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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

domingo,

19/08/2018

17:08

Dar cartas com mérito

08/06/2018 11:50:48

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Tenho falado várias vezes do tema. Trata-se de matéria que ficará, sem dúvida, para a história dos bombeiros portugueses como um marco importante. Falo na participação crescente das mulheres no mundo dos bombeiros.

Ficará para a história como expressão inequívoca da evolução que tem vindo a ocorrer na sociedade e, também, como demonstração de que no mundo dos bombeiros não é necessário abrir excepções ou estatutos proteccionistas para que as mulheres possam participar e intervir nele por direito próprio.

De facto, ao contrário do que passa em outros sectores, inclusive no da participação cívica e política em geral, o universo dos bombeiros não está sujeito a quotas de género ou a qualquer lei de paridade que proteja ou acautele a participação das mulheres nele.

Todos sabemos que o mundo dos bombeiros foi ao longo de muito tempo um mundo masculino, em muitos casos, até, integralmente masculino, seja nas áreas operacionais ou também dirigentes.

Houve muitas razões que levaram a isso. Que, em abono da verdade, por um lado, correspondiam à matriz comum da organização associativa então vigente no nosso país, e por outro, à actividade específica dos bombeiros a exigir robustez e condições físicas que só o género masculino poderia garantir.

Ao longo do tempo, foram várias as tentativas para integrar mulheres nas fileiras. Algumas são antigas e até com balanço positivo. Vejam-se, por exemplo, alguns crachás de ouro que têm sido atribuídos a mulheres bombeiros e o que isso significa de mérito, empenhamento e tempo de serviço. Mas, outras tentativas terão sido mal sucedidas, por motivos diversos, mas que terão levado muitas associações a repetir a experiência muitos anos depois e, então, com sucesso.

Do mesmo modo que, em muitas circunstâncias, se registava uma resistência passiva ou activa ao ingresso das mulheres em corpos de bombeiros, quer a partir da própria comunidade, quer a partir do interior das próprias associações, também foi acontecendo uma mudança muito significativa de postura e atitude em ambas, em especial, por mérito das próprias mulheres.

O mundo tem vindo a mudar e, sem qualquer dúvida, a participação da mulher em tarefas e missões antes apenas indicadas para os homens é uma das expressões mais fundas dessa mudança.

Caso, por exemplo, em função da necessidade de preencher lugares no corpo de bombeiros, se tivesse recorrido a quotas de género ou regras de paridade subsistiria sempre a dúvida, profundamente injusta porventura, sobre se a presença das mulheres nas nossas associações se ficaria a dever apenas a essa perspectiva ou se, ao invés, se ficaria a dever exclusivamente à vontade e ao mérito das mesmas.

Sobre isso, nos bombeiros nunca nos assaltarão dúvidas desse tipo porque, na realidade, as mulheres vêm para os bombeiros por direito e mérito próprios, que demonstram à saciedade a cada passo na sua presença e intervenção no seu seio.

A sociedade portuguesa deveria ler e colher dos bombeiros esta extraordinária experiência cujo impacto as sucessivas escolas de recruta e até escolinhas de infantes e cadetes bem testemunham e demonstram.

O processo de mudança para acolher o crescente número de mulheres nas suas fileiras fez com que as associações se vissem a braços com a necessidade de alterar os próprios espaços dos quartéis com novos balneários e camaratas femininas antes inexistentes ou de dimensão desadequada para a concretização da mudança. De facto, ao longo dos anos a inadequação das instalações para acolher as mulheres em paridade com os homens foi um dos grandes óbices à sua integração. Aliás, muitas obras que nos últimos anos ocorreram ou estão a decorrer em muitos quartéis de bombeiros incluem incontornavelmente a necessidade de criar ou ampliar as camaratas e balneários femininos. Verifica-se até em muitas situações a tendência crescente do aumento maioritário de mulheres nos corpos de bombeiros.

E até para essas obras as associações nunca contaram com quaisquer apoios especiais na salvaguarda da paridade, das quotas ou do género. Fizeram-nas e assumiram esses custos na lógica de que, de facto e comprovadamente’, nos bombeiros, homens e mulheres são sempre iguais.

Nas últimas duas edições do jornal demos conta das quatro mulheres comandantes de bombeiros no momento em funções. A elas juntam-se também muitas outras, nos quadros de comando, chefias, oficiais bombeiro, graduados e operacionais. E também, como dirigentes, nos diferentes órgãos sociais das associações.

Neste processo de mudança da integração das mulheres nos bombeiros, contudo, nem tudo terá sido fácil. Por certo, de início, implicou também muito sacrifício pessoal, muito empenhamento, muito esforço e convicção.

Hoje, apesar da facilidade com que esse processo se apresenta, porém, importa elogiar todas aquelas que ao longo dos anos foram verdadeiras heroínas e exemplos da vontade vencer e de se afirmar num mundo antes tradicionalmente masculino. Estamos-lhes gratos pelo exemplo dado. São credoras da nossa admiração e respeito. Dão cartas com mérito

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

 

 

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