PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DE SANTARÉM
"Faltam voluntários e formação nas direções"
01/09/2019 15:34:24
"Faltam voluntários e formação nas direções das associações
humanitárias"
– João Furtado, presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Santarém
João Furtado é ainda um estreante no mundo dos bombeiros,
discreto evidencia a ponderação de quem ainda está a aprender, mas, também, a
determinação de quem chegou para fazer mais e diferente. Tem ideias e projetos
para os bombeiros de Santarém e isso mesmo prova-o com trabalho, com o fazer
acontecer, mas tudo sem muito alarido aliás, à semelhança da estratégia usada
quando, há cerca seis anos, aceitou o desafio de assumir o processo de criação
e, consequentemente, a presidência da Associação Humanitária de Bombeiros
Voluntários de Abrantes, uma das mais recentes do País, mas que é já um projeto
vencedor surgido da necessidade de qualificar o socorro prestado às populações
do concelho, acrescentando valor e meios ao corpo de bombeiros, até então
municipal.
Sofia Ribeiro (texto)
Marques Valentim (fotos)
João Furtado chegou à presidência da Federação de Bombeiros
do Distrito de Santarém há poucos meses, quase “obrigado” ou “empurrado” pelos
seus pares, para preencher uma cadeira
vazia, que ninguém se mostrava disponível para ocupar, até porque era claro que
aquela região do País não poderia ficar à margem do processo reivindicativo ou
alheada da discussão sobre os novos desafios para um setor, que, nos últimos
anos, tem padecido de demasiadas mudanças, nem todas justificadas ou tão pouco benéficas.
Na bagagem levava apenas meia dúzia de ideias, sendo certo que, no arranque,
era imperioso pôr a instituição da mexer, dar-lhe a utilidade, responder às
solicitações das federadas nomeadamente em matéria de formação não apenas para
os operacionais, mas, também para dirigentes, autarcas e até população em
geral, fazendo jus da máxima que “todos somos proteção civil”.
“A Câmara de Abrantes procedeu sempre de forma transparente
pagavam os serviços que eram efetuados. Por aqui não existiam ligas de amigos,
nem outros mecanismos artificiais para pagar aos voluntários”
O ingresso na causa dos bombeiros de Portugal do agora
presidente de federação deu-se há meia dúzia de anos, quando se juntou a grupo
de abrantinos para “resolver o problema do corpo de municipais”.
“Estávamos no beco sem saída”, confidencia explicando que na
origem de todo o processo estiveram questões laborais, associadas ao pagamento
dos voluntários que complementavam o trabalho dos profissionais, que acabaram
na barra dos tribunais, o que, de alguma forma, deixou a Câmara Municipal de
Abrantes numa “situação complicada”. A autarquia acabou por ganhar o processo,
mas na realidade o problema subsistia, “aliás subsiste”, pois, como assinala
João Furtado sustentado que “do ponto de
vista da Lei, não há forma de contornar esta questão”.
“A Câmara de Abrantes procedeu sempre de forma transparente,
limitava-se os serviços que eram efetuados, sendo certo que por aqui não
existiam ligas de amigos, nem outros mecanismos artificiais para pagar aos
voluntários”, frisa em tom de crítica a um País useiro e vezeiro em “tapar o
sol com a peneira”. Confrontada com as estas limitações e perante a
incapacidade para suportar um corpo de bombeiros totalmente profissional
“entendeu a autarquia ser boa política entregar os bombeiros a uma associação
humanitária”. E assim, a 7 de fevereiro de 2013, a gestão do “segundo
corpo de bombeiros mais antigo do distrito de Santarém” - não obstante algum
ceticismo e outro tanto de polémica - foi devolvido à sociedade civil, num processo
exemplar que, certamente, poderá ser replicado em vários outros municípios do
País, como aliás já aconteceu, recentemente, no Gavião, distrito de Portalegre.
Neste casso e segundo especifica o nosso interlocutor fez o
um levantamento de custos relativamente ao corpo de bombeiros municipal, à data
de 2012, e limitou-se a dividir essa verba pelos 12 meses do ano, sendo esse o
apoio monetário fixo concedido à associação desde 2013. “Sem quaisquer
controlos, não interfere na gestão”, fazendo apenas o natural acompanhamento do
trabalho desenvolvido pela instituição no âmbito da proteção e socorro ao
município. Com um orçamento que ronda 1.5 milhões de euros, esta ainda que
jovem instituição, não sobrevive dos subsídios municipal e estatal tendo de procurar
receita na formação e nos serviços prestados às população, nomeadamente, o
transporte de doentes não urgentes, ou a limpeza de pavimentos.
