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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

terça-feira,

27/06/2017

11:17

Queremos aquilo que outros não querem

28/04/2017 15:59:01


bnnn.jpgA pergunta é pertinente mas, a meu ver, também tem resposta fácil. Pode é a solução não ser tão fácil, mas a Liga dos Bombeiros Portugueses tem vindo a reforçar a necessidade das comissões distritais de reequipamento. Trata-se de questionar sobre a razão “porque queremos aquilo que outros não querem”, conforme o bombeiro Luis Rock avançou em artigo de opinião inserido recentemente no “BPS”. A meu ver, artigo bem pensado, bem estruturado e tema infelizmente oportuno.

O artigo é suscitado pelo conhecimento, nos últimos tempos, da aquisição, em França, de veículos florestais de combate a incêndios usados, alguns de 1993 ou até mais antigos. O próprio autor do artigo reconhece que até a sua própria Associação dispõe de 5 viaturas nessas condições, razão pela qual, não emitindo propriamente crítica, não deixa de se questionar sobre a lógica desta situação, mesmo que, mesmo assim, ficando evidenciadas as vantagens técnicas e económicas de tal iniciativa.

Trata-se de uma questão antiga, diria secular, dado que, em abono da verdade, se coloca desde o início das próprias associações de bombeiros em Portugal.

Nenhuma delas nasceu desafogada e, em momento algum, dispôs exactamente daquilo que pretendia em circunstâncias, eu diria, normais. Quer dizer que a obtenção de equipamentos e, no caso concreto, de viaturas, face à escassez dos meios ideais, esteve sempre envolvido em grandes doses de generosidade, apego, dedicação, improviso e também desenrascanço. Aponto todos esses epítetos sem qualquer carácter pejorativo, como alguns às vezes pretendem fazer crer mas, ao contrário, como sinal evidente de dedicação e determinação em obter o possível para prestar melhor socorro. Foi sempre assim e tem continuado a ser assim.

Diz-se que, quem não tem cão caça com gato, e os bombeiros são verdadeiros campeões nessa capacidade. Ao longo dos tempos, não dispondo dos meios, não deixaram de adaptar e adequar viaturas a novas funções e à instalação nelas de novas ferramentas e equipamentos.

Houve diferentes épocas. Houve o tempo das carretas, das macas rodadas, das bombas braçais, muitas vezes adaptadas. Houve tempo da transformação de veículos civis para o transporte de bombeiros e equipamentos de socorro. Houve tempo de aceitar antigas viaturas militares de diferentes formatos e fins para autotanques, veículos de apoio, de combate ou de comando. Neste caso, até houve que lutar por matrículas e pela respectiva legalização das próprias viaturas. Houve tempo de aproveitar antigos autotanques de gasolineiras. Houve tempo de ir lá fora, em diferentes épocas, a Espanha, Alemanha, Holanda, Bélgica, e até aos Estados Unidos da América em busca de viaturas.

Perante a adversidade da escassez de recursos os bombeiros nunca baixaram os braços, nunca se deixaram vencer, nunca se resignaram. E, de uma maneira ou outra, buscaram sempre as soluções na certeza de que, não podendo alcançar o óptimo, ao menos conseguissem obter o possível.

A propósito, não posso deixar de saudar os extraordinários artífices, e elogiar o seu denodo e esforço, que nas nossas associações fizeram verdadeiros milagres ao longo de muitos anos. Na ânsia de poupar recursos e garantir a disponibilidade de meios, esses extraordinários bombeiros operaram verdadeiros milagres na adaptação, adequação, recuperação e até restauro de muitas viaturas. Situação que ainda hoje acontece e que tem merecido o elogio das próprias associações e comunidades locais.

E voltamos à questão posta pelo João Rock, ou seja, porque razão continua a ser necessário ir a outras paragens à procura das soluções que nem o Estado, nem já as verbas comunitárias satisfazem?

Ao longo do tempo houve sempre quem defendesse que caberia ao Estado prover as associações de todas as viaturas de socorro necessárias com base na tipificação. Nunca assim aconteceu em termos globais.

O Estado tem satisfeito apenas algumas das necessidades mas muito aquém daquilo que pode ser considerada a dotação mínima.

As associações socorrem-se de meios próprios, de peditórios, das autarquias e dos benfeitores para garantir tudo o resto, que é muito, em muitos casos a quase totalidade.

 A tipificação, eu diria, nos termos em que é encarada e utilitariamente enunciada tem dias, ou seja, vai servindo para algumas teses, mas na realidade nem defende nem satisfaz o que se pretende. Existe, na verdade, para condicionar muita coisa, mas obsta ou até dificulta a busca e o alcance de soluções.

Quantos viram viaturas chumbadas em candidaturas por “aparentemente” disporem de meios considerados suficientes pela tipificação. Todos sabemos que isso é um embuste, que a Liga dos Bombeiros Portugueses tem denunciado amiúde, mas que muitos têm evitado debater em profundidade e em conteúdo, como se costuma dizer, assobiando para o ar.

Se, em muitos casos, os bombeiros não tentassem obter as viaturas usadas, em França e noutras paragens, o panorama seria bem pior. Isso é certo. Se é a melhor solução, obviamente que todos discordarão. De facto, não é a melhor solução mas é a possível à falta de melhor.

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

 

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