PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DE BEJA
Domingos Fabela em entrevista
11/01/2019 12:23:37
“Um dos obstáculos que ainda temos é a resistência à
participação, à mudança”
– Domingos Fabela,
presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Beja

Professor aposentado com estreitas ligações a Serpa, onde
nasceu e onde cumpre como dever cívico a participação ativa nas coisas e nas
instituições da terra, Domingos Fabela, não poderia deixar de estar ligado aos
bombeiros da sua terra natal que, aliás, acabaram por o levar à presidência da
Federação de Bombeiros do Distrito Beja.
Sofia
Ribeiro (texto)
Marques Valentim (fotos)

Domingos Fabela abraça a causa em 1998, quando a convite de
um de um colega “também professor” numa época em que os Bombeiros de Serpa
vivam “tempos conturbados”, passadas mais de duas décadas, debeladas esta e várias
outras crises, umas locais e outras tantas nacionais, o dirigente não mais se
distanciou das problemáticas do setor que continua a viver intensamente, com
muita preocupação, mas, também, com muita paixão.
Casado, pais de dois filhos, Domingos Fabela nasceu em
Serpa, em 1955, no seio de uma “família grande”. O mais novo de seis irmãos concluiu
o magistério e começou a lecionar em 1976. No início de carreira andou por
muitas das então escolas primárias do Alentejo, mas acabou por se fixar em Serpa. Licenciou-se
anos mais tarde, por opção manteve-se no primeiro ciclo, sendo responsável pela
formação de base de mais de 600 crianças, reformou-se com 32 anos de carreira.
“Acho caricata esta situação nos bombeiros, somos sempre os
mesmos”
No final da década de 90 do século passado aceitou o convite
para vice-presidente da direção da Associação Humanitária de Bombeiros
Voluntários de Beja, cumpriu dois mandatos e decidiu afastar-se para “abrir
caminho à renovação”. Dois anos depois, foi novamente “desassossegado” para
ocupar a cadeira que deixou vaga e que aliás ainda hoje ocupa.