Quando abraçou este projeto João Furtado tinha à sua
disposição um novo quartel e os meios adequados para responder às solicitações
do território. Problemas existiam ao nível dos recursos que as mudanças
acabaram por potenciar. Uns saíram e outros entraram, mas neste processo o
corpo de bombeiros saiu reforçado, contando, atualmente, com cerca de oito
dezenas de operacionais.

Conforme revela o presidente da direção houve necessidade de
encontra respostas formativas, nomeadamente, para tripulantes de ambulâncias de
socorro (TAS), um bom investimento, como confidencia ao jornal Bombeiros de
Portugal, não apenas porque permitiu valorizar e qualificar os operacionais,
mas também porque abriu caminho a um projeto-âncora na área da formação para
satisfazer necessidades internas e também dos vizinhos. As limitações da Escola
Nacional de Bombeiros (ENB) e, também, do Instituto Nacional de Emergência
Médica (INEM) levaram a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de
Abrantes a avançar para a certificação nesta área, sendo, presentemente, a
única entidade formadora na zona centro do País.
Sobre o que está feito e que fica por fazer, assim em jeito
de balanço, o presidente da direção começa por se revelar “avesso a gastar
dinheiro” ainda que não se furto ao investimento dando conta das apostas “no
primeiro mandato, na formação TAS, na requalificação de meios no pré-hospitalar”.
“Já na transição para o segundo mandato”, a prioridade foi o combate os fogos
florestais sendo que em 2016, “não por reação mas por opção”, a prioridade foi
melhorar a capacidade de resposta, aumentando o número e a preparação de
bombeiros e ainda a aquisição de mais três veículos florestais e a
requalificação da restante frota. Agora, no terceiro mandato, é dada primazia à
profissionalização, reforçando o piquete profissional com uma equipa de
intervenção permanente (EIP), em regime de supranumerária e constituída por
seis elementos com apoio de duas viaturas, com a missão primeira de garantir
prontidão e eficácia na no combate às chamas. No que toca aos incêndios rurais
os Voluntários de Abrantes trabalham, ainda, com as populações nos programas “Aldeia
Segura e “Pessoas Seguras”, com ações se formação, e ainda que esta não seja
uma missão dos bombeiros a associação está determinada, em ampliar a cultura de
segurança, nos locais menos protegidos ou mais recônditos, com formação na área
do socorrismo.
Com a arrumada, a todos os títulos, “arrumada” em termos
operacionais, sobra espaço para outros projetos, nomeadamente a reunião do
acervo, dos documentos que permitem contar a história deste corpo de bombeiros com
pergaminhos e provas dadas no serviço prestado ao concelho, ao distrito de
Santarém e ao País, sempre que são acionados para fora de portas.
“Não gosto de falar do que não sei, como, também, não entro
em debates estéreis, conversas de circunstância ou discussões agressivas”

Da mesma forma (quase) acidental como enfrentou o desafio de
fundar de uma associação humanitária, persuadido por alguns amigos acabou,
também, por chegar à presidência da Federação de Bombeiros do Distrito de
Santarém. O estilo conciliador, o facto ser ainda um “outsider” e “não estar
preso a ninguém” acabaram por ser requisitos importantes e que permitiram
reagrupar associações e os corpos de bombeiros em prol de um bem comum, até
porque muito trabalho está por fazer, como revela João Furtado:
“Na verdade, foi necessário começar do zero, ou do menos
qualquer coisa”, considerando, ainda assim, que com passos pequenos e bem
calculados é possível devolver dinâmica à instituição.
Defende que a federação tem deve contribuir para a formação
dos dirigentes, “pessoas de áreas distintas que conhecem pouco nada desta
realidade”, voluntários com demasiadas responsabilidades, que “assinam contas e
respondem legalmente pelas associações”. Assinala que muito se fala da
crescente falta de disponibilidade dos bombeiros, mas que que a dificuldades em
encontrar dirigentes é ainda um “problema escondido”, que, a curto prazo, pode
ter impacto negativo na gestão das associações humanitária.
Na tentativa de resolver no presente um futuro problema, a
federação está empenhada em investir nesta área, tendo já avançado com as
primeiras ações, nomeadamente um curso de Introdução à Proteção Civil, dirigido
dirigentes das associações humanitárias, mas também presidentes de câmara e de
junta de freguesia, vereadores e técnicos dos serviços municipais. Esta formação,
certificada pela Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho, reuniu um
grupo de especialistas nacionais no âmbito da orgânica da proteção civil e dos
bombeiros, na análise de temas como a legislação, a comunicação interinstitucional,
a gestão de operações, ações preventivas e de proximidade, organização dos
bombeiros, o relacionamento com as câmaras e a comunicação do risco e da
emergência. Futuramente, as formações podem incidir sobre questões como o
código de trabalho, contabilidade e finanças e gestão das associações,
adaptadas à realidade do setor e dirigidas aos dirigentes.
