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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quinta-feira,

17/08/2017

16:20

O culto dos mortos

03/07/2017 14:59:23

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No universo dos bombeiros, como é sabido, há um verdadeiro culto dos mortos. Culto muito positivo que associa o historial de cada associação e corpo de bombeiros a pessoas em concreto, que lembramos com orgulho, cuja memória saudamos e homenageamos a bem do passado, do presente e do futuro.

Saudamos essa memória colectiva, a bem do passado, no sentido de salvaguardar e valorizar o legado que nos deixaram. Lembramos a instituição mas, acima de tudo, cada um daqueles que ao longo dos tempos estiveram associados desde a sua fundação às sucessivas épocas e períodos que se seguiram e durante os quais nela se deram passos importantes.

Em cada associação temos uma galeria de figuras do passado a quem devemos tudo o que se passou, até muitos de nós termos recebido o testemunho e prosseguido o caminho.

Quantas dificuldades terão encontrado e vencido os que nos antecederam. Que circunstâncias pessoais e institucionais terão rodeado esses momentos. Com que angústias, com que obstáculos, com que adversidades terão lutado, não por defenderem interesses pessoais, mas em prol do bem comum, da satisfação das necessidades e do bem-estar da sua comunidade.

Quantas frustrações terão sentido por não conseguirem chegar onde pretenderam, desconhecendo que os vindouros finalmente lá chegaram. Quantos sonhos elegeram como desafios, tantas vezes só alcançados após o seu desaparecimento.

Quando cada um de nós consegue atingir um objectivo na sua associação terá por certo que pensar e considerar que a sorte lhe reservou esse momento, para o qual muitos outros trabalharam, às vezes ao longo de muitas décadas.

Dou-vos o exemplo da associação de que faço parte relativamente à concretização do primeiro quartel construído de raiz, que foi possível erguer há 22 anos com a equipa de que faço parte, mas cuja concretização foi luta permanente dos vários presidentes que nos antecederam e mérito que tem que ser atribuído e partilhado com todos eles.

Quantas vezes, quando se trata de tomar uma decisão difícil, que possa vir a ter consequências especiais, eu próprio faço apelo à memória daqueles que repousam no talhão da nossa Associação para que nos possam ajudar a decidir. Muitos deles com quem convivi e aprendi e outros, com quem já não tenha lidado, mas que deixam na memória colectiva que nos é transmitida registos do muito trabalho e dedicação à instituição, à causa dos bombeiros e que muito nos confortam.

Quando há que decidir em momentos difíceis e nos recordamos do legado que os mortos nos deixam, porventura, a opção a tomar estará confortada e apoiada nele.

A minha sensação é que não estamos sozinhos, a cada momento contamos com a presença de todos eles. Vejo-os vivos, activos e participantes como se o tempo voltasse atrás ou pura e simplesmente tivesse parado de modo a todos podermos privar uns com os outros.

O culto dos mortos nos bombeiros é o culto dos vivos, mesmo que desaparecidos, mas cuja memória permanece de facto viva, actuante, no sentido de influenciar e ajudar a acautelar a longevidade das nossas associações. Segredo tão simples mas nem sempre fácil de explicar ou entender por quem não vive a realidade dos bombeiros e do voluntariado.

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

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