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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quarta-feira,

13/11/2019

11:56

PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DE SANTARÉM

"Faltam voluntários e formação nas direções"

01/09/2019 15:34:24

SANTAREM1.jpg"Faltam voluntários e formação nas direções das associações humanitárias"  

                            –  João Furtado, presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Santarém

João Furtado é ainda um estreante no mundo dos bombeiros, discreto evidencia a ponderação de quem ainda está a aprender, mas, também, a determinação de quem chegou para fazer mais e diferente. Tem ideias e projetos para os bombeiros de Santarém e isso mesmo prova-o com trabalho, com o fazer acontecer, mas tudo sem muito alarido aliás, à semelhança da estratégia usada quando, há cerca seis anos, aceitou o desafio de assumir o processo de criação e, consequentemente, a presidência da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Abrantes, uma das mais recentes do País, mas que é já um projeto vencedor surgido da necessidade de qualificar o socorro prestado às populações do concelho, acrescentando valor e meios ao corpo de bombeiros, até então municipal.

 

Sofia Ribeiro (texto)

Marques Valentim (fotos)

 

João Furtado chegou à presidência da Federação de Bombeiros do Distrito de Santarém há poucos meses, quase “obrigado” ou “empurrado” pelos seus  pares, para preencher uma cadeira vazia, que ninguém se mostrava disponível para ocupar, até porque era claro que aquela região do País não poderia ficar à margem do processo reivindicativo ou alheada da discussão sobre os novos desafios para um setor, que, nos últimos anos, tem padecido de demasiadas mudanças, nem todas justificadas ou tão pouco benéficas. Na bagagem levava apenas meia dúzia de ideias, sendo certo que, no arranque, era imperioso pôr a instituição da mexer, dar-lhe a utilidade, responder às solicitações das federadas nomeadamente em matéria de formação não apenas para os operacionais, mas, também para dirigentes, autarcas e até população em geral, fazendo jus da máxima que “todos somos proteção civil”.

 

“A Câmara de Abrantes procedeu sempre de forma transparente pagavam os serviços que eram efetuados. Por aqui não existiam ligas de amigos, nem outros mecanismos artificiais para pagar aos voluntários”

 

O ingresso na causa dos bombeiros de Portugal do agora presidente de federação deu-se há meia dúzia de anos, quando se juntou a grupo de abrantinos para “resolver o problema do corpo de municipais”.

SANTAREM2.jpg“Estávamos no beco sem saída”, confidencia explicando que na origem de todo o processo estiveram questões laborais, associadas ao pagamento dos voluntários que complementavam o trabalho dos profissionais, que acabaram na barra dos tribunais, o que, de alguma forma, deixou a Câmara Municipal de Abrantes numa “situação complicada”. A autarquia acabou por ganhar o processo, mas na realidade o problema subsistia, “aliás subsiste”, pois, como assinala João Furtado sustentado que  “do ponto de vista da Lei, não há forma de contornar esta questão”.

“A Câmara de Abrantes procedeu sempre de forma transparente, limitava-se os serviços que eram efetuados, sendo certo que por aqui não existiam ligas de amigos, nem outros mecanismos artificiais para pagar aos voluntários”, frisa em tom de crítica a um País useiro e vezeiro em “tapar o sol com a peneira”. Confrontada com as estas limitações e perante a incapacidade para suportar um corpo de bombeiros totalmente profissional “entendeu a autarquia ser boa política entregar os bombeiros a uma associação humanitária”. E assim, a 7 de fevereiro de 2013, a gestão do “segundo corpo de bombeiros mais antigo do distrito de Santarém” - não obstante algum ceticismo e outro tanto de polémica - foi devolvido à sociedade civil, num processo exemplar que, certamente, poderá ser replicado em vários outros municípios do País, como aliás já aconteceu, recentemente, no Gavião, distrito de Portalegre.

SANTAREM3.jpgNeste casso e segundo especifica o nosso interlocutor fez o um levantamento de custos relativamente ao corpo de bombeiros municipal, à data de 2012, e limitou-se a dividir essa verba pelos 12 meses do ano, sendo esse o apoio monetário fixo concedido à associação desde 2013. “Sem quaisquer controlos, não interfere na gestão”, fazendo apenas o natural acompanhamento do trabalho desenvolvido pela instituição no âmbito da proteção e socorro ao município. Com um orçamento que ronda 1.5 milhões de euros, esta ainda que jovem instituição, não sobrevive dos subsídios municipal e estatal tendo de procurar receita na formação e nos serviços prestados às população, nomeadamente, o transporte de doentes não urgentes, ou a limpeza de pavimentos.

