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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

22/10/2018

12:38

O que valem os mortos

05/04/2018 11:23:16


Quantas pessoas morreram nos incêndios florestais de 2017, mais de uma centena, e quantas pessoas morreram desde o início do ano, em apenas três meses, em incêndios urbanos, em acidentes de viação, vítimas de doenças súbitas ou até, qual flagelo urbano, encontradas após abertura de porta com socorro, mais de meia centena.

O tema não é fácil, mas atrevo-me a abordá-lo, pelo seu significado, pela sua importância social, pela sua proximidade inevitável aos bombeiros. Entre todos os cidadãos, os bombeiros, serão aqueles que estão mais próximos do tema e sobre o qual poderão falar, sempre na primeira pessoa, ou seja, na qualidade de alguém que frequentemente lida com ela porventura nas circunstâncias mais dramáticas e mais cruas da vida.

Independentemente da frequência com que o façam, e de alguma resistência emocional defensiva que vão conseguindo acumular, certo é que o bombeiro nunca fica indiferente a uma morte, particularmente quando ocorre após a luta do próprio bombeiro com ela, na tentativa de procurar reverter uma situação de paragem cardio-respiratória. O bombeiro aprende a respeitar a morte, a tratá-la por tu e, sempre que consegue e se torna possível, com a mesma convicção, tenta sempre dar-lhe luta.

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Quantas vezes são os bombeiros a detectar a existência de vítimas mortais em cenários dantescos e arriscados para os próprios. Quantas vezes são os bombeiros os últimos testemunhos e apoio de vítimas entretanto falecidas à sua beira em acidentes ou incêndios. Quantas vezes são os bombeiros, com risco da própria vida, a negar à morte tantos acidentados e vítimas de incêndios com resgates impensáveis, quase impossíveis mas bem concluídos. Quantas vezes são os bombeiros os primeiros a ter que fazer a ponte com os familiares das vítimas mortais. Quantas vezes são os bombeiros a lidar com tantos destes problemas a par de muitos outros das suas próprias vidas particulares.

Falar da morte na sociedade portuguesa é algo que não é fácil, pelo choque que provoca, pelas reservas e preconceitos que lhe estão associados, pela delicadeza e impacto que causa sempre, seja quando ocorre inesperadamente, ou mesmo quando é aguardada devido a progressão de doença.

Habitualmente lidamos mais com a morte dos que nos são próximos, familiares, amigos ou conhecidos. Mas os bombeiros, ao contrário, contactam com todas as situações, de conhecidos ou não, próximos ou não, amigos ou não. E em todas essas situações cabe-lhes responder com competência, com conhecimento mas também com um coração, que sendo igual ao de tantos outros, contudo, é chamado a um esforço redobrado.

As mulheres e homens bombeiros não são, nem super mulheres nem super homens, nem serão porventura melhores que os outros cidadãos mas são, sem dúvida, diferentes. Diferentes na disponibilidade, diferentes na abnegação, diferentes no sentir e acompanhar o sofrimento dos outros. Diferentes na tentativa de lutar contra a morte, procurando vencê-la no resgate a feridos e sinistrados, bem como diferentes no respeito pela própria morte.

O País chorou com especial ênfase os mortos ocorridos nos incêndios florestais do ano passado e os bombeiros acompanharam-no nessa dor. No entanto, os bombeiros fazem-no todo o ano, todos os dias. E fazem-no sempre, não obstante o País, no dia a dia, parecer ficar indiferente a tantas outras mortes que a lógica mediática transforma em rotina comum mas que para os bombeiros valem tanto, doem tanto como as outras. Para os bombeiros todos os mortos valem tudo e merecem um enorme respeito.


Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

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