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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quinta-feira,

06/08/2020

08:08

Abertura de porta com socorro

19/02/2020 09:56:58

É cada vez mais comum acontecer isso. É um episódio que transporta em si sempre circunstâncias dramáticas a que os bombeiros não são nunca alheios. Muitas vezes, aliás, diz até respeito a alguns dos utentes que transportaram para consultas exames e tratamentos, ou outros casos de cidadãos conhecidos com quem lidaram por outras razões.

A abertura de porta com socorro é na quase totalidade dos casos a constatação de uma morte, de alguém que não era visto há muito pelos vizinhos ou familiares, quando os há.

Muitas vezes é tão somente o alerta para um cheiro fétido à porta da habitação ou nas imediações.

Todas essas situações, que acabam de convergir no mesmo, ou seja, a constatação de uma ou mais mortes, transportam consigo experiências e histórias humanas dramáticas, de solidão, abandono, doença e até incapacidade física e mental. Um fim da linha trágico e inglório para muitos.

As estatísticas vão-nos dizendo que é uma situação cada vez mais frequente, devido a debilidades da própria sociedade, da incapacidade de a comunidade cuidar dos seus e da falta de recursos vários para atempadamente poder atalhar ou prevenir os mesmos casos.

Na grande maioria, trata-se de idosos esquecidos e desprotegidos que, antes do desfecho que se avizinha, tantas vezes, durante dias, semanas ou até meses a fio, as únicas pessoas com que contactam são precisamente os bombeiros quando os socorrem ou transportam para tratamentos. E são muitas vezes os bombeiros e as suas associações que lançam os alertas para entidades locais sobre essas situações. Aliás, se muitas situações de abertura de porta com socorro não sucedem ainda mais é devido à intervenção dos bombeiros.

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                                                                           Foto Lusa

E, os bombeiros mais até poderiam fazer se fossem apoiados para tal. Na verdade, os bombeiros acabam por ser também cuidadores tão frequentes quanto informais. E, não obstante, a sociedade e até as próprias entidades oficiais reconhecerem que os bombeiros desempenham tal função social, que deveria ser apenas complemento daquela que outrem deveria cumprir, mas não faz, na verdade são os bombeiros que fazem, mas não contam com ajudas para tal. Substituem outros nessa função e nem para isso são ajudados.

No final, são as próprias associações de bombeiros voluntários a assumir a função social e os respetivos custos, que lhes deveriam ser marginais, e apesar das muitas dificuldades que já sentem para cumprir as missões específicas que lhes estão cometidas ainda têm que arcar com estas.

Em momento algum os bombeiros tentaram tirar partido dessa função, cujo mérito lhes é reconhecido e que fazem por vontade própria. Mas também por isso, parece-nos legítimo e lógico, como tantas vezes a LBP tem demonstrado perante os ministros respetivos, que lhes sejam garantidos os recursos necessários que apenas satisfaçam a sustentabilidade desta função social, informal e lateral, mas profundamente eficaz.

Se assim não fosse, muitas mais aberturas de porta com socorro haveria.

                                                                            Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

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