Quando abraçou este projeto João Furtado tinha à sua disposição um novo quartel e os meios adequados para responder às solicitações do território. Problemas existiam ao nível dos recursos que as mudanças acabaram por potenciar. Uns saíram e outros entraram, mas neste processo o corpo de bombeiros saiu reforçado, contando, atualmente, com cerca de oito dezenas de operacionais.

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Conforme revela o presidente da direção houve necessidade de encontra respostas formativas, nomeadamente, para tripulantes de ambulâncias de socorro (TAS), um bom investimento, como confidencia ao jornal Bombeiros de Portugal, não apenas porque permitiu valorizar e qualificar os operacionais, mas também porque abriu caminho a um projeto-âncora na área da formação para satisfazer necessidades internas e também dos vizinhos. As limitações da Escola Nacional de Bombeiros (ENB) e, também, do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) levaram a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Abrantes a avançar para a certificação nesta área, sendo, presentemente, a única entidade formadora na zona centro do País.

Sobre o que está feito e que fica por fazer, assim em jeito de balanço, o presidente da direção começa por se revelar “avesso a gastar dinheiro” ainda que não se furto ao investimento dando conta das apostas “no primeiro mandato, na formação TAS, na requalificação de meios no pré-hospitalar”. “Já na transição para o segundo mandato”, a prioridade foi o combate os fogos florestais sendo que em 2016, “não por reação mas por opção”, a prioridade foi melhorar a capacidade de resposta, aumentando o número e a preparação de bombeiros e ainda a aquisição de mais três veículos florestais e a requalificação da restante frota. Agora, no terceiro mandato, é dada primazia à profissionalização, reforçando o piquete profissional com uma equipa de intervenção permanente (EIP), em regime de supranumerária e constituída por seis elementos com apoio de duas viaturas, com a missão primeira de garantir prontidão e eficácia na no combate às chamas. No que toca aos incêndios rurais os Voluntários de Abrantes trabalham, ainda, com as populações nos programas “Aldeia Segura e “Pessoas Seguras”, com ações se formação, e ainda que esta não seja uma missão dos bombeiros a associação está determinada, em ampliar a cultura de segurança, nos locais menos protegidos ou mais recônditos, com formação na área do socorrismo.

Com a arrumada, a todos os títulos, “arrumada” em termos operacionais, sobra espaço para outros projetos, nomeadamente a reunião do acervo, dos documentos que permitem contar a história deste corpo de bombeiros com pergaminhos e provas dadas no serviço prestado ao concelho, ao distrito de Santarém e ao País, sempre que são acionados para fora de portas.

 

Não gosto de falar do que não sei, como, também, não entro em debates estéreis, conversas de circunstância ou discussões agressivas”

 

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Da mesma forma (quase) acidental como enfrentou o desafio de fundar de uma associação humanitária, persuadido por alguns amigos acabou, também, por chegar à presidência da Federação de Bombeiros do Distrito de Santarém. O estilo conciliador, o facto ser ainda um “outsider” e “não estar preso a ninguém” acabaram por ser requisitos importantes e que permitiram reagrupar associações e os corpos de bombeiros em prol de um bem comum, até porque muito trabalho está por fazer, como revela João Furtado:

“Na verdade, foi necessário começar do zero, ou do menos qualquer coisa”, considerando, ainda assim, que com passos pequenos e bem calculados é possível devolver dinâmica à instituição.

Defende que a federação tem deve contribuir para a formação dos dirigentes, “pessoas de áreas distintas que conhecem pouco nada desta realidade”, voluntários com demasiadas responsabilidades, que “assinam contas e respondem legalmente pelas associações”. Assinala que muito se fala da crescente falta de disponibilidade dos bombeiros, mas que que a dificuldades em encontrar dirigentes é ainda um “problema escondido”, que, a curto prazo, pode ter impacto negativo na gestão das associações humanitária.   

SANTAREM6.jpgNa tentativa de resolver no presente um futuro problema, a federação está empenhada em investir nesta área, tendo já avançado com as primeiras ações, nomeadamente um curso de Introdução à Proteção Civil, dirigido dirigentes das associações humanitárias, mas também presidentes de câmara e de junta de freguesia, vereadores e técnicos dos serviços municipais. Esta formação, certificada pela Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho, reuniu um grupo de especialistas nacionais no âmbito da orgânica da proteção civil e dos bombeiros, na análise de temas como a legislação, a comunicação interinstitucional, a gestão de operações, ações preventivas e de proximidade, organização dos bombeiros, o relacionamento com as câmaras e a comunicação do risco e da emergência. Futuramente, as formações podem incidir sobre questões como o código de trabalho, contabilidade e finanças e gestão das associações, adaptadas à realidade do setor e dirigidas aos dirigentes.

