PUB

Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quarta-feira,

02/12/2020

03:44

E um obrigado aos bombeiros

31/07/2020 12:22:45

O cidadão José Barros foi vítima de um acidente de viação grave em julho de 2019 e foi socorrido então pelos Bombeiros Voluntários de Fafe. Fez questão de, passado um ano, e já em fase de convalescença umas das suas primeiras saídas fosse precisamente para visitar os bombeiros que o socorreram e salvaram.

Apresentou-se então perante o comandante Paulo Ferreira e todos os operacionais que o socorreram com um sonoro obrigado, na qualidade de “vivo e agradecido”.

Como o José Barros, ao longo da história das associações e dos corpos de bombeiros, há muitos exemplos semelhantes. Muitos deles que, como os próprios testemunham, se sentiram já do lado de lá, mas que a competência e a tenacidade dos bombeiros foram a mola e a razão para que se voltassem a sentir do lado de cá. Mas, também sabemos, nem todos têm tido a dignidade e o sentido do dever para o fazerem. Mas, não é por isso que os bombeiros voltarão a socorre-los, a eles ou outros, sempre que tal for necessário.

As demonstrações de gratidão, de um sonoro e simples obrigado, ou um abraço que só por ora não podemos dar, são porventura a maior recompensa que cai bem dar e cai bem receber. É certo que os bombeiros não vivem disso nem para isso, mas, todos os sabemos, é sempre bom, sabe bem que o nosso trabalho seja reconhecido, em particular, em momentos críticos e complexos como aqueles que envolvem o apoio e o socorro a sinistrados e doentes. Quantas vezes os bombeiros foram a mão amiga, a mão quente que nos segurou, que nos estimulou e deu vida.

Há momentos na vida que não esquecemos pelas razões mais diversas. Podem ser momentos de alegria ou de tristeza, vividos por nós ou pelos nossos próximos, mas todos eles fazem parte da nossa memória e todos eles, de uma forma ou de outra, marcam e influenciam a nossa forma de estar na vida.

As bombeiras e bombeiros, antes de o serem, são também seres humanos, cidadãos com percursos de vida diferentes, experiências diversas, mas uma missão e uma convicção comum sentida e praticada no dia a dia. Por isso, sendo diferentes dos restantes nesse domínio, também são iguais nos outros, na busca do bem-estar e da felicidade, na busca de uma realização profissional e familiar, vivendo e expressando os mais diversos sentimentos, vontades, sonhos e espectativas.

Ser bombeiro é ser um cidadão empenhado numa função própria, que envolve conhecimentos, competência, mas também desgaste físico e psicológico, incomodidade, desconforto, muitos riscos e também muita vontade. Por isso, não o é quem pode, mesmo que até reúna condições técnicas para o ser, mas quem quer, quem verdadeiramente o quer ser e faz disso um desígnio de vida.

BLOCO-DE-NOTAS.jpg

Inúmeros grupos sociais e instituições têm estado envolvidas no combate à pandemia COVID 19, com diferentes graus de empenhamento e riscos associados. São, desde logo, os profissionais de saúde, médicos, enfermeiros e auxiliares, são os lares de idosos, técnicos e auxiliares dos mesmos, os elementos das autoridades policiais e, com particular incidência, os bombeiros.

O empenhamento dos bombeiros na primeira linha do combate à pandemia, por outro lado, não os dispensa nem alivia de tantas outras missões, seja no combate a incêndios, acrescidos agora dos florestais e rurais, seja no pré-hospitalar, no socorro a vítimas de acidentes rodoviários, seja ainda no apoio e socorro nas praias ou, inclusive, no transporte de doentes não urgentes com os riscos, precauções e mais custos associados.

O País tem-se prodigalizado em homenagens justas aos profissionais de saúde, e os bombeiros até têm estado sempre na primeira linha delas. E, por certo, o repetirão sempre que para tal forem desafiados. Mas a justeza dessas homenagens não dispensa nem podem desvalorizar outras, nomeadamente aos próprios bombeiros.

De facto, neste processo longo, doloroso e difícil da pandemia tem tardado também uma homenagem aos bombeiros por razões mais que óbvias e justificadas. Os bombeiros são cidadãos como os outros, obrigados a gerir os receios, direi mesmo medos, que a situação gera. Mas também a apoiar e a gerir os medos, os egoísmos, as reservas e preconceitos dos outros que apoiam e socorrem.

Há uma marca indelével que faz a diferença entre uns e outros. Todos sentem receios e medos, mas os bombeiros, apesar disso, ultrapassam-nos em prol dos seus concidadãos e ninguém pode ficar indiferente a isso.

À consciência dos bombeiros pelo dever cumprido, na maior parte das vezes em momentos difíceis, seria importante e justo acrescentar um momento, uma palavra, um gesto de obrigado. Não é à espera disso que eles vão continuar a fazer o mesmo de sempre, a correr os riscos de sempre e a empenhar-se no mesmo de sempre. Mas, quando lembrados e homenageados, não deixarão de o fazer porventura com mais calor nas suas almas.

PUB