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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

24/06/2019

16:58

Cada um tem a sua praia

07/04/2019 10:38:12

A seca já praticamente instalada e as previsões de falta de chuva nos tempos mais próximos fazem antever, desde já, o aumento do risco de incêndio rural ou florestal.

Esta situação, que não é nova, nunca assustou os bombeiros. Trata-se de um indicador importante, que eles consideram e registam, um alerta porventura, mas nada que altere a sua forma de encarar essas situações de risco, como tantas outras a que são chamados ao longo do resto do ano.

E, como já tanta gente disse e redisse, nunca nenhum fogo ficou por apagar, pese embora a complexidade e as dificuldades de que cada um se revista.

E isso vale, é bom que se diga mais uma vez, para os incêndios florestais e rurais, como para os incêndios urbanos e industriais, para as operações de resgate e salvamento nos mais diversos cenários, incluindo acidentes de viação, como ainda para as mais diversas situações de socorro pré-hospitalar.

Os incêndios florestais, como também tanto se tem repetido, correspondem a 7 % do conjunto de intervenções de socorro dos bombeiros ao longo do ano. Tem a sua expressão própria, tem a sua escala própria. Mas, como também porventura se vai de novo apontar, preocupam tanto os bombeiros como os restantes tipos de incêndios e ocorrências de qualquer outro tipo ou género.

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Com o espectro da seca surge também o desassossego, primeiro contido, depois mais visível, em muitos gabinetes oficiais. E o receio é de que se isto correr mal, porventura, também alguns lugares estarão em perigo. Receio e desassossego que, ao contrário, nunca se sente durante o resto do ano.

No caso dos bombeiros, seja incêndio florestal, acidente de viação, queda em arriba ou doença súbita, para não falar de tantas outras situações, a postura é a mesma. A serenidade, a competência e o espírito de sacrifício são denominadores comuns em todas essas e outras situações, independentemente da exposição mediática, do desassossego dos gabinetes oficiais ou dos receios dos políticos ou outros.

Os bombeiros não são um grupo à parte. No seio da Proteção Civil até são o grupo largamente maioritário. Mas o problema não é esse. De facto, são aqueles que não precisam de se por em bicos de pés para que lhes seja reconhecida a visibilidade e, acima de tudo, o mérito da disponibilidade, da competência e da eficácia. Ao contrário de outros grupos que, não a função, mas só a truculência do comportamento e a postura exibicionista é que garantem a sonhada visibilidade, mesmo que para isso seja necessário denegrir ou menorizar outros.

A sucessão de novidades, inquéritos, auditorias e tantas outras coisas com que os bombeiros têm sido mimoseados nos últimos tempos fazem crer, até concluir, que andarão a fazer sombra a muitos figurões, que até podem estar ou ter feito parte do seu seio.

Pese embora, a humildade com que os bombeiros sempre se pautaram e conduziram, importa dizer, e sublinhar até, que há pessoas de quem definitivamente os bombeiros não aceitam recados nem lições.

Primeiro, porque muitas delas nem para elas próprias sabem, muito menos para ter a pretensão de ensinar seja o que for, e a quem for. E, em segundo lugar, porque para além dos objectivos estritamente pessoais de carreirismo, e consequente visibilidade mediática bacoca pretendida, demonstram ainda que estão ressabiados e eivados de má fé. De facto, apenas querem denegrir a imagem daqueles de cujo seio, ou foram expulsos por indignidade, ou de que não tiveram a coragem de fazer parte, e fazer esmorecer a força anímica e o espírito de sacrifício de quem ficou.

São figuras que, tendo passado ou não pelos bombeiros, ainda que como meros “pára-quedistas”, se insinuam sempre como especialistas de grande quilate e tentam ganhar asas para outros voos, normalmente a baixa altitude, para que não sejam detectados nos radares as suas reais intenções, a baixeza dos seus sentimentos e a ignominia das suas atitudes. Mas fica sempre o seu registo e só é enganado por eles quem quer ou ande distraído.

É comum dizer-se que cada um tem a sua praia e que ela é, antes de mais, a sua zona de conforto e bem-estar. Com cada um de nós assim será. E acontecerá também que haja uma praia comum a muitos de nós, como seja o universo dos bombeiros e, em particular, o domínio de cada uma das nossas associações de bombeiros.

A escolha dessa praia é uma opção individual, mas também partilhada em função das afinidades pessoais e colectivas aglutinadoras e muito fortes, como acontece nos bombeiros.

Os bombeiros têm sido a minha praia desde os 14 anos, como aconteceu ou virá a acontecer com muitos de vós. É onde gostamos de estar, é onde nos sentimos bem, é onde nos encontramos com aqueles com quem partilhamos afinidades fortíssimas, independentemente dos extractos sociais e económicos a que cada um pertença.

Mas, pese embora os laços fortíssimos que nos unem, por vezes começo a ter a sensação que esta começa a não ser a minha ou a praia de todos. Praia, a quem eu, e tantos de vós, com maior ou menor expressão, dedicámos horas, dias, meses, anos e até décadas da nossa existência.

Acreditem que, no meu caso, de todo, não é desânimo nem cansaço, mas apenas tristeza. Tristeza pela presença de gente que tendo-se afirmado dos nossos, de facto, não o são nem nunca o foram. Apenas se insinuaram e fizeram crer pertencer e simularam comungar dos mesmos sentimentos.

Ainda outro dia voltei a visitar o talhão da minha Associação no cemitério local. Há momentos, não de dúvida, mas de algum cansaço ou até desfalecimento, em que busco esse ambiente para reflectir e até me inspirar. Em que me quedo por momentos em cada uma das lápides com nomes de gente que conheci e que me diz muito.

Que dirão esses, e tantos outros que deram o seu melhor pelas nossas associações, a partir de onde estão? Será que na condição em que se encontram alguma vez se questionam sobre o que fizeram, sobre a opção que tomaram de ser bombeiros? Será que terá valido para muitos deles a pena, até para alguns com o sacrifico da própria vida? Será que todos eles merecem que se lhes volte as costas?

Invariavelmente, no final de cada dessas visitas que faço, venho confortado, venho animado, venho entusiasmado em defender, não só a minha, mas a praia onde já tantos passaram e se sentiram bem, como eu, e onde muitos virão a estar e a sentir-se por certo felizes e realizados pela defesa do bem comum, como os antigos sentiram, e hoje numa simples lápide continuam a afirmar e a testemunhar.

Cada um de nós tem a sua praia e, melhor que isso, é que seja uma praia comum, como continua a acontecer, aos que estiveram connosco, e de quem somos guardiões da memória, aos que estão, e a quem incumbe prosseguir, e aos que vierem próximo ou no futuro, e a quem caberá dar continuidade à mesma missão.

                                                                                                                                                                     Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

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