Embora não tivesse escolhido ser presidente de federação,
deixa claro que quando aceitou desempenhar as funções, já não havia volta,
teria mesmo de se dedicar ao projeto embora confidencie não o entusiasmar a
exposição pública, até porque nos bombeiros não procura mais do apoiar a causa.
Prefere ouvir que falar, reconhece, considerando que a participação nos fóruns
de bombeiros, nomeadamente nos conselhos nacionais e de federações e nos
congressos da Liga dos Bombeiros Portugueses, lhe tem aberto horizontes, até
porque “sabia pouco do setor”, contudo nos bombeiros como na vida opta sempre
pela discrição:
“Não gosto de falar do que não sei, como, também, não entro
em debates estéreis, conversas de circunstância ou discussões agressivas”,
assinala.
Engenheiro eletrotécnico, a trabalhar desde sempre na área
operacional em centrais termoelétricas, sem muito tempo livre e a gerir
horários complicados, João Furtado deixou-se, ainda assim, tocar pela causa,
mas sobretudo pela entrega das mulheres e dos homens que “trabalham pelas
populações em troca de nada”.
“Existem muitas instituições alimentadas por questões
ideológicas, religiosas ou políticas, mas os bombeiros não têm nada para vender,
oferecem tão só disponibilidade, importa que isto seja valorizado. Como cidadão
defendo que os bombeiros são a única resposta válida no País”, diz-nos.
“Quiseram fazer dos bombeiros uma resposta nacional mas,
estas associações nasceram como resposta local”
“Não sendo operacional ainda sem fazer leituras. Estudo os
relatórios ando no terreno e por isso bato-me pela evolução, não por soluções
artificiais de curto prazo” ressalva, sustentando:
“Há 50 anos tocavam a sirene e os voluntários apareciam. Hoje
a realidade é outra, mas os bombeiros continuam a ser a única resposta local e
isto é inquestionável, o que falhou e falha é a resposta nacional, o que ficou,
aliás, bem patente em tragédias recentes, mais concretamente nos incêndios de
junho e outubro de 2017” considera, para depois colocar o dedo na ferida:

“Quiseram fazer dos bombeiros uma resposta nacional mas
estas associações nasceram como resposta local com a missão, consagrada em Lei,
de defender os seus concelhos e os territórios vizinhos e para ajudar outros
territórios, isso sim, em situações pontuais e de maior envergadura” frisa para
depois observar que “num País em risco de incêndio rural permanente e
transversal não faz sentido andar deslocar forças e um lado para outro, cobrindo
de um lado e deixando outros a descoberto”.
“Por lá, procuram-se soluções, por cá, apenas culpados”
“Como é possível culpar os bombeiros do que corre menos bem,
quando o que está em causa são fenómenos absolutamente violentos, sem histórico?”
indaga, já com uma teoria engatilhada:
“As coisas estão a mudar e, não só por cá, mas no mundo
inteiro. Mais, os peritos de outros países, nomeadamente, dos Estado Unidos, da
Grécia ou do Chile que nos vêm ensinar coisas têm na verdade respostas,
semelhantes às nossa: fracas. A grande diferença é que “por lá, procuram-se
soluções, por cá, apenas culpados”.
“(…) depois sobra a
questão operacional, mas essa os bombeiros resolvem até porque a sua essência
não lhes permite abandonar as populações”
Crítico do sistema João Furtado coloca tudo em causa para
denunciar toda uma nova organização, na sua opinião não mais, que “uma oportunidade
de negócio que permite engordar os orçamentos das várias entidades e forças que
integram o dispositivo de combate a incêndios rurais… depois sobra a questão
operacional, mas essa os bombeiros resolvem até porque a sua essência não lhes permite
abandonar as populações. Os outros intervenientes, apoiadas por uma máquina de
propaganda fabulosa, chegam quando chegam, ainda que sempre a tempo de
aparecerem nas televisões”, dispara o dirigente que, há pouco mais de meia
dúzia de anos “pouco ou nada” sabia destas matérias, mas que estuda, ouve muito
de muitos e aprende todos os dias, sobretudo, com os bombeiros, os operacionais
que, dentro e fora do quartel, marcam a diferença e que, “de forma alguma devem
servir de trampolim” para os que procuram ascensão social ou política.
Fala, com genuína entrega, de uma “experiência enriquecedora”,
de um trabalho gratificante que permite construir alguma coisa para os outros, “para
os que trabalham na instituição, para os bombeiros que a servem e para a população
em geral”.
Ainda que, por agora, falte tempo para quase tudo,
designadamente para a família, este bombeiro, ainda que não envergando a farda,
cumpre com orgulho e brio a missão de servir os outros, dando o melhor de si
não só Voluntários de Abrantes mas, também, a todos aos outros 27 corpos de
bombeiros de Santarém que integram a federação distrital.