários”

Embora crente que “isto vai mudar com certeza”, não hesita
em colocar o dedo na ferida ao relembrar que “quem hoje é o responsável
político do País foi, no passado o ministro da Administração Interna que deu
muitas machadadas nos bombeiros voluntários, o obreiro das estruturas e
estruturazinhas que continuam a ganhar força” e, em jeito de desabafo afirma,
perentório: “António Costa já demonstrou que não gosta dos bombeiros voluntários”.
Não esconde alguma revolta pelos entraves ou tão somente pela
falta de reconhecimento por todos aqueles, mulheres e homens, dirigentes
associativos e operacionais que “trabalham de graça para cumprir uma obrigação
do Estado Português, consagrada na Constituição da República”.
Registe-se que o distrito de Castelo Branco congrega as
associações humanitárias de bombeiros voluntários do Fundão, Castelo Branco, Covilhã,
Sertã, Belmonte, Oleiros, Vila Velha de Rodão, Proença-a-Nova, Idanha-a-Nova, Penamacor,
Vila de Rei e Cernache de Bonjardim.