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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quinta-feira,

06/08/2020

07:37

Nada como antes

15/05/2020 11:19:23

A expressão é já um lugar comum, mas á falta de melhor irá por certo continuar a ser usada: nada no futuro será como antes.

As associações viveram e estão ainda a viver um dos momentos mais difíceis da sua história secular. Ao longo do seu tempo de vida mais ou menos longo, que se reflete em muitas gerações e épocas, viveram um conjunto diversificado e dramático de momentos em que a capacidade de resposta esteve ameaçada e também a sua própria sobrevivência. Tal como agora aconteceu.

Num futuro próximo, mas não agora, estaremos em condições de fazer um balanço da pandemia que estamos a viver e perante a qual a resposta dos bombeiros esteve mais uma vez presente e em força.

TRANSPORTE-DE-DOENTES.jpgHá muitas razões para dizermos que no futuro nada será como antes. Desde logo, o isolamento físico a que estivemos condicionados, só por si, irá suscitar mudanças importantes. Tenha-se em conta também os processos para que os cidadãos foram também arrastados, de desemprego, layoff, dificuldades sentidas de forma brusca e profunda no seu dia a dia. E, por fim, mais difícil ainda, o reflexo da própria pandemia, os mortos causados e o luto que os familiares ficaram impossibilitados de fazer, os muitos infetados, a quarentena a que milhares foram obrigados, o medo, a desconfiança social entre pessoas e até a descriminação social.

Neste cenário, os bombeiros fizeram parte, primeiro como cidadãos iguais aos outros sujeitos aos contratempos e riscos que a pandemia gerou em todos e, em segundo lugar, numa missão abnegada de fazer aquilo que os outros não fizeram, ou seja, continuar a prestar socorro a todos, continuar a transportar doentes não urgentes enquanto foi possível e nos termos em que tem sido possível, e a fazer face de início a uma situação em que os riscos aumentaram exponencialmente e em tempo útil não foram acompanhados nem de orientações nem de meios, nomeadamente EPI. Sobre isso também importa no futuro fazer um balanço sobre as razões que levaram a que fossem formalmente preteridos de uma suposta estrutura criada só para o COVID 19 quando na realidade desde o primeiro dia passaram a fazer precisamente o mesmo que os outros faziam.

Uma das áreas onde, estamos em crer, também nada será como antes é o transporte de doentes não urgentes. Esse serviço tem estado suspenso e apenas prosseguiu o transporte de doentes hemodialisados segundo regras restritivas, que até podemos compreender, mas que arrastou as associações para mais um problema.

Todos sabemos que a pandemia, em geral, criou enormes dificuldades, desde logo, provocadas pela quebra abrupta e imediata de receitas geradas pelo transporte de doentes, mas, também, com o aumento exponencial de despesas com aquisição de EPI, desinfetantes e outras ferramentas necessárias para fazer face á situação, á margem de outros apoios que, entretanto, também foram chegando para esse efeito.

Recorde-se que inicialmente a Direção Geral de Saúde tentou unilateralmente impor que as viaturas dos bombeiros só podiam transportar um doente hemodialisado de cada vez e que foi a pressão da LBP que levou a que fosse revista essa exigência para três. Pontificou a impossibilidade de meios humanos e viaturas disponíveis e também o descalabro económico que essa medida iria acarretar. E, todos sabemos, que a restrição ainda em curso para mais de três doentes hemodialisados tem forçosamente um caráter excecional razão pela qual não poderá perdurar muito no tempo.

A retoma do transporte de doentes não urgentes, tão necessário às comunidades locais e às finanças das associações, contudo, não pode ser feita de forma automática e segundo regras e condições que a pandemia inevitavelmente veio por em causa e continuará a fazê-lo.

Nos vários fóruns a LBP tem vindo a chamar a atenção para isso. Tem defendido uma volta à normalidade sustentada, ou seja, desde que acauteladas as normas de distanciamento físico e os meios para tal, os riscos de contágio entre doentes e bombeiros, mas também a viabilidade económica do serviço.

Por isso, parece não haver dúvida de que os bombeiros não podem nem devem retomar o transporte de doentes sem que, conforme defende a LBP, sejam avaliadas bilateralmente as condições do seu exercício e os termos do seu ressarcimento económico.

Retomar o serviço sem que estejam pensadas e acordadas mutuamente as novas regras será um tiro no escuro e, direi mais, uma fatalidade mais que anunciada.

Todos têm tido conhecimento dos alertas da LBP à ministra da Saúde sobre estes assuntos, mas que, até à data em que escrevo estas linhas não tiveram eco suficiente, razão pela qual continuaremos a apoiar a LBP nessa posição de defesa das associações e dos bombeiros portugueses.

                                                                            Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

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