Embora não tivesse escolhido ser presidente de federação, deixa claro que quando aceitou desempenhar as funções, já não havia volta, teria mesmo de se dedicar ao projeto embora confidencie não o entusiasmar a exposição pública, até porque nos bombeiros não procura mais do apoiar a causa. Prefere ouvir que falar, reconhece, considerando que a participação nos fóruns de bombeiros, nomeadamente nos conselhos nacionais e de federações e nos congressos da Liga dos Bombeiros Portugueses, lhe tem aberto horizontes, até porque “sabia pouco do setor”, contudo nos bombeiros como na vida opta sempre pela discrição:

“Não gosto de falar do que não sei, como, também, não entro em debates estéreis, conversas de circunstância ou discussões agressivas”, assinala.

Engenheiro eletrotécnico, a trabalhar desde sempre na área operacional em centrais termoelétricas, sem muito tempo livre e a gerir horários complicados, João Furtado deixou-se, ainda assim, tocar pela causa, mas sobretudo pela entrega das mulheres e dos homens que “trabalham pelas populações em troca de nada”.

“Existem muitas instituições alimentadas por questões ideológicas, religiosas ou políticas, mas os bombeiros não têm nada para vender, oferecem tão só disponibilidade, importa que isto seja valorizado. Como cidadão defendo que os bombeiros são a única resposta válida no País”, diz-nos.

 

“Quiseram fazer dos bombeiros uma resposta nacional mas, estas associações nasceram como resposta local”

 

“Não sendo operacional ainda sem fazer leituras. Estudo os relatórios ando no terreno e por isso bato-me pela evolução, não por soluções artificiais de curto prazo” ressalva, sustentando:

“Há 50 anos tocavam a sirene e os voluntários apareciam. Hoje a realidade é outra, mas os bombeiros continuam a ser a única resposta local e isto é inquestionável, o que falhou e falha é a resposta nacional, o que ficou, aliás, bem patente em tragédias recentes, mais concretamente nos incêndios de junho e outubro de 2017” considera, para depois colocar o dedo na ferida:

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“Quiseram fazer dos bombeiros uma resposta nacional mas estas associações nasceram como resposta local com a missão, consagrada em Lei, de defender os seus concelhos e os territórios vizinhos e para ajudar outros territórios, isso sim, em situações pontuais e de maior envergadura” frisa para depois observar que “num País em risco de incêndio rural permanente e transversal não faz sentido andar deslocar forças e um lado para outro, cobrindo de um lado e deixando outros a descoberto”.

 

“Por lá, procuram-se soluções, por cá, apenas culpados”

 

“Como é possível culpar os bombeiros do que corre menos bem, quando o que está em causa são fenómenos absolutamente violentos, sem histórico?” indaga, já com uma teoria engatilhada:


“As coisas estão a mudar e, não só por cá, mas no mundo inteiro. Mais, os peritos de outros países, nomeadamente, dos Estado Unidos, da Grécia ou do Chile que nos vêm ensinar coisas têm na verdade respostas, semelhantes às nossa: fracas. A grande diferença é que “por lá, procuram-se soluções, por cá, apenas culpados”.

 

 “(…) depois sobra a questão operacional, mas essa os bombeiros resolvem até porque a sua essência não lhes permite abandonar as populações”

 

Crítico do sistema João Furtado coloca tudo em causa para denunciar toda uma nova organização, na sua opinião não mais, que “uma oportunidade de negócio que permite engordar os orçamentos das várias entidades e forças que integram o dispositivo de combate a incêndios rurais… depois sobra a questão operacional, mas essa os bombeiros resolvem até porque a sua essência não lhes permite abandonar as populações. Os outros intervenientes, apoiadas por uma máquina de propaganda fabulosa, chegam quando chegam, ainda que sempre a tempo de aparecerem nas televisões”, dispara o dirigente que, há pouco mais de meia dúzia de anos “pouco ou nada” sabia destas matérias, mas que estuda, ouve muito de muitos e aprende todos os dias, sobretudo, com os bombeiros, os operacionais que, dentro e fora do quartel, marcam a diferença e que, “de forma alguma devem servir de trampolim” para os que procuram ascensão social ou política.

SANTAREM8.jpgFala, com genuína entrega, de uma “experiência enriquecedora”, de um trabalho gratificante que permite construir alguma coisa para os outros, “para os que trabalham na instituição, para os bombeiros que a servem e para a população em geral”.

Ainda que, por agora, falte tempo para quase tudo, designadamente para a família, este bombeiro, ainda que não envergando a farda, cumpre com orgulho e brio a missão de servir os outros, dando o melhor de si não só Voluntários de Abrantes mas, também, a todos aos outros 27 corpos de bombeiros de Santarém que integram a federação distrital.

 



 

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