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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

10/12/2018

21:56

Importa louvar quem nos ajuda

03/08/2018 10:16:29

À história das nossas associações juntam-se sempre nomes de cidadãos e entidades cuja atenção para com elas deve merecer reconhecimento e testemunho permanente.

Esses cidadãos e entidades primam, em geral, pela sobriedade de atitudes, pela vontade de passarem despercebidos e até anónimos, evitam a visibilidade e resistem à exposição mediática.

A nobreza dessas posturas, porém, esbarra com a vontade das associações e dos seus bombeiros poderem publicamente dizer obrigado e apresentar esses benfeitores como um exemplo de solidariedade e responsabilidade social por excelência.

Percebendo a lógica da atitude das associações alguns deles admitem aparecer e aceitam ser homenageados. As associações querem apresentá-los como exemplo a seguir por outros e eles aceitam a homenagem para também poderem enaltecer o trabalho dos bombeiros e a justiça do apoio com que os beneficiam.

Nas memórias das associações, ao longo dos anos, vamos encontrando os mecenas e benfeitores que ficam sem dúvida associados aos enormes desafios a que elas então se abalançaram. É comum vermos registados na pedra ou em molduras fotográficas em zonas nobres dos quartéis as figuras que ficaram intrinsecamente ligadas à construção do quartel, à obtenção de equipamentos, ou à edificação de outras infraestruturas da instituição. E, em muitos casos, esses apoios perpetuaram-se no tempo, repetidos vezes sem conta, e sempre com o mesmo objectivo, de ajudar, de apoiar, de dar força, de estimular os bombeiros e os seus dirigentes associativos a prosseguirem com a sua missão.

É na escala local que as associações de bombeiros têm conseguido garantir os apoios, inclusive, para fazerem face à solidariedade a que são chamados no socorro fora desse âmbito noutras zonas do país. Nesse sentido, os apoios obtidos, mesmo que com origem local, acabam por ter incidência e eficácia regional e até nacional.

Aos apoios particulares aos bombeiros estão associados muitos milhões de euros. De forma crescente, também, as autarquias têm vindo a estruturar melhor e a aumentar os apoios concedidos às associações do seu concelho. Uns e outros ajudam a responder às necessidades prementes dos bombeiros, seja na aquisição de viaturas, de equipamentos diversos, em obras ou até em formação. Refira-se que, por exemplo, boa parte da formação dos bombeiros em tripulantes de ambulância de socorro é obtida junto de entidades privadas com o apoio dos mecenas ou das autarquias.

Como disse, são milhões de euros obtidos junto de entidades e cidadãos, substituindo o Estado faltoso e incumpridor. Não se trata de lugar comum dizê-lo, mas antes uma mera constatação, tendo conta as necessidades dos bombeiros perfeitamente identificadas e justificadas, e os meios que lhes são facultados para tal pelo Estado.

Em abono da verdade, os apoios do Estado e das entidades particulares e cidadãos, deveriam, no mínimo, ser complementares. Mas, na maioria dos casos, o que se regista é um enorme fosso, um grande défice entre o que era suposto ser contributo de uns e outros e a realidade.

Em face da ausência do Estado, da demissão ou do divórcio das suas estruturas perante o que dão e deveriam dar, os mecenas e benfeitores acabam por ser fundamentais à sustentabilidade técnica e financeira das associações.

Não se trata apenas de recriminar ou lançar culpas sobre o Estado mas, em termos comparativos, e muito directos, sem sofismas, nem falsas questões, fazer contas entre o que cada um dá, as responsabilidades que cabe a cada um satisfazer e os resultados disso.

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Hoje em dia há associações que conseguem manter vivas tradições locais com as quais conseguem obter periodicamente apoios significativos. É o caso dos cortejos de oferendas, em que associam os bombeiros, as juntas de freguesias e as comunidades locais, cuja prática ainda hoje se mantém em muitos sítios. Ou, até, as visitas, dos bombeiros, comandos e dirigentes, calcorreadas pelas várias freguesias na busca de apoios para equipamentos específicos. Iniciativas através das quais também se tenta aumentar o número de associados.

Aliás, tenha-se em conta os associados. Nos tempos que correm, de facto, o contributo deles para o orçamento da associação é já apenas simbólico, mas outros tempos houve em que eram uma base sólida de suporte. Com o evoluir dos tempos, esse contributo veio diminuindo e, nos dias de hoje, na maioria das associações já só representará entre 10 a 20 por cento das suas receitas.

Neste caso, não obstante, haverem casos de êxito em associações com muitos milhares de associados, nas restantes a realidade é bem diferente. Neste domínio, a forma como hoje a sociedade encara os seus bombeiros, dando-os como certos na resposta, como garantidos na sua prontidão e eficácia, sem cuidar de saber, ou desvalorizar, de que modo e com que meios isso é satisfeito deverá ser tema de reflexão e debate sério. Debate no interior das próprias associações, mas também dentro da sociedade.

O sentimento de pertença das associações às respectivas comunidades, contínua vivo, mas, nos dias de hoje, nem sempre a correspondência delas é nesse sentido.

As associações nasceram e desenvolveram-se a partir da vontade e da decisão das comunidades. Essa é a sua matriz identitária e a escala primordial a que intervêm. Sem esquecer tudo isso, mas tendo em conta que as associações e os seus bombeiros têm sido chamados, cada vez mais, a intensificar a sua disponibilidade e meios, com custos crescentes associados, torna-se evidente que a própria comunidade deve ser chamada à responsabilidade de os apoiar, o Estado deve garantir os apoios verdadeiros e não os que pretende fazer crer, e as autarquias devem prosseguir no bom caminho, mesmo se ainda há algumas que se furtam a essa responsabilidade.

No caso dos benfeitores e mecenas apenas se pede que prossigam, que intensifiquem os apoios quando tal for possível e, para já, cumpram a responsabilidade social que têm cumprido até agora, de forma exemplar.


                                                                                                                                          Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia



 

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