“Acho caricata esta situação nos bombeiros, somos sempre os
mesmos”, desabafa alertando para a crise no voluntariado que, não só está a
roubar bombeiros aos quartéis, mas, também, dirigentes às associações, porque,
na realidade, a disponibilidade é cada vez menor, mas maior o grau de exigência
na gestão destas instituições, que requerem tempo, trabalho e muita
responsabilidade.
“Temos projetos e objetivos, caso contrário não vale a pena.
Passar por aqui para ver se há dinheiro e passar cheques não são tarefas que
nos agradem”, diz-nos Domingos Fabela, revelando que esta equipa, ao longo dos
anos, tem vindo a traçar metas que permitiram, tirar partido das candidaturas a
fundos comunitários e avançar com a renovação do parque automóvel e a aquisição
de equipamentos vários.
“Aqui nesta casa existe uma grande preocupação com estas
mulheres e estes homens, com os nossos bombeiros”
“Aqui nesta casa
existe uma grande preocupação com estas mulheres e estes homens, com os nossos
bombeiros, os voluntários e os assalariados”, revela o dirigente da associação
humanitária de Serpa, dando conta da responsabilidade social desta instituição
que dá emprego a mais de 30 pessoas, sendo já a terceira maior empregadora do
concelho. Este investimento na profissionalização que obviamente tem custos
elevados, foi a solução encontrada para que a associação pudesse continuar a
prestar um serviço de excelência ao concelho, pois, também por aqui, os
voluntários, ou a falta deles, constitui um problema.
“Temos um orçamento que ronda um milhão de euros, já com
peso… portanto só nos resta gerir, coordenar esta estrutura da melhor forma”,
frisa para defender que só um pleno entendimento, “uma ligação muito estreita”,
entre a direção e comando, a par com a entrega dos bombeiros, permitem levar
esta embarcação a bom porto.
Também em 2005, desafiado pelo então presidente da Federação
de Bombeiros do Distrito, Luís Bartolomeu, integra os órgãos sociais daquela
estrutura, mas só no mandato seguinte (2009), cedendo à pressão de dirigentes e
comandantes, avançou com a candidatura à presidência.
“Um dos obstáculos que ainda temos é a resistência à
participação, à mudança”
Recorda que quando assumiu funções encontrou um grupo
desmotivado e pouco participativo nas iniciativas da federação e da Liga dos
Bombeiros Portugueses, longe dos centros de decisão e arredado das questões que
ao setor importam, embora no Alentejo, as associações humanitárias se debatam
com problemas muito semelhantes aos das congéneres de qualquer outro ponto do
País.
“Um dos obstáculos que ainda temos é a resistência à
participação, à mudança. Por aqui as pessoas ainda pensam que o que possam
fazer não terá impacto, não resolverá nada, não fará a diferença e mudar essa
mentalidade tem sido complicado”, revela o nosso interlocutor, reconhecendo,
contudo, “algumas mudanças” que atribui à entrada dos comandantes nos órgãos
sociais da federação.
O presidente lamenta ainda que vencer distâncias num
distrito de grandes dimensões ainda é uma dificuldade, maior para dos
dirigentes, pelo que a utilização das novas ferramentas de comunicação tem-se
revelado fundamental para fazer passar a mensagem, para manter direções e
comandos devidamente atualizados mais ainda nesta fase marcada por inúmeros
acontecimentos e em que se perspetivam mudanças de vulto no setor. Domingos
Fabela defende ainda que cabe aos dirigentes e aos elementos de comando
comunicar com os bombeiros envolvendo-os em todo o processo, para que não se
sintam à margem numa estrutura em que afinal só existe por eles, porque eles
decidiram cumprir o lema “vida por vida”.
Beja enfrenta sérios problemas em atrair jovens para a
causa, aqueles que na realidade serão o futuro destas instituições, que
garantirão o pleno funcionamento dos quartéis. A interioridade, a falta de
emprego, a debandada para as grandes metrópoles e o envelhecimento da população
são realidades impiedosos, ainda assim existem no distrito iniciativas várias
que visam captação de crianças e jovens para a causa, conforme salienta Domingos
Fabela, dando conta do trabalho desenvolvido e dos “resultados animadores”
obtidos pelos Voluntários de Castro Verde, Alvito, Odemira e Ourique com a
criação e dinamização das escolas de infantes e cadetes
“Que incentivos podemos dar a um jovem para passar a noite
no quartel? Que motivação têm para vir fazer um piquete? O que temos para lhes
dar que justifique deixaram o conforto do lar ou de sair com os amigos? indaga,
defendendo caber ao Governo, em primeira instância, e sem mais delongas, mas,
também, às autarquias investir nesta matéria.
“Aqui em Beja, como em qualquer outro distrito do País, não
existem duas realidades iguais. Neste distrito temos autarquias que andam com
as suas associações ao colo e outras que as ignoram”, refere o dirigente
federativo, dando como bons exemplos, as parcerias fomentadas pelas câmaras
municipais de Moura e Odemira, em sentido contrário existem alguns “casos”
menos bons, que estão na origem de situações “delicadas”, sobre as quais
Domingos Fabela prefere guardar reserva.

Domingos Fabela esteve ainda, até ao final do ano passado,
na assembleia geral da Misericórdia de Serpa, mas volvidos 12 anos, achou ter
chegado o momento de deixar a instituição, porque considerou “ter chegado a
hora de desligar de fechar um ciclo”, mas não de fechar a porta, até porque
“pode ser que volte mais tarde”.
Aposentando, o antigo professor primário reconhece, tem mais
tempo para se entregar ao voluntariado, mas, garante que não foi a maior
disponibilidade que omobilizou. Fala de um “dever” para
com a sociedade que o impeliu a colaborar com estas instituições que tanto
fazem pelos outros.