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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

sábado,

18/11/2017

02:44

O primado da velocidade

03/11/2017 09:52:33

Hoje pretendo aqui fazer, sem rebuço nem reservas, a apologia das redes sociais, mesmo se o que aqui possa citar deslustre muito o como se faz e o que se diz nelas. A questão está em analisar as redes sociais, o seu papel fundamental no desenvolvimento da sociedade actual, a sua missão fulcral no abater de barreiras e outros obstáculos que se levantam ao debate e ao conhecimento mas, também, sem iludir as más práticas que, na realidade, contradizem e podem por em causa todos esses princípios e objectivos primordiais.

Como é sabido, a invenção da pólvora mudou o mundo e, a partir daí, nada foi igual. A pólvora foi pensada e desenvolvida na lógica do desenvolvimento e é aí que tem tido um papel importante. O mesmo se passou com a democratização do livro há séculos atrás, quando passou a ser objecto de consumo comum e já não privilégio de uma elite. A história abunda em situações, particularmente em relação ao livro, que nos identifica os temores, até os pavores, que essa revolução europeia e depois universal causou no acesso à informação, na sua ampliação, vulgarização e velocidade.

A pólvora, o livro e até as redes sociais têm em comum o facto de serem, sem dúvida, excelentes ferramentas. Na certeza de que o problema não está na ferramenta mas na forma como é utilizada.

Hoje em dia, a velocidade é uma das maiores qualidades das redes sociais, facto que, só por si, não pode nem deve pô-las em causa, assim se saiba tirar partido dessa qualidade, se integrada e articulada no conjunto das restantes que também se lhes reconhecem.

Henrique Monteiro, subdirector do jornal “Expresso” escreveu recentemente que “as sociedades passaram a preferir avaliar a eficácia com que se transmite qualquer coisa, ao conteúdo da mensagem”.

Este alerta é importante e radica, não na bondade das redes sociais, mas precisamente no modo como elas são utilizadas e para que fins.

Reconheço que ao longo do tempo, mesmo que se reconheça que as redes sociais mal passaram da juventude, muito tem sido feito no seu seio para as valorizar, não só nas suas performances operacionais mas também, e em especial, nos seus conteúdos, na sua linguagem e na sua autenticidade.

Ao fazerem-se reconhecer pela rapidez, só por si importante na sociedade moderna, as redes sociais têm primado também pela busca da credibilidade dos seus conteúdos. E, não sendo obviamente um processo fácil, tendo em conta inclusive a multiplicidade de grupos sociais e das culturas em presença, é justo reconhecer o esforço desenvolvido no sentido de construir melhores redes sociais, mais responsáveis e mais credíveis.

O desafio digital apresenta-se com uma velocidade e até uma verdadeira vertigem e ebulição, porventura entusiasmantes, mas a exigir um espírito analítico e crítico apurado para que se tire partido dessas fascinantes características, sem cair na torrente inebriante que possa transportar para terrenos pouco recomendáveis ou até indesejáveis.

O apetite é grande mas o risco associado é também enorme, facto que só por si, não pode nem deve por em causa a ferramenta desde que a sua utilização se compagine com regras e princípios universais.

Pedro Jerónimo, professor e jornalista, afirmou recentemente que nas redes sociais “ a lógica do confirmar primeiro e publicar depois tem-se invertido com demasiada frequência” e continua, sublinhando que “hoje, mais do que nunca são precisos jornalistas mais fiéis à ética e deontologia de sempre do que às modas ou deslumbres do momento”.

No entender de Miguel Sousa Tavares, as redes são “o lugar privilegiado para a ditadura da opinião e a execução sumária e maciça de quem pensa diferente” e que”não consente qualquer forma de defesa de quem é atacado ou de quem, simplesmente, ousa contradizer o que o “efeito viral” já estabeleceu como verdadeiro ou politicamente adequado”.

Para o mesmo articulista, as redes sociais traduzem “a renúncia colectiva em troca do facilitismo de tomar como informação fidedigna o que nos dá mais jeito, o que está na moda ou o que apenas ouvimos dizer a outros é o caminho garantido para um abismo insondável”.

Miguel Sousa Tavares lembra também que as redes sociais acolhem tantas vezes a devassa da vida privada, a calúnia de opinião e a execução sumária assumindo que a tudo isso se associa a “cobardia que o anonimato consente e promove”.

As redes sociais são isto, não são só isto, mas também são isto.

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Hoje, as redes sociais, como atrás disse, fazem-se reconhecer pela rapidez mas também, e cada vez mais, pela credibilidade dos seus conteúdos. E, mesmo que as reservas que aqui citei e outras possam objectar a utilização delas, em abono da verdade, é justo reconhecer que esse panorama está a mudar e, sublinhe-se, são os próprios utilizadores que o querem fazer.

Não se queira deitar fora aquilo que é bom, por princípio, quando há quem não saiba ou não queira saber utilizá-lo.

No universo dos bombeiros as redes sociais têm evoluído de forma muito positiva. O arranque pode não ter sido auspicioso, não em função dos projectos, desde logo positivos, mas tendo em conta o tipo de utilização.

Hoje muito se evoluiu. Vislumbra-se nesse domínio um patamar consolidado de amadurecimento e consolidação também muito positivo. O escárnio e maldizer, inclusive a coberto do anonimato, de outros tempos, felizmente, evoluiu. O dia-a-dia poderá não ajudar a mensurar essa mudança significativa mas será injusto não o reconhecer.

Os blogues, portais, sítios permitem hoje uma conexão rápida e positiva. Mas, mesmo com a rapidez própria da ferramenta, importa que essa transformação, direi melhor, essa metamorfose se faça com apuro técnico e igualmente com apuro do conteúdo.

Poderão continuar a haver no sistema franco-atiradores ou “snipers” mas serão cada vez menos em função da capacidade que formos tendo de valorizar e adequar esse sistema a uma ética própria.

Comecei por falar na pólvora, no livro e depois nas redes sociais. São excelentes ferramentas que importa saber utilizar para que nos possam também ajudar a singrar por novos caminhos, sob o primado da velocidade mas também do conteúdo.

Parabéns a todos os que no mundo dos bombeiros têm sabido navegarem nas redes sociais com tanto espírito de aventura e risco, como com tanto critério e espírito construtivo.

Desse modo, de meros espectadores, tornam-se em excelentes e preciosos auxiliares e participantes na mudança que se opera hoje e se vai continuar a fazer no mundo dos bombeiros.

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

 